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Marco Lucchesi

The Naming of Cats

                 
O fascínio dos gatos só pode ser comparado aos raios de Betelguese, ao vermelho de Orion,  ao azul de Eta Carinae. Os felinos são como que a imagem infinitamente misteriosa das ideias de Platão. A música das esferas e dos números.

Essa foi uma parte do diálogo que tive com a Doutora Nise da Silveira.Como testemunhas, Leo e Carlinhos, Cleo e Mestre Onça. E os gatos passaram a integrar boa parte de nossa amizade. Nise era íntima de seus enigmas. E eu buscava iniciar-me nesse universo. 

Mandei-lhe a foto de um gato, que acabara de conhecer – amarelo como um girassol,olhos verdes, inquieto, como os de sua espécie – e que ensaiava uma tímida aproximação. Ofereci-lhe não sei quantos mimos e dons para que fizesse de meu jardim sua própria casa. Guardava um ar altivo e desdenhoso. Atingira o nirvana dos gatos-mestres, dos que viveram mil vidas e dos que sabiam a altura de quedas e telhados.  Desconfiava que os gatos de uma certa idade se tornavam metafísicos. Como se fossem extremados bizantinos, mergulhando horas a fio em contemplação. Gatos monacais. Giróvagos. Estacionários. Ao que responde Nise, frente ao irredutível dos seres gatos:
  
Lindo, lindíssimo o seu gato mestre. Sabedoria profunda em seus olhos. Sabedoria difícil de adquirir. Talvez ele saiba o caminho da uniqueness. Depois de ter praticado muitas lutas marciais e disputas amorosas. Mas tudo isso sempre aconteceu nos telhados e hoje quase não há mais telhados. Mas “os apaixonados do infinito”, os mesmos apaixonados da uniqueness continuam a buscar.    

A paixão do infinito, ou a nostalgia do mais, coincidem em suas pupilas de fogo, na estranha e irredutível uniqueness. Mas era preciso nomear o gato, cuidando de emprestar-lhe um verbo impreciso e vago, a fim de não magoar o seu modo de estar-não-estando, ao receber um nome, sem se prender a formas específicas. Como dizem os teólogos, um gato definido não é um gato, ein begriffener Katz ist kein Katz. Nise responde, valendo-se de Eliot:
 
E hoje você me propõe outro dificílimo problema: o nome do gato. Recorri logo ao poeta T. S. Eliot, no seu poema “The Naming of Cats”,

The naming of cats is a difficult matter
.....
When I tell you, a cat must have three different names,
First of all, there’s the name that the family use daily,
.....
But I tell you, a cat needs a name that’s particular,
A name that’s particular and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
.....
But above and beyond there’s still one name left over,
And that is the name that you will never guese;
                                       The name that no human research can discover -
But the cat himself knows, and will never confess.
.....
.....
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.

Comparando suas dificuldades para dar um nome a este ser singular, mágico, o mais belo ser da natureza, segundo Leonardo da Vinci, que certamente era um entendido em beleza.

Pouco depois, o gato desapareceu de meus dias. Não mais que a imagem sonhada por Da  Vinci. A casa mostrava em toda a parte sua ausência. A sua tremenda e solitária simetria. Buscamos seus rastros por toda a parte. Mas em vão. O gato regressara – inominado – ao aleph primordial: 
 
Ia ainda dizer outras coisas, mas acabou de chegar sua última carta. Fiquei desolada! Mas estou certa que seu gato vai reaparecer. Os gatos são  muito susceptíveis. Você, sem querer, o terá magoado? O gato custa a perdoar a menor desatenção. São muito exigentes. Será que você o retirou de alguma página da Divina comédia, onde ele se havia estendido? Para um gato, gato, isso é uma ofensa muito grande. Alguma mulher de coração esfiapado terá, sem querer, magoado o gato? O gato é muito sensível. Também é boêmio e talvez esteja lhe experimentando.

Eu sei quanto eles, quando pensam uma coisa, custam a desprender-se dela. Depois da morte de Cléo, a quem eu dava carinhos e remédios por meio de um conta-gotas, seus dois filhos nunca mais se aproximaram de mim. De certo imaginaram que o remédio fosse um veneno... Tenho me desdobrado em explicações carinhosas, mas sem resultado algum. Espero com paciência recuperá-los e você também vai recuperar seu belo gato. Cante baixinho para ele. Ele volta, volta, tenho certeza. Escreva-me. O mundo dos sentimentos dos gatos é sincero e não de todo impenetrável. Ele está chegando... ele ouve de longe.
            
PS.: Pensamento da madrugada de hoje - Você teria trazido o gato da liberdade para o seu apartamento? O espaço livre é muito importante para o gato. Só quando menino ele se adapta a recintos fechados e às restrições dos habitantes de apartamentos. Talvez ele haja fugido para a liberdade, mas voltará pelo amor. Não desanime, mande notícias, Nise.

