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Artigos

 
  • América Latina, democracia e guerra civil

    Jornal do Commercio (Rio de Janeiro), em 15/09/2006

    Os incidentes finais da legitimação da chapa presidencial eleita no México abrem uma nova brecha na validade das instituições latino-americanas. O candidato Lopez Obrador, perdendo a eleição por frações mínimas, pediu e obteve a recontagem de votos, forçando ao extremo as regras do jogo democrático. Não obstante a clara sentença final da Corte Suprema pelo candidato Fernando Calderón, o perdedor, em manifestação inédita, neste último século, em todo o Continente, negou-se em aceitar a voz das urnas referendada pelo martelo do Judiciário.

  • A prudência e o lazer

    Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), em 15/09/2006

    Em tempos de eleição duas coisas são impossíveis: lazer e meditação. Quanto ao primeiro, nem pensar. Todos os momentos são tomados e às vezes os organizadores de agenda fixam vários eventos na mesma hora: às oito horas, três cafés em lugares diferentes, para discutir coisas diferentes. E aí entram taxistas com enfermeiros, pequenas empresas com agentes de saúde. A tudo se tem que estar atento. Isto sem perder a paciência e atrasar. Mas políticos não têm horários. Horário foi feito para organizar a vida da gente e dos outros, mas a minha experiência é que o atrasar faz parte de nossa cultura política. Eu fico angustiado. Sou homem de cumprir horário, mas quase sempre recebo a desculpa: "O pessoal não chegou. O senhor chegou na hora…".

  • Poesia como chuva

    Tribuna da Imprensa (Rio de Janeiro), em 12/09/2006

    Mergulho nos poemas de Amélia Sparano. É mergulho mesmo, com toda a atenção posta em suas imagens, em suas palavras, em seu ritmo e até em seu silêncio. Entre a leitura de um poema e de outro sinto que o movimento de significados se apossa de mim de tal modo que percebo os dois idiomas em que ela escreve - o italiano e o português - como que se unindo e se mesclando de modo natural.

  • Poderes do Estado

    Correio Braziliende (Brasília), em 09/09/2006

    A expressão “poderes do Estado” adquiriu, ao longo da história, sentido dúbio e polissêmico. Além de denominar as instituições que representam a soberania do Estado contemporâneo, abrange o conjunto de prerrogativas e competências concedidas aos titulares que compõem os órgãos da soberania. Delimitadas pelos textos constitucionais, elas configuram a tênue linha que separa a sociedade política da sociedade civil. A mais visível dessas fronteiras é a que distingue as atribuições do Estado das competências estabelecidas para o exercício das atividades econômicas, tanto pelo poder público quanto pela iniciativa privada.

  • Uma lei que deu certo

    Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), em 08/09/2006

    Muitas queixas se ouvem, muitas observações se fazem e muitas críticas nascem. Alguns políticos e outros assemelhados lamentam que as modificações da lei eleitoral tenham tirado o charme das eleições. Sentem falta dos grandes shows, dos brindes, dos outdoors, e reclamam que o clima de eleição (ou festa) desapareceu. Tudo parece frio e às vezes nem se sabe se existe eleição.

