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Papo furado
Vou dizer aqui uma coisa que você talvez não acredite: nunca pensei em me tornar conhecido, muito menos famoso.
Vou dizer aqui uma coisa que você talvez não acredite: nunca pensei em me tornar conhecido, muito menos famoso.
O general Figueiredo ao se despedir do povo brasileiro pediu que o esquecessem. Que estava ressentido, estava. Tanto que se negou a transmitir o poder ao seu substituto José Sarney. Sua assessoria de relações públicas exibiu em rede nacional um documentário de quase uma hora, mostrando as grandes realizações do seu governo.
Sessenta anos atrás, no carnaval do Rio, o povo cantava a falta d’água. Lá ia Maria que, “lata d’água na cabeça, sobe o morro e não se cansa, pela mão leva a criança", Maria que lutava pelo pão de cada dia e sonhava com a vida do asfalto que acaba onde o morro principia. Hoje, às voltas com a mesma lata d’água, não sei se ela sonha com a vida do asfalto já que, mais de meio século depois, no asfalto também falta água. Sensação de tempo circular, de eterno retorno. Pura sensação. Tudo mudou.
Em meio a graves problemas como a crise hídrica e energética, sem falar no interminável escândalo da Petrobras, a presidente Dilma mostrou-se preocupada na reunião ministerial desta semana com a suposta dificuldade de seu governo em se relacionar com a população. Por isso, conclamou seus 39 ministros (será que ela sabe o nome de todos?) a “travar a batalha da comunicação”, ou seja, a disputa com a imprensa.
À medida que vai se aproximando a hora da divulgação da lista dos políticos envolvidos no escândalo do petrolão, é interessante notar o cuidado com que o Ministério Público trata a questão. Além de ter resguardado o máximo possível as denúncias contra dos parlamentares e atores políticos de maneira geral, deixando para a última parte da operação a revelação da atuação de cada um, no seu blog pioneiro, onde explica a origem da operação e dá os detalhes, inclusive com gráficos, de como funcionava o esquema debelado pelo que consideram "a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro que o Brasil já teve", o Ministério Público atribui a organização do esquema às empreiteiras, e não ao governo, como as empreiteiras acusam.
Já estou fazendo a minha parte, economizando o bem da natureza que me é mais caro: o “precioso líquido”, como os jornais de antigamente escreviam quando não queriam repetir a palavra água. Não tomo mais aquele banho gostoso, interminável, o chuveiro jorrando e eu de fora me ensaboando. Também não deixo mais a torneira aberta quando faço a barba e escovo os dentes. No meu prédio, a mangueira foi praticamente abolida, substituída pelo balde, o pano de chão e a vassoura. Em todo verão, o Rio lança um modismo. Já tivemos o verão da sunga, da maconha, das dunas da Gal, do topless. O de agora talvez venha a ser o do balde ou do pano de chão ou da vassoura — enfim, alguma novidade bem velha. E, justiça seja feita, a moda pode estar pegando.
Polêmica que nunca acabará: lembro uma briga antiga que empolgou não a plebe rude, mas a plebe erudita. Mais precisamente, o mundo lírico: tradição ou atualização? O pretexto foi a montagem de uma ópera, "Madama Butterfly", no Municipal do Rio. Deve-se atualizar o passado?
Toda vez que se aborda um plano de governo, em que nível for, surge a expressão qualidade do ensino. Com razão, pois temos tido alguns êxitos no que se refere à quantidade, sobretudo no ensino fundamental, mas é lamentável a questão da qualidade, por motivos diversos. Chegamos a ser a sexta economia do mundo. Fica difícil melhorar de posição, com o atual panorama da educação.
Há algum tempo, num descuido de espaço e vontade, assisti a um programa do PC do B. Fiéis ao programa do partido, ao marxismo-leninismo, presos aos slogans superados, que durante anos transmitiam a seus membros, fiquei comovido. Tanto na fidelidade aos ideais antigos, quanto na ingenuidade de uma luta cujas coordenadas se diversificaram a tal ponto que a luta perdeu não apenas o sentido, mas a oportunidade.
Era de se esperar, ainda que difícil de entender. Mas já tínhamos visto isso antes. Poucos dias depois do Onze de Setembro, todos ainda chocados com a morte de milhares de inocentes, algumas reportagens mostraram que alunos de escolas cariocas reagiram comentando algo como: “Bem feito! Pra ver se eles aprendem...” Agora não foi preciso esperar alguns dias. Poucas horas depois do atentado ao “Charlie Hebdo", as redes sociais já estavam cheias de comentários do tipo “A França colhe o que plantou.”
Já não falo do calor que, pelo jeito, não vai continuar assim, fiquem calmos, vai piorar. E daí? Afinal, deveríamos estar todos orgulhosos pela quebra do recorde de 1917 e pela conquista do título de capital mais quente do país, à frente de Teresina e Cuiabá. Também não falo do apagão, que está sendo distribuído democraticamente: por enquanto atingiu 11 estados e o Distrito Federal — e a previsão é de mais cortes. Não se pode acusar o governo de discriminação, pois a ideia, parece, é contemplar todos. Elevação de impostos, aumento da gasolina, alta do PIS/Cofins, volta da Cide, tudo isso se destina aos consumidores em geral, não há do que reclamar. Como também não adianta lamentar a morte de cinco vítimas, inclusive duas crianças, de bala perdida nesses últimos seis dias, vou então falar das mazelas de minha aldeia, Ipanema.
O contraste entre os países do BRICS pôde ser medido ontem pela ambição de seus representantes no debate promovido pela Globonews aqui no Fórum Econômico Mundial em Davos.
O discurso de posse de Dilma dividiu-se entre a alentada prestação de contas e a prospectiva do seu segundo mandato. A ênfase no drama da Petrobras apertou os cravos, diante do país, sobre essa inédita apropriação de recursos do Estado pela nossa maior empresa, a indicar, ao mesmo tempo, uma competência de primeiro mundo na execução da fraude.
Às vésperas de comemorar os seus 450 anos de vida, o Rio de Janeiro tem na imprensa uma das maiores razões de orgulho: a posição de líder, considerando o conjunto das atividades de mídia impressa, o rádio e a televisão. É assim muito oportuna a iniciativa da Academia Carioca de Letras, promovendo o seminário que conta com o brilho da participação do jornalista Cícero Sandroni, o mais acariocado dos paulistas existentes.
Estamos vivendo em nosso país tempos sombrios em matéria de qualidade do ensino, especialmente se considerarmos a educação pública. Os resultados do Enem são catastróficos. Houve uma queda de 7,3% no desempenho médio em matemática. Na redação foi pior ainda: 9,7%. Vamos caminhando para o fundo do poço.