Cantei de todas as maneiras. Fiquei vigiando o seu regresso. Tenho certeza de que ninguém o retirou de sobre as páginas da Divina comédia.  Jamais voltei a vê-lo se não em sonhos. Talvez fosse realmente um monge errante, que fazia uma pausa em suas longas caminhadas – um ser que buscava a transitividade.

O fluxo em estado selvagem, como aprisioná-lo?

Tempo depois, uma gata menina é levada por amigos. Pequena. Afetuosa. Irritadiça.Conquistar-lhe a confiança não representou pequeno esforço. Branca e negra de pele – seus olhos e saltos não vacilavam. Vivia no alto, junto aos livros da biblioteca. Era preciso trazê-la para baixo, mas sem transformar-lhe em exílio a sede de alturas. Minha dúvida voltava-se mais uma vez para o nome. Havia pensado em duas ou três possibilidades, que tratassem do eterno feminino, dada a condição da gatinha. Ocorreu-me Nise e Beatrice. Sentimento de altas esferas. Mas havia pensado também na Diotima, de Hölderlin.  A palavra final veio assim:

O nome de sua gatinha, assim penso, deverá ser Beatrice, por vários motivos. É um nome muito lindo e significativo. Não esqueça que gatos e gatas são seres muito sensíveis. Facilmente sentem-se ofendidos. Perdoar é para eles dificílimo.
        
Beatrice foi de uma convivência pacífica e belicosa. Dava-me a impressão da síntese dos contrários. Difícil saber quando e como podia aproximar-me de si. Talvez não estivesse feliz no apartamento (ninguém pode ser feliz em apartamentos!) Ou quem sabe eu não me dedicava como devia à sua forma de ser e estar. Humana solidão. Humana ignorância. Foi um longo combate para vencer a indiferença de Beatrice. Cheguei a pensar na mudança do espaço, ao refazer a geopolítica da casa, alterando suas razões de estado. Obtive apoio de Leo e Nise, que escrevem a mim e Beatrice, intuindo as dificuldades da relação homem-gato:

Querido Marco
Amada Beatrice

Seu livro está iluminando toda nossa pequena casa. Nise anda com ele de um andar para o outro, não o solta um instante. Ela está muito decepcionada com o bicho gente e por isso agora esforça-se em metamorfosear-se num gato. Aprovo esta decisão de nossa amiga.Espero que você ame cada vez mais Beatrice e lhe dê o carinho que ela merece.Eu estou ficando velho e um tanto impertinente, mas Nise me adora.Desejo que você se conserve corajoso como um gato que compreende os segredos das múltiplas vidas.Beijos e muito afeto para você e Beatrice. De Nise também, certamente.
Nosso carinho

Leo - Nise

Com o passar dos meses, Beatrice me acolhe mais afetuosa com ronroneios e chamados outros. Sem perder os traços essenciais de sua personalidade, aprova meus serviços e cuidados. Não tenho dúvidas de que o tempo afetivo dos gatos pertence ao tempo aion, ao quinto elemento e aos números-ideia de Platão. Beatrice me acompanha quando estudo as partituras musicais, quando abro meus livros ou quando penso nos poemas futuros. Leo da Silveira comemora essa fase e insiste em passar – como gato mais velho - sua experiência à jovem Beatrice:
 

Leo escreve a Beatrice

Fiquei feliz de saber que você se aconchega no colo de Marco enquanto ele estuda, escreve.Você logo descobriu que estava junto a um poeta. Numa relação estreita com o poeta amigo você o levará a descobrir coisas extraordinárias, estou certo.

Sei que uma verdadeira relação de amor de um ser humano com o ser gato é arte muito difícil. Sutilíssima arte. Por telecomunicação você já me disse que está confiante. Longas experiências da espécie gato já lhe ensinaram que as decepções, duras decepções, não são raras. O bicho homem é muito pretencioso, julga-se superior a todos os seus irmãos que vivem neste planeta. Nós, os gatos, sem dúvida, somos superiores a todos os habitantes da Terra.

O homem nunca alcançará a capacidade elegante de saltar de grandes alturas, coisa que nós fazemos tão facilmente. Nem o dom de ver as notas musicais tomarem lindos contornos, segundo o privilegiado Stravinski descobriu: enquanto ele compunha, seu amigo gato saltava para brincar com as notas. O mesmo aconteceu a outros músicos, mas eles não sabem o que está acontecendo. Tão longe estão de uma profunda relação com o gato, enquanto este tenta desvendar-lhes segredos inutilmente. Os poetas são mais afins com o gato, que o diga Baudelaire. Por isso estou contente que você esteja junto de Marco. Mas não fique satisfeita apenas com a proximidade. Sei que ele não é arrogante como o comum dos humanos. Você poderá suavemente transmitir-lhe muitas sutilezas. Alimentos, vagas carícias são totalmente insuficientes. Diga-lhe que os gatos são muito misteriosos. Seus olhos lindos alcançam esferas astrais, que jamais os homens alcançarão, enquanto estiverem prisioneiros nas suas espessas vendas corporais.
          