  • Finalmente, um partido conservador

    Jornal do Commercio (Rio de Janeiro), em 08/09/2006

    A candidatura Alckmin perdeu, definitivamente, a velocidade de escape e começa a ser empurrada para debaixo do tapete em várias campanhas estaduais. A melhora esporádica em percentuais compensa-se com a queda, esta, sim, prematura de Heloísa Helena, perdendo os dois dígitos. O desfecho da campanha fortalece o Brasil profundo, de par com a desmoralização objetiva - e inquietante - do poder legislativo e inclusive em parcela significativa do que foi a contaminação da primeira geração petista trazida ao poder, suas benesses, suas tentações, ou seus riscos calculados.Inquieta o quanto o partido de Lula que não logrou renovar o seu plantel de escolhas representativas, mesmo que a crise permitisse a renovação interna dos seus quadros, num exercício de crítica e autocrítica que esperaram as parcelas de seu eleitorado, ainda lindeiras do arranco original de Lula.O novo governo não encontrará o PT como partido dominante e recorrerá dobradamente a realpolitik de constituição de uma maioria operacional. E redobrando as dificuldades dos adesismos, nascidos das clientelas, ou dos pactos pecuniários, deparará a posição estratégica do PMDB na condução deste processo, como que condenado à política de mudança tanto o PSDB soldou-se ao PFL como as legendas do minguante conservadorismo nacional.É nesta mesma medida que a nova investidura de Lula se apoiará na opção de base que cauciona o sentido da reeleição. O presidente não terá mais a mediação imediata de suas maiorias anteriores. No vácuo do PT crescem a presença dos sindicatos - e a tentação do Estado sindical - e dos movimentos sociais, deixados à ilharga no primeiro mandato pela sua passagem à institucionalização - para muitos, prematura - das conquistas das Ongs. Foi o resultado do trato do problema das minorias, à margem das efetivas pressões sociais que lhes outorgassem efetiva prioridade nas realizações do governo.A reeleição defrontará o começo de uma mobilização política que será o resultado natural, ao mesmo tempo, do impacto das políticas do minicrédito, do auxílio à agricultura, e de seu avanço tecnológico, mas, sobretudo, do novo estímulo à produção familiar, onde hoje se registra a maior dinâmica de um salariado brasileiro no seu quadro assumidamente informal. Com efeito, os reforços de suporte, e os prazos de paciência com o novo governo Lula, surgirão da inversão criadora nas políticas de benefício ao Brasil de fora, nas etapas de atendimento aos sem-crédito para sucessivamente responder aos sem-terra, e finalmente aos sem-emprego.Não temos precedentes de como a reação a estas prioridades e o levante das consciências políticas dos beneficiados volverão após a reeleição. Nem, sobretudo, de que forma o novo potencial reivindicatório se exprimirá diante do colapso das mediações anteriormente imaginadas entre movimentos sociais, sindicatos e partidos políticos. Mas é claro que a nitidez da investidura do segundo mandato nasce sempre dentro daquele sentimento mais profundo da "virada de página", da visão definitiva de que o risco de Lula não se compara com o temor de retorno à situação anterior no que afinal a pretendida social-democracia do PSDB, o pefelismo, à marca tradicional da vida política maquiada pelo reformismo cutâneo, e hoje conformado com a redundância do seu discurso.O debate dos cenários da reeleição começa a partir da solidão de Lula no poder, sem o PT e sem herdeiros, confrontando, como novos fortins do status quo, as governanças dos maiores Estados do país. Ao mesmo tempo, esta busca de novas maiorias importará na convivência com o PMDB, na conversão do partido do Dr. Ulysses, numa força, pelo menos ancilar, da opção de mudança, expulsando-o da condição de partido oligárquico tradicional, repartida com o pefelê.A tarefa é facilitada pela ocupação, desde já, desta parceria do imobilismo pelo PSDB. Este terá que decidir, a prazo curto, se aceita ou não a liderança do conservatismo brasileiro com toda a sua nitidez, e o que seja uma primeira composição ostensiva do remanescente das forças e interesses do porão do status quo. Iremos, enfim, a meridianos claros, frente à escolha de base do Planalto.A pecha de anticlímax, emprestada ao primeiro semestre de 2006 pode continuar na abertura do novo mandato. Mas já liberado da cinza e da desmoralização dos denuncismos moralistas, a reeleição sem retórica colhe os resultados deste novo alinhamento da nossa consciência cidadã, a partir dos neo-aquinhoados com a mudança, e não do efeito mimético das cúpulas do país instalado, suas insatisfações, impaciências e ideologias.Muito da consolidação do novo governo se beneficiará, neste anticlímax de somatório, quase pedestre, de resultados, no seu tempo de maturação, muitas vezes esquecido, frente às agendas da opinião pública e suas condenações. A prática tem vigências sem escape, ao contrário da utopia e suas retumbâncias. E a mudança se mede mais pelo que aposenta do que pelo que anuncia. A oposição está aí mais disciplinada e nítida, como quem conta seus trunfos regressivamente. O caminho à frente sabe por onde ir, por entre nomes e sortes lançadas, de abominação como de desencanto. É o de Lula, apesar de Lula.

