Portuguese English French German Italian Russian Spanish
Início > Artigos > Levar ferro? Na verdade, levamos ferro todos os dias, todas as horas

Levar ferro? Na verdade, levamos ferro todos os dias, todas as horas

 

Com a idade ganhando dores esquisitas em lugares estranhos, sentimos sensações estranhas em lugares esquisitos. Todos temos em casa Tandrilax, Nebacetin, Rinosoro, sais de frutas, Engov, vitamina C, etcs. variados. Também ficamos neuróticos com a validade do remédio, se passou dez minutos jogamos no lixo com medo de morrer. E não há um só de nós que não tenha um frasco de Hirudoid, tanto batemos pernas e mãos, ganhando hematomas. Perdemos peso, altura, saúde, mas não perdemos a vaidade.

Nestes meus quase 90, meu medo não é a morte, mas sim o de não terminar meu romance Risco de Queda, que escrevo atualmente.

Enquanto isso, faço meus clássicos passeios ao geriatra, às farmácias, e evito publicidade dirigida aos de minha idade.

Nos últimos tempos tive de “frequentar” hospitais, fui internado. Tive alta, passei pelo geriatra Venceslau, que cuida de mim. Fraco, sentia cansaço permanente. Ausência de ideias para escrever. O que provoca agonia. Aliás, amigos vêm me aconselhando insistentemente a usar a inteligência artificial. Basta ligar e dar o comando: “Faça uma crônica sobre isto e colocando um pouco disto e daquilo”. Só que é preciso saber qual é o isto ou aquilo. Só que sei que não enganaria meus editores aqui do Estadão.

Porém, como sempre ensinaram Lourdes Prado e Ruth Segnini, minhas mestras no Fundamental: “A redação, ou a história, a crônica, estão diante de você. É só ter olhos sem cegueira ou catarata”.

Pensando nisso, entrei em uma farmácia para tomar uma injeção de ferro a mim receitada. Estava anêmico depois de dias no hospital, com pneumonia. Medicamento caro para danar. E a informação: “Vendemos o remédio. Ele é intravenoso e somente as UBS, postos de saúde, como se dizia antigamente, podem aplicar. Você tem de ir a elas com o remédio e a receita e agendar”.

UBS eu sabia qual, a da Rua Harmonia, na Vila Madalena. Fui lá, cumpri os protocolos, todos atenciosos, se estabeleceu o horário para injetar o medicamento.

Quando cheguei, havia uma jovem de 25 anos e dois idosos, eu e uma senhora. Em silêncio por uma hora, acompanhamos o líquido vermelho penetrando em nossas veias.

Enfim, a enfermeira desligou os aparelhos: “Acabou”. Nós, pacientes, dissemos: “Agora, sabemos o que é levar ferro. Na verdade, levamos ferro todos os dias, todas as horas”. Foi só datilografar.

 

Estadão, 25/01/2026