(remetente: Leo da Silveira)

Nise – através de Leo – clamava por uma visão cósmica do lugar de homens e gatos nos escaninhos do Universo, em suas remotas e estranhas comarcas, atravessadas pela perspectiva franciscana das criaturas e pela visão neoplatônica das esferas. Tratava-se de um gato platônico. O gato do Fédon – se fosse possível inventá-lo. A vida é uma preparação para a morte e para a liberdade. A destes olhos. A destes dias. A destes corpos. Ver além da espessura não seria mais que reeducar os sentidos. Foi o que aprendi com meus primeiros gatos, com Leo da Silveira e com a Dra. Nise: a tarefa de reeducar os sentidos. A poesia do Espaço. A poesia do Tempo. A força do salto quântico. O pulo do gato. Do universo ao multiverso: olhos atentos em órbitas de fogo. Pupilas infinitas. Misteriosas. Ou como dizem os versos de Nise da Silveira:

Le poète de l’espace
est un vrai vagabond
il saute d’une planète à l’autre
d’une étoile à l’autre
en grandes enjambées
il ne porte ni bâton ni sac
il est libre.

Metamorfoses de Ovídio

A literatura clássica legou ao futuro um de seus melhores paradoxos: a metamorfose e sua tremenda ambiguidade. O fenômeno consiste em assumir o lugar do Outro, sem deixar de ser o Mesmo. Nem Um. Nem Outro. Mas Um e Outro. O Direito e o Avesso. Como Zeus e o Cisne.  O médico e o monstro. O diabo e a dama.  Eis o prodígio: tornar possível o impossível.  A ideia e seu contrário. Isto e Aquilo.
    
A metamorfose é dos fenômenos mais afortunados da Literatura. Confundiu Quixote, com seus moinhos-gigantes. Perturbou Gregor Samsa, homem-inseto. Feriu Apolo, quando abraçou uma Dafne-vegetal. Perdeu Ulysses, no corpo-mundo de Molly. Fez de Fausto uma crisálida, e o marcou de infinito.  Tornou incertas as fronteiras.
    
Mas qual a origem do mistério?  A trama do Universo? A ira de um deus?  O vento imaterial da angústia?

Difícil precisar-lhe uma razão. Todas concorrem, por exemplo, no Asno de ouro,  de Apuleio, com sua estranha e fascinante, plástica e repulsiva metamorfose,  do  jovem que toma as formas de um asno. Depois de muito sofrer, torturas e humilhações, lágrimas e castigos sem precedentes, Ísis sente-se comovida e decide salvá-lo. Num longo ritual, previsto em sonho, ele reassume as formas humanas. O couro áspero agora é pele. As orelhas diminuem. O rabo desaparece. Termina, enfim, a desventura de Lúcio, cuja metamorfose o levou ao conhecimento profundo de si.

Mas houve outras mudanças e nem sempre reversíveis. Ovídio foi quem as soube contar melhor nas Metamorfoses. Boa parte do imaginário Ocidental depende desse livro, como vemos no Inferno de Dante, nos primeiros versos de Boccaccio, no Livro dos seres imaginários, de Borges, sem falar de Italo Calvino, de suas leituras velozes, tomadas cinematográficas e mudanças de plano.

Mais do que um acervo mitológico, as Metamorfoses, de Ovídio, vivem pelo triunfo da Poesia. E trazem com elas o maravilhoso, o resquício do Pensamento Antigo:  o combate da ordem e do caos, do repouso e do movimento, do metro e da desmedida. Discordia semina rerum: a contradição é o motor das coisas.  Primeiro, o Caos, o informe, o ainda-não. E, de repente, de suas entranhas, um Princípio, um Sentido. A forma surge do informe. Os raios, das trevas. Como na Teogonia, de Hesíodo, na física dos pré-socráticos, na Geometria de Platão. A metamorfose seria a memória desse combate. A sombra de Dionísio, em Apolo. A permanência no impermanente. Por isso talvez a leve melancolia nas Metamorfoses...

Ovídio fez inúmeros leitores, pelo mundo e pelos séculos. Não lhe faltaram, desde o Renascimento, traduções memoráveis, na Itália e na França, na Espanha e em Portugal. Ovídio tornou-se escola obrigatória na arte de imitar. Era preciso matricular-se nele para provar-se como poeta. Mas seria sobretudo no século XVIII que as  traduções de Ovídio, junto com as de Lucrécio, deviam adquirir novo papel. Era o início – mais ou menos direto – de certa arqueologia do Iluminismo.  O conhecimento  racional dos mitos. O fundamento da matéria e seus rigores. Tal a razão pela qual eram vertidos os textos clássicos, que evocassem ideias sensistas, ou empiristas. Um  desses emblemas, na Itália, foi o De rerum natura, de Marchetti, a alma Vênus lucreciana, a chuva monótona das partículas e sua ligeira inclinação. Outro emblema, em  Portugal, foram as Metamorfoses, com seu naturalismo algo contrapontístico, diante da História natural, de Buffon, que cristalizara, brilhantemente, todo processo,  todo movimento, toda transformação, para atender ao quadro classificatório de reinos, classes, famílias. As figuras flutuantes de Ovídio estariam mais próximas (para  os leitores de outrora) de A origem das espécies, de Darwin, de 1859. De todo modo, a grande tradução das Metamorfoses deu-se pelo talento do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, num Portugal pós-Verney, não-jesuíta, menos metafísico e escolástico, buscando no mundo clássico aproximações outras com as ideias que sopravam pela Europa.  