  • O livro em cena

    O Estado do Maranhão (São Luís ), em 07/09/2006

    Foi uma idéia das mais felizes - e que se realizou pela terceira vez, em Curitiba - o evento intitulado “Livro em Cena”, promovido pelo Colégio Decisivo. Nas magníficas instalações da Estação Embratel Convention Center, na capital paranaense, 1.400 pessoas aplaudiram com muita ênfase as apresentações de membros da Academia Brasileira de Letras, fazendo a análise de escritores de nomeada e que costumam ser citados nos vestibulares. A idéia nasceu com Carlos Heitor Cony.

  • População excluída

    Tribuna da Imprensa (Rio de Janeiro), em 05/09/2006

    Dos grandes problemas brasileiros do momento, sou de opinião de que o mais grave e mais urgente é o da marginalização da comunidade negra no País. A festa da abolição foi magnífica. Discursos, passeatas, gritos, vivas, páginas e mais páginas da imprensa exaltando o ato. José do Patrocínio Filho coroado como herói nacional, tudo no melhor estilo brasileiro.

  • Cultura Midiática

    Jornal do Commercio (Rio de Janeiro), em 02/09/2006

    Por iniciativa de Marcos Vilaça, a Academia Brasileira de Letras promoveu um elogiadíssimo debate entre especialistas que se debruçam sobre a Cultura Midiática, ainda sem uma resposta clara se é instrumento de poder ou persuasão.Depois das falas de Domício Proença Filho, Teresa Cruvinel, Merval Pereira, José Nêumanne Pinto e Josias de Souza, a dúvida não foi inteiramente sanada, mas ficou no público de 400 pessoas (Teatro R. Magalhães Jr.) a sensação de que muitos mistérios ainda permanecerão na cabeça dos que trabalham no fascinante campo da comunicação social em nosso País.Vários temas paralelos foram levantados no debate, como a discussão em torno da sobrevivência do jornalismo cultural, na sociedade do conhecimento. Embora lamentando o que viria a comentar, o escritor José Nêumanne, afilhado de Rachel de Queiroz, confessou claramente que "o jornalismo cultural está morto. O seu espaço é cada vez menor, nos grandes jornais, e das revistas então nem se fala." Não acredita em culpados, mas essa é a realidade que deve ser assumida por todos.Estimulou-se, na ocasião, a luta pelo fortalecimento das instituições democráticas, com o uso da palavra e a sua valorização. A revolução digital seria ou não ser culpada pela redução das vendas nas livrarias, mas isso pode ser uma conseqüência episódica do fenômeno. À medida que cresça a necessidade prevista da interatividade, o ideal será a intercomplementaridade de computador e livros, onde é possível sedimentar a cultura do jovem. Ainda não estamos diante dessa sinergia, mas ela é aconselhável, sobretudo nas escolas, onde se processa a relação ensino-aprendizagem.Também o uso indiscriminado da internet foi questionado. Chegou a ser dito que se trata de um "poderoso instrumento de desinformação, tamanho o volume de bobagens que ali se insere." Com um cuidado que não se pode dissociar do bom senso da população: não podemos nos atrelar, assim, ao primado da versão. Pois seria o fim da verdadeira informação, matéria-prima de jornais, revistas e televisões abertas.O bom jornalismo exige que as notícias sejam checadas e, no caso de uma grave acusação, que se dê o direito de resposta ao acusado. Isso é do jogo democrático, até agora ausente da enxurrada de informações irresponsáveis da internet. Trata-se de um uso abusivo, com um grande volume de pornografia e pedofilia, o que parece um movimento crescente e sinceramente lamentável.Há uma redução na circulação de jornais, no mundo inteiro, como se a internet pudesse substituí-los. Ninguém acredita nessa possibilidade, mas numa acomodação natural aos novos tempos. Os jornalistas, hoje generalistas, precisam encontrar matérias atraentes para que esse interesse secular não seja ultrapassado pela informação ligeira e, por vezes, sem fundamento.Veja-se o caso das eleições e as pesquisas de opinião. O público hoje reage de forma diferente até mesmo da eleição passada. Está mais interessado em benefícios do que em discursos programáticos ou até mesmo em denúncias, por mais verdadeiras que sejam. É mudança de atitude que os políticos passaram a perceber e a se valer, nas aparições feitas na televisão aberta. Quem prometer mais tende a levar vantagem. A mídia continua a ter essa força, embora existam versões de que o seu poder não é tão grande quanto se proclama. Uma boa discussão.