Tradutor de obras diversas, Bocage fez Ovídio falar num límpido decassílabo português. Sua graça e atualidade são desconcertantes. No Ouro de Midas. Na Gruta da Inveja. No abismo de Faetonte.  Os poucos extratos, em que trabalhou o poeta português, foram bastantes para a  tradução ideal do todo. Temos um Bocage, ao mesmo tempo, lírico e matemático. Observador atento da sintaxe latina, e de suas aproximações em português, como deslocamentos à esquerda, mudanças de posição frasal, linguagem alta e fraseado lírico, compensando, com decassílabos diversamente acentuados, a delicada relação do verso latino, arrimado nas sílabas longas e breves. O  texto-origem e o texto-fim parecem realmente congeniais... O tradutor, em momento algum, decide apagar-lhe o rosto. Ovídio – pelas mãos de Bocage – não deixa de lembrar Ovídio.  Donde o mérito da  obra. O ter evitado um dos grandes riscos, de que se deve guardar o tradutor, com seu possível (e não infrequente) menoscabo do texto-origem. Claro que a sua digital jamais desaparece. E, por isso mesmo, não lhe convém melhorar Virgílio ou Shakespeare, para demonstrar, no texto sequestrado, o preço de um patético narcisismo. Reconhecemos o decassílabo de Bocage, na tradução, mas não o encontramos a cada fragmento traduzido, com a desculpa de Ovídio. Nesse campo, a melhor forma de aparecer,  traduzindo, consiste em desaparecer, pois o mérito do coautor (leia-se do tradutor) repousa na  obstinada vigilância do original. De sua fonte. De seu diálogo. O subjetivo é como o rei Midas.  Como o observador na física quântica. Assim, pois, se o sujeito jamais desaparece, não será preciso sublinhar sua visibilidade...
 
Hoje assistimos a estranhas mutações, de frutas e legumes, de células e embriões, a metamorfose possível – fora do debate da bioética e do genoma – é a da  tradução, onde coabitam o Um e o Outro, o Direito e o Avesso, Zeus e o Cisne. Numa palavra: os universais fantásticos, diante de novos e diversos paradigmas, da leitura e da ciência, respondem pelo sorriso do caos.  A tradução é a derradeira metamorfose...    

Rumi: Diário de um Tradutor

Pe cer păsările nemişcate

No céu os pássaros imóveis

Tristan Tzara

4.11.2006

Horas a fio com a língua persa. Madrugadas insones. Ampliando com ferocidade o vocabulário.

Valho-me de velhos alfarrábios. Dentre as gramáticas, cito apenas a de Chodzko – comprada há mais de vinte anos, edição de 1852. O Assimil, com suas visadas e limitações.  A persian grammar, de Elwell-Suton. E o dicionário de Abbas  e Manuchehr Aryanpur-Kashani. 

11.11.2006

Afinidades lexicais do farsi com o árabe e o turco ajudam a lançar pontes sobre terras distantes.

12.11.2006

Persigo etimologias.  E procuro desarabizar minha pronúncia do persa. 

Há momentos de desespero nos primeiros estágios de aprendizado de uma língua.  Um sentimento de solidão e incomunicabilidade.  As consonâncias demoram a chegar.

Cada palavra sendo uma ilha irredutível.

23.11.2006

O desafio da língua persa consiste em aglutinar e encompridar.

Uma gramática forte, cuja dificuldade não se parece nem de perto com o quase impossível do turco, que é das línguas mais rochosas com as quais me deparei.

Mas como é bela a língua turca – sem as restrições dos puristas do öz türkçe.  Gosto das tremas curtas – para as distinguir das longas, praticadas pelo húngaro, com a qual relativamente se aparenta  – e tento imaginar a passagem da China para a Anatólia, partindo das longas caravanas de suas palavras, como a dar prova das amplas fronteiras na noite em que se perde a história dessa língua.

30.11.2006

O persa assusta um pouco menos. Trabalhadas as desinências, absorvido o seu canto, acento e ad canto, a música de sua dicção libérrima e suave começa a se desenhar em minha língua tão imperfeita.

2.12.2006

Chodzko, sobre a possibilidade do farsi para formar portmanteau words (palavras-cabide): a etimologia persa se espraia em múltiplas direções. 

3.12.2006

Da riqueza do turco é preciso dizer contra alguns membros da Academia Turca: que as três camadas que o compõem (persa, árabe e turca propriamente dita) perfazem uma trama fascinante...

Palavras escuras, noturnas, espessas, como as turcas, vestidas de u ou de ü.
 
Palavras de seda e brocardos, rutilantes, como as persas, com seus erres e emes finais.

Palavras de pedra e lâmina como as de origem árabe, e suas formas duras e essenciais.

7.12.2006

Os temas da poesia iraniana atingem parte substantiva da literatura turca, como em Karaca Oğlan, no século XVI:

Döndüm dolaştım ben gurbet illeri

dünaya çıkmağa yol bulamadım

bahçelerde Gördüm birçok gülleri

sevdiğime bezner gül bulamadım.

 

Andei perdido por terras distantes,

sem descobrir no mundo a sua estrada,

tantas rosas esparsas nos jardins –

nenhuma que lembrasse minha amada.

10.12.2006

O demônio da tradução do persa para a nossa –  ou de uma língua aglutinante para outra não aglutinante – surge quando se perde a centelha do verso original, com uma legião de paráfrases,  notas e para-textos.  

15.12.2006

Traduzo os versos de Rūmī com Rafī Moussavī. Trabalhamos em paralelo nas versões literais, do persa para o português. Comparo o que alcancei em meu esforço com as soluções de Rafī . Depois, o ensaio de levar ao português a tessitura do texto-base.

Quantas vezes eu disse sou senhor;
quantas, em pranto, que sou prisioneiro.
Deixei por fim de me prestar ouvidos
Pois já não quero viver dentro em  mim.

                            *

Quando o rosto do amado ocupa a nossa mente,
não mais que contemplar consiste a nossa vida.
Quando se cumpre um só desejo ao coração,
uma espinha é decerto melhor que mil tâmaras.

                          *

A teu lado, não durmo por amor,
longe de ti, não durmo pelo pranto.
Eu passo as noites de olhos bem abertos,
Não perco a diferença entre as vigílias.

                      *

Hei de lançar-me bêbado sem medo
a contemplar a alma do universo:
ou meus passos se apressam ao destino,
ou perco a vida, além do coração.

 

16.12.2006

Quando estudo uma língua – mesmo que de modo instrumental, como é o caso do persa – avanço por longas jornadas, que me tiram o sono, como se vagasse no limbo de indecifrados silêncios. 

20.12.2006  (manhã)
 
Extraio de The road to Oxiana, de Robert Byron, uma passagem sobre a Mesquita da Sexta-Feira, em Isfahān : Nesta, como na mesquita de Herat, num só edifício e nos seus diversos restauros vemos ilustrada toda a história da cidade. A graça da cor dos Safávidas, como antes a dos Timúridas, empalidece diante de sua veneranda grandiosidade. Muitas partes são rudes, outras não graciosas. Mas a grande cúpula ovóide de tijolos sem adornos, construída pelo seldjúcida Malek Shah, possui poucas rivais enquanto expressão de absoluta serenidade, que é prerrogativa das cúpulas islâmicas.

E ainda, sobre a cidade azul: Seria possível estudar meses e meses os monumentos de Isfahān  sem os esgotar. Alguns desses edifícios ilustram de modo autônomo os vértices da arte e inserem Isfahān no número restrito de lugares, como Atenas e Roma, que constituem uma fonte contínua de delícias para a humanidade.

20.12.2006 (noite)

A poesia de Rūmī. A palavra e seu fantasma.  Mas como apaziguar esses contrários, tão belos e devastadores?

Ó vida, que com mil astúcias, desenganos,
tramas no tabuleiro de meu coração.
Um dia me verás junto à mesa celeste,
a clarear lindas baixelas como a lua.

                           *

Não durma, minha estrela e meu destino.
Não durma, minha rosa e primavera.
Não durmam, olhos loucos e cruéis.
Essa é a noite da felicidade.

                         *

Nas tuas águas, nado como um peixe.
Percorro teu deserto qual gazela.
Ah!, vem amado, sopra dentro em mim:
eu sou a tua flauta.

                *

Nos mares de coral eu fui buscar uma alma,
sob a espuma perdida, em mar secreto.
Na madrugada fria do coração,
segui por via estreita até o deserto.

 

23.12.2006

Chodzko, em sua gramática: A facilidade com a qual a sintaxe iraniana se presta à formação de nomes compostos é surpreendente. Ainda que pouco familiarizado com o gênio da língua, qualquer estudante pode formá-los sozinho; porque verbos e fragmentos verbais, substantivos e adjetivos, advérbios e preposições, todos acorrem ao pensamento, para a expressão das necessidades do interlocutor. Eis um dos recursos mais ricos e mais belos da fraseologia persa.

27.12.2006

Insone. Extenuado. Migram palavras nos céus da poesia.  
28.12.2006

Lembro de Hans-Joseph Vermeer, em seu Skizze zu einer Geschichte der Translation. Traduzir é domar o impossível.