  • Poderes do Estado

    Estado de São Paulo (São Paulo), em 01/09/2006

    A expressão "Poderes do Estado" adquiriu, ao longo da História, sentido dúbio e polissêmico. Dos primórdios do século 18 aos nossos dias tem servido para designar um dos mais antigos princípios criados pela filosofia política, o da separação funcional das instituições que representam a soberania dos Estados. Tais Poderes, contudo, há muito superam a divisão tripartite concebida por Locke e aprimorada por Montesquieu. No Brasil adotamos o princípio do "quarto Poder" do Estado, o Moderador, defendido por Benjamin Constant de Rebecque, escritor franco-suíço, e também chamado de Poder Real. Como muitas vezes viria a ocorrer ao longo do nosso evoluir histórico, a inovação foi mal aplicada. O que seria a função moderadora do monarca aos sistemas parlamentaristas se transformou em poder pessoal do imperador, ao ser exercida cumulativamente com o Poder Executivo. Com a engenharia constitucional de 1988, o "quarto Poder" foi inquestionavelmente atribuído ao Ministério Público, pela soma de poderes e atribuições a ele conferido.Não é só no sentido de denominar as instituições que representam a soberania do Estado contemporâneo que historicamente nos referimos aos "Poderes do Estado". A expressão abrange, também, o conjunto de prerrogativas e competências concedidas aos titulares que compõem os órgãos da soberania. Delimitadas pelos textos constitucionais, elas configuram a tênue linha que separa a sociedade política da sociedade civil. A mais visível dessas fronteiras é a que distingue as atribuições do Estado das competências estabelecidas para o exercício das atividades econômicas, tanto pelo poder público quanto pela iniciativa privada. Assim, de um lado, a ênfase recai sobre as instituições representativas das funções do Estado e, do outro, sobre o poder limitado a que se refere o neologismo "poliarquia", utilizado por Robert Dahl para exprimir a multiplicidade dos centros de poder que tornam cada vez mais complexas e, ao mesmo tempo, mais difíceis de operar as democracias hodiernas.Ao regular os limites e Poderes do Estado e assegurar os direitos e garantias dos cidadãos, as Constituições transformaram-se, ao mesmo tempo, em emanação da soberania nacional e instrumento jurídico de defesa dos indivíduos. Dessa maneira se superou a velha querela que opunha a concepção de ser o Estado emanação do Direito à de ser o Direito emanação do Estado. Um novo mecanismo constitucional foi, por isso, regulado em quase todas as Constituições depois da 2ª Grande Guerra Mundial, ao acrescentar um novo Poder à estrutura do Estado, os tribunais constitucionais. Estes são Cortes especiais que procuram manter a eficácia das respectivas Constituições, por meio da hermenêutica, adaptando-as às rápidas transformações por que passam as sociedades. A concepção desse "quarto Poder" se baseia na constatação de que os textos constitucionais não são apenas instrumentos jurídicos, mas também o mecanismo político que mantém viva a prática constitucional, dispensando o recurso às constantes mudanças, por intermédio do oneroso recurso às emendas constitucionais, que tornam os textos dessa natureza cada vez mais conflitivos, geram dúvidas e instabilidade jurídica.Algo que se verifica nos atuais textos constitucionais é que eles são, sob o aspecto técnico-jurídico, "más Constituições", conforme apontou Giovanni Sartori no seu livro Elementos de Teoria Política, editado em 1992. Sua lição parece cada vez mais não só válida quanto oportuna: "Encontram-se nelas deslumbrantes profissões de fé, por um lado, e um excesso de detalhes supérfluos, por outro. Algumas delas já são tão 'democráticas' que já não são Constituições, na medida em que ou bem tornam o funcionamento do governo demasiado, complexo e complicado, ou bem ambas as coisas. (...) Nestas condições, a não-aplicação pode ser um remédio à falta de aplicação. Portanto, devemos regular caso por caso. Seria contraproducente ou pouco sensato aceitar, em todos os casos, o ponto de vista estritamente jurídico segundo o qual toda Constituição deve ser aplicada a qualquer custo. (...) Pessoalmente penso que devemos aceitar sempre se a não-aplicação afeta o funcionamento do governo em relação aos objetivos fundamentais do constitucionalismo, ou não. No primeiro caso, pode-se falar de delitos de ausência de aplicação (conforme define Loewenstein), enquanto no segundo não se pode falar propriamente de delito."Sob esse aspecto, a nossa Carta de 1988 - por sinal, a mais extensa de nossa História - padece, entre outros, do equívoco de acolher inúmeros dispositivos que não são materialmente constitucionais. Volto a Benjamin Constant para lembrar que, segundo ele, a "duração de uma Constituição é bem mais garantida quando encerrada em seus limites naturais do que quando repousa no apoio enganador de uma veneração supersticiosa".Quando um problema político - e o constitucionalismo é inevitavelmente a solução jurídica de um problema jurídico - se despolitiza, ensina Sartori, "as conseqüências efetivas de um ordenamento jurídico neutro são e continuam sendo, ainda que involuntariamente, políticas; e isso beneficia aos demagogos e aos déspotas". Os períodos de autoritarismo e de populismo por que temos passado nos últimos 75 anos não são, em última análise, senão o resultado dessa perversa pendularidade que nos toca corrigir, por meio de uma profunda reforma das instituições políticas, mas também da mais relevante delas, a Constituição que temos e já deixou de ser um texto constitucional para se transfigurar num mero regulamento que entrava o desenvolvimento e constrange, ao mesmo tempo, a economia e a sociedade.