29.12.2006

Sobre Pasárgada, Citati em La primavera di Cosroe: Todo o interminável ciclo de baixo-relevos que se comunicam uns com os outros, como notas de uma melodia petrificada, era como que um espelho onde Dario podia contemplar sem fim a si mesmo e às suas tarefas de soberano.

E mais: Enquanto vagamos entre as ruínas de Persépolis, tentando reconstruir com a mente as salas onde se reuniam os príncipes , o palácio de Dario, o palácio de Xerxes: enquanto animamos este vazio com a multidão daqueles que há tempos o povoaram e agora não sabemos onde estejam, poeira nas tumbas, poeira esparsa nas montanhas, poeira nas casa sonoras dos céus não  cessamos de perguntar qual seja esta cidade.

02.01.2007

Sou o Mejnūn do Texto-Leila, que  persigo, cheio de espanto e saudade.

03.01.2007

Fui ao Irã levado pelos olhos de  Rūmī.  

(17.01.2001)

A neve torna mais humano o coração nervoso de Teerã. A poluição impede o desenho límpido do Alborz.

(18.01.2001)

Trago outras montanhas em meu horizonte: o Popocatépetel,  na Cidade do México, e o Illimani, em La Paz. E assim confundo essas montanhas do Oriente e do Ocidente

(19.01.2001)

Um postal de Isfahān: O sentimento que levo desta cidade é azul. Assim a compreendo, na medida exata em que mergulho na mesquita. Seus dias. Suas noites.  Não há como não responder a essa demanda de azul.

(20.01.2001)

Arrebatado pela sombra do Simurgh, pelos versos do Mawlānā e pelas águas do poço de Zam-Zam, busco em Shīrāz espelho das palavras.

(8.01.2007)

Desenho mil vezes a tradução dos versos em português. A tradução é um leixa-pren. Um duelo, que se resolve nas zonas de silêncio, onde se apoia o descontínuo do persa ao português.

(29.01.1999)

Em  Rūmī, a vida como flauta silenciosa:

Morrei, morrei, de tanto amor morrei,
morrei, morrei de amor e vivereis.

Morrei, morrei, e não temeis a morte,
voai, voai bem longe, além das nuvens.

Morrei, morrei, nesta carne morrei,
é simples laço, a carne que vos prende!

Vamos, quebrai, quebrai esta prisão!
Sereis de pronto príncipes e emires!

Morrei, morrei aos pés do Soberano:
assim sereis ministros e sultões!

Morrei, morrei, deixai a triste névoa,
tomai o resplendor da lua cheia!

O silêncio é sussurro de morte,
e esta vida é uma flauta silente.

14.01.2007

A herança árabe em nossa língua aplaina muitas vezes o original persa, quando inçado de elementos direta ou indiretamente tomados do Alcorão.

15.01.2007

Nado nas águas de três línguas abissais: o turco, o árabe e o persa.

Na confluência desses mares, a poesia de Rūmī cria uma língua dúctil, cheia de vigor e profundeza.

Faz tempo que não vemos teu jardim,
com teu narciso bêbado de orvalho.
Dos homens em segredo te defendes.
Faz tempo que não vemos teu semblante.

                            *

Sou abrasado pela chama da paixão.
Teu verbo é água para o rio das almas.
A água é ilusão e a chama é breve:
Ah! Tudo desvanece como em sonho.

  *

O rouxinol fez um ninho em nosso jardim.
Os corvos fugiram. Ah!, vem, luz dos meus olhos,
vamos sair de nós, como o lírio e a rosa,
como água límpida, passando entre jardins.

                          *

Ah! Como é tarde e funda a solidão,
em alto mar e sem sinal de terra:
a nau, a noite, as nuvens, nossos remos,
vagando pela graça em mar de Deus.
  

16.01.2007

Pretendo evitar a monorrima – que funciona tão bem nos poemas em farsi.  Mas em português – sem o timbre das vogais longas e breves –  a escolha seria desoladora. Pretendo lidar com a força do ritmo e da figura.
 
(22.01.2001)

Vislumbro as ruínas de um templo zoroastriano.  Antes de Jesus.  Antes de Nietzsche.

(23.01.2001)

Eis a nobre e comovente Takht-e-Jamshîd. Conhecida como Persépolis. 

Eis o centro aquemênida. As tumbas reais, a escadaria, como um livro a céu aberto, e o maravilhoso palácio de Dario, o Apadana.

Evoco em Pasárgada três poetas. Ésquilo, com Os persas. Khliébnikov, com o ciclo A trompa do Gul Mullá. E o amado Manuel Bandeira, indo embora pra Pasárgada.

(25.01.2001)

Uma tarde com o aiatolá Saeid Edalat. Jesus e Rūmī  ocupam nosso horizonte. Uma surpresa inesperada, a versão persa da Imitatio Christi, em que trabalha o aiatolá.

20.03.2007

Observo a passagem sutil do conceito para a metáfora. A circulação do pensamento-poético, desde os adjetivos mais voláteis aos abismos  do pensamento. A franja do intraduzível. Tangenciar conceito e imagem...

24.03.2007

Algumas ilhas-palavras mal admitem comunicação entre suas partes dispersas. 

O voo de  'Anqā' –  as dimensões impossíveis desse pássaro nos céus de  Rūmī.

Traduzir nīstī como vácuo ou vazio... Sem o confundir com os resíduos de uma história do nada no Ocidente?

ishq, paixão?  Talvez, mas dentro de uma conotação de transcendência, ao lado de uma série de metáforas que unem cidades e férvidos desejos. Como a simbologia de Damasco, cidade do amor.

Jamāl como beleza… Um atrevimento, talvez, se não houver uma sobreposição do nome frontal de Deus sobre o adjetivo... Sem o reduzir – na história da filosofia – a um mero capítulo da metafísica do belo da Idade Média tardia.

Taw’hīd, unidade?  Mas como tornar clara essa noção de um todo, cujas partes dispersas não representam a derrota da totalidade, e onde tampouco a reunião das partes não signifique o naufrágio da diferença?  

12.04.2007

São Jerônimo, rogai por mim.

 

O Violoncelo de Bento Santiago
                   
A música está para Machado assim como a luz para a Divina comédia.  Mais do que cenário, trata-se de uma razão estrutural. E se de fato a música rege o Memorial de Aires,  ela não deixa de percorrer toda a sua obra. E muito além da sonoridade das ruas –  que Machado fixou com a mesma paixão de Bentinho, ao  transcrever o pregão do vendedor de cocadas.

Além de auscultar o coração da Corte, Machado formou um  deslumbrante acervo sonoro, longe da busca de  efeito meramente cênico.    
 
As ruas de Machado abarcam uma densa polifonia, em que se alternam sinos, serestas, procissões.  O arfar de uma cidade com seus diversos arruídos. Bondes  e tílburis no Largo de São Francisco. E as melodias do Morro do Castelo, de cuja altura ouvimos o pai de Bárbara entoando uma cantiga do sertão. E  no Teatro Lírico,  as árias de normas, barbieres e elixires:   a melodia comprida de Bellini e o coro volumoso das óperas  de Verdi.

A cultura erudita dialoga com a cultura popular. Ambas se articulam numa troca surpreendente de contraste e  analogia.   O maestro Pestana sonha uma obra sua encadernada entre Schumann e Bach.  Mas eram as polcas que lhe dominavam a inspiração. Podemos ouvi-las a partir dos títulos, que lembram as canções de Paula Brito, como    Candongas não fazem festa.

Esse continuum que abrange e arredonda o contraste de registros é a marca do estilo machadiano: as regências de Vieira e Bernardes; as lições de João de Barros e da velha poesia portuguesa;  as páginas do Bluteau e o  coloquial das ruas e artérias do Rio – numa fronteira porosa onde  não se distingue o clássico do popular.  Síntese em que os extremos se dissolvem.  E sem  risco  de  incompatibilidade sanguínea.

Dessa língua de claro-escuros, diremos o que disse Aires de Fidélia: “Parece feita ao torno, sem que este vocábulo dê nenhuma ideia de rigidez; ao contrário, é flexível. Quero aludir somente à correção das linhas, –  falo das linhas vistas; as restantes adivinham-se e juram-se.” 

E não podia ser diferente. O Machado leitor de folhetim – como mostrou Marlyse Meyer – passou, como Alencar, pela Ilíada de realejo do Rocambole e pelos devaneios do Saint Clair das Ilhas. E dessas fontes, possíveis e primeiras da juventude, aliadas a outras, maiores e mais vastas, foi acrisolando a temática e o estilo,  firmado em outra noosfera, sem desprezar, no entanto, o que se devia manter dessa metamorfose.  
    
Tal ocorreu com o Beethoven das Variações Diabelli. O autor da Nona Sinfonia parte da insípida citação de duas sentenças, como estas:

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E dessa base tão restritiva, as Variações guardam apenas os saltos de quarta e de quinta do original. Beethoven inseriu-lhes um sem número de acordes e mudanças rítmicas, tornando-a irreconhecível.  Daquele nada inicial, surde uma potência criadora que parecia adormecida no pentagrama. Como se Beethoven dela extraísse um devir poderoso.
 
Devemos buscar em Machado o deslocamento na tessitura, que não se prende apenas às alusões sonoras multiplicadas a cada página.  

A música advém de sua inarredável condição de poeta. Ou se toma seriamente essa questão ou não se compreendem as linhas melódicas dos grandes romances, e não somente, como se insistiu, no Memorial.  A elipse e o intervalo, o corte e a suspensão mostram-se recorrentes em sua partitura.  Vemos por toda a parte uma série abundante  de redondilhas,  decassílabos  e alexandrinos, que mal se escondem sob o fluxo da prosa, realizando uma secreta harmonia entre as partes.  