  • Dom Luciano, confessor da esperança

    Jornal do Commercio (Rio de Janeiro), em 01/09/2006

    Arremataram-se em Mariana as vigílias e as procissões que levaram, desde o falecimento do arcebispo, a 27 de agosto, ao clamor da permanência de sua presença pastoral. "Dom Luciano vivo", era o grito repetido do seu povo, reboando na praça central da segunda mais antiga Arquidiocese do Brasil. Fica a vinheta do povo-povo, desfilando diante de seu caixão, a flor depositada, o bilhetinho de oração e, sobretudo, o pedido de toque da carteira de identidade junto ao corpo de Dom Luciano. Dia e noite, sem madrugada de ausência, em São Paulo e, a seguir, em Mariana.Desde a Catedral da Sé, era como uma onda mobilizada, no misto entre a perda e a saudade, e o que o Arcebispo ensinava, sobretudo, à sua gente. Não há exílio, nem adeus, mas, sim, a irradiação de uma presença, que responda ao que foi o seu último recado ao receber o "honoris causa" da Universidade Católica de Belo Horizonte."Não me lembro de um dia sem felicidade", no que a preocupação com o outro se transformou na sua efetiva "segunda natureza", e na vigília sem cansaço, nem distração do que seja o entregar-se. "Sábio e santo", repetiam os pastores, remetendo a lembrança de Dom Luciano a dois dos seus antecessores, Dom Silvério, o erudito, membro da Academia Brasileira de Letras, e Dom Viçoso, o reformador do clero da Arquidiocese, e o primeiro defensor dos carentes à sua volta, em meados do século XIX.Impossível trazer a marca da dedicação do Arcebispo, entre tantas maneiras e formas de estar à disposição do outro. Seja ele o menino de rua de São Paulo, o ancião privado da última ternura dos seus, sejam os próprios sacerdotes, ou, sobretudo, os desmunidos, tratados eufemisticamente, de pobres. Esse trabalho múltiplo surgia na meditação e no serviço da Companhia de Jesus, que fez de Luciano seu primeiro Bispo, após a grande Renovação Conciliar do Vaticano II. E a idéia mesmo desse trabalho de entrega começaria em torno dos seus próprios irmãos do clero. Não houve mais retiros pregados nessas últimas décadas que os de Dom Luciano aos bispos e padres, à intimidade da abertura dos corações, que foram o seu tom e sua capacidade de desarme, diante da fé maior.Militância que vinha para Dom Luciano deste o cuidado dos companheiros de Santo Inácio com o agir à sua volta, com o romper inércias da fé e, sobretudo, vir às brechas do testemunho, dentro do rigor da meditação interior. Ainda na Companhia de Jesus, fora Reitor do Colégio Apostólico, Diretor da Faculdade de Teologia e Vice-Provincial Geral dos Jesuítas. Mas, sobretudo, Mestre da 3ª provação, que é a vocação especial, da ascese e da graça que reclama o aperfeiçoamento espiritual, o teste final para a plenitude inaciana. Resulta do implacável exame de consciência em trinta dias, de reexame da vida e de busca, de fato, do segredo e das expectativas da última doação.Talvez por essa exigência de militância, Dom Luciano tenha, no seu ministério, se dedicado, sobretudo, a um sacramento deixado quase fora da vida cristã, qual o da confirmação ou do crisma. Morreu na alegria de ter efetuado, ao longo da sua vida de bispo, mais de 100 mil unções à testa dos fiéis. E quantos, nas praças de Ouro Preto e de Mariana, agora, levantavam a mão, rememorando este momento de encontro, que Dom Luciano soube despertar irremissivelmente em suas vidas. Quantos padres foram ordenados, o último, há um mês em Dores do Turvo, em saída de horas, do Arcebispo, do Hospital de Belo Horizonte.Repetiram-se as presenças públicas, ao lado de Dom Luciano, nas exéquias finais. Tanto pode Aécio Neves falar da têmpera e da ternura de Dom Luciano, quanto Lula, deste dom da esperança, a confessá-la a qualquer classe, à abertura de qualquer diálogo, no desarme de qualquer desconfiança. Um Brasil que se faz - repetiu o Presidente - à imagem do Prelado de Mariana - não encontraria segmento, grupo político, bancada, que não se abrisse à interpelação ou ao pedido do Arcebispo.Bandeiras dos Sem-Terra na Praça da Matriz; da "vida pela vida"; da "via campesina"; flâmulas de tantos movimentos sociais, ao lado do que o povo "Kranaque" lhe trouxe de cânticos ao lado do caixão. Presença junto aos índios; junto aos quilombos; à pobreza envergonhada, junto aos deficientes físicos e mentais, nos dias de esperança do Hospital das Clínicas, em São Paulo, e do Bispo na UTI, a suscitar as missas e os rosários nos seus corredores.Nos tempos de uma "civilização do medo" era a própria recuperação do movimento ecumênico que se reunia em volta ao caixão de Dom Luciano. E não foi outro que o risco do genocídio no Líbano, que marcou os seus últimos artigos, inclusive o deixado interrompido, à hora em que saiu do quarto para as terapias de urgência.Todo o episcopado brasileiro fez de Dom Luciano o mais votado entre os escolhidos para a Comissão Permanente dos novos Sínodos que começa Bento XVI. E o Papa, no Vaticano, no dia de seu enterro, diante do retrato e da notícia, num frêmito de comoção, repetiu "Santo Bispo, de Deus e da Igreja".Nos momentos de secularização que vivemos - tão atrasados estamos, na "cultura da paz" e do desarme dos corações - o recado de Dom Luciano nos deu no coração do religioso de Minas, o recado de que participa todo o País. Não há gentios para o seu sorriso, nem prontidão ou desconfiança da alma diante de quem perguntou, por mais de seis décadas: "Que posso fazer?".

  • a grande ausente

    Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), em 01/09/2006

    No Brasil, nunca a política externa fez parte da política interna. As relações internacionais estão, na maioria das vezes, ao nível de relações diplomáticas, bilaterais e quando muito uma quermesse de reuniões em que predominam os comunicados finais.

  • Mestre Agostinho

    Tribuna da Imprensa (Rio de Janeiro), em 29/08/2006

    Achava-me em Londres, em 1994, quando Agostinho da Silva morreu. Assim que soube da notícia, escrevi sobre ele e sua obra para um jornal do Rio. Agora, que estamos comemorando o centenário de seu nascimento, vale a pena que se chame de novo a atenção para a importância de sua obra. De uma estirpe foi ele, a estirpe romano-visigótico-galego-luso-brasileira em que necessariamente nos inserimos. De estirpe é todo o gênio que, pés no chão, tem a visão do caminho.

  • O corredor agrícola

    Jornal do Commercio (Rio de Janeiro), em 26/08/2006

    A idéia de existir um corredor agrícola, no Rio de Janeiro, vem de longe. Começou em 1979, com 14 escolas da rede estadual de ensino, inclusive duas que foram especialmente criadas com esse espírito: uma em Teresópolis (Centro Interescolar Agrícola José Francisco Lippi) e outra em Valença (CIA Monsenhor Tomás Tejerina de Prado). A primeira foi inaugurada no final do nosso mandato (1983) e a segunda num dia inesquecível: choveu uma barbaridade. O par de sapatos do Secretário de Educação foi deixado na escola, como lembrança.Há pouco, o Corredor Agrícola foi recriado, pela Secretaria de Estado de Educação, desta feita com nove escolas. Quais as vantagens? Oferecer oportunidades aos jovens do interior e até mesmo a chance de vender os seus produtos nas feiras locais, carentes de hortigranjeiros de primeira qualidade, sem a absorção dos lamentáveis agrotóxicos em doses excessivas. A importância desse movimento é muito grande, pois até hoje o Rio de Janeiro, com excelentes condições de clima e solo, depende da importação de produtos agrícolas de estados vizinhos. Só produzimos cerca de 20% do que consumimos.Isso encarece os produtos essenciais à cesta básica dos cidadãos. Eles chegam por intermédio de caminhões, em percursos penosos pelo mau estado das nossas estradas, e naturalmente mais caros. Se formos examinar a relação custo/benefício, a conclusão será óbvia: temos que produzir aqui mesmo, aproveitando áreas disponíveis, no interior, pois nem todas foram tragadas pela voragem imobiliária ou pela visível industrialização que hoje marca o Estado fluminense.O objetivo dessas escolas é, após analisar e identificar as necessidades e demandas das regiões onde estão inseridas, aplicar e desenvolver iniciativas, por intermédio de alunos e professores, que são efetivadas nas próprias unidades ou até mesmo em pequenas propriedades rurais próximas. Na linha do combate à exclusão, na aprendizagem de técnicas adequadas e no estudo do mercado de comercialização, esse trabalho contribui para a melhoria da qualidade de vida dos que estão envolvidos no projeto.Por outro lado, ele se insere nos projetos mais amplos do Governo do Estado, que criou programas como o Frutificar, o Florescer, o Prosperar, o Multiplicar, e o de Cultivo Orgânico, com os quais existe uma interação necessária. Todos ganham com esse entrosamento.O CIA José Francisco Lippi está com 1023 alunos, aos quais se oferece o curso de técnico em agropecuária. Trabalham com a produção de mudas de plantas olerícolas e ornamentais, fruticultura, paisagismo, hidroponia e preparação e cultivo de bromélias. Possui também uma estação climatológica que transmite dados para todo o País. O CIA Monsenhor Tomás Tejerina de Prado tem 178 alunos, aos quais são oferecidas oportunidades em zootecnia, agricultura, processamento de produtos agropecuários, administração de propriedades rurais e desenho e topografia. Em Cambuci trabalha-se a piscicultura, em Itaperuna (CIAPI) a vez é dos cursos de olericultura, hortofruticultura, jardinagem, caprinocultura, avicultura, apicultura, etc. Em Friburgo é a vez da produção de mudas e hortaliças através de estufa e reflorestamento de eucaliptos. Os exemplos são numerosos de uma atividade que merece toda a prioridade do Estado.