Impera a dissonância na obra de Machado. Mas quase sempre travestida do equilíbrio de Mozart. O que significa dizer uma energia sutil.   Dissonância que se realiza nos extremos.  Mal se desenha e logo se desfaz. E assim como os olhos terminam as linhas incompletas de um quadro, é preciso preencher os acordes dissonantes em Machado. Como quem suspeita da narrativa de Bentinho ou das negativas do amante de Virgília.

Vejamos o delírio de Brás Cubas.

O terreno é friável, poroso, incerto, por onde se infiltra um sem-número de remissões  que não se adensam na superfície, mas que se amoldam em novas camadas narrativas, exigindo, portanto, uma visão próxima da  estratigrafia, a fim de  clarear  os múltiplos sentidos  textuais e as  zonas de transição correspondentes.

É assim que o delírio de Brás Cubas cresce para dentro de si. Como  as lágrimas do Velho de Creta, em Dante. A partir de Macário, de Álvares de Azevedo.  Do  Fausto, de Goethe. Da cova de Montesinos, de Dom Quixote. E  da Lenda dos séculos,  de Victor Hugo. Uma vertigem terra adentro a de Brás Cubas. E o tom lembra algo das Operette morali de Leopardi e das metamorfoses de o Asno de ouro.

Mas a análise dos cristais não explica a síntese e o lavor de novos diamantes.

Sem a noção de ritmo e de intensidade, o delírio de Brás Cubas não passaria de um feixe poderoso de metáforas que se acumulariam em múltiplos  estratos de tempo geológico. A primeira parte do delírio se traduz num andamento largo, feito de notas compridas,  breves e semibreves, desde a segunda metamorfose de Brás Cubas: Logo depois, senti-me transformado na Suma teológica de Santo Tomás, impressa num volume, e encadernada em marroquim com fechos de prata e estampas”

Estamos na zona solene de apresentação do Hipopótamo e  de Pandora.

A passagem dos séculos nasce não apenas de um vórtice de imagens, mas de  uma vigorosa eletricidade frasal. Passamos para a vertigem de um presto, sob uma chuva de colcheias e de semicolcheias, a pontuação ágil, quase sem pausas, numa torrente  de vírgulas:      

E fixei os olhos , e continuei a ver as idades, que vinham chegando e passando, já então tranqüilo  e resoluto, não sei até se alegre. Talvez alegre. Cada século trazia a sua porção de sombra e de luz, de apatia e de combate, de verdade e de erro, e o seu cortejo de sistemas, de ideias novas, de novas ilusões; em cada um deles  rebentavam as verduras de uma primavera e amareleciam depois  para  remoçar mais tarde.

Mais adiante, no clímax do século futuro,  uma espécie de névoa que retarda e diminui  a velocidade da narrativa (de onde terá Joaquim Cardozo tirado um trecho do trem subindo ao céu,  quando aquele diminui e minidui aos nossos olhos) voltando ao andamento majestoso, quando o hipopótamo finalmente volta a ser o gato de estimação:     

Talvez por isso entraram os objetos  a trocarem-se; uns cresceram , outros minguaram, outros perderam-se no ambiente; um nevoeiro cobriu tudo – menos o hipopótamo que ali me trouxera, e que aliás começou a diminuir, a diminuir, a diminuir, até ficar do tamanho de um gato. Era efetivamente um gato. Encarei-o bem; era o meu gato Sultão, que brincava à porta da alcova, com uma bola de papel...

Uma longa cadência se interrompe com aquela bola de papel seguida de uma pausa longa e dupla – das reticências e do fim do capítulo.

Para ilustrar a ideia de naipes e de timbres pelos quais se desenvolve a narrativa machadiana, valha-nos um outro exemplo de Dom Casmurro, pois que se há clarinetes na obra de Machado, não lhe faltam tímpanos e violinos.

No famoso  capítulo “O Filho do Homem”  temos um quarteto para sopros, corda e percussão, que se percebe pela forma rítmica e pela idéia de um contraponto sutil que empresta unidade harmônica às quatro vozes.

O clarinete de Ezequiel buscando imitar inocentemente o modo de andar de José Dias – definido muito antes por  Bentinho, pelo passo vagaroso, calculado e deduzido.

O tímpano ambíguo de José Dias, quando estimula o menino a imitá-lo.

O violoncelo de Bento Santiago aduzindo uma das possíveis provas da traição de sua mulher. Com uma partitura bem mais acidentada.  Como se fosse uma palinódia do que iria dizer mais tarde.

O violino de Capitu cheio de pizzicatos e de tempos incisivos. Parece  guardar de todos uma culpa do incesto  presumido que Ezequiel,  à revelia de si mesmo, já não sabe esconder.

– (...) Meu anjo, como é que eu ando na rua?
– Não – atalhou Capitu –;  já lhe vou tirando esse costume de imitar os outros.
– Mas  tem muita graça; a mim, quando ele copia os meus gestos, parece-me que sou eu mesmo, pequenino. Outro dia chegou a fazer um gesto de Dona Glória, tão bem que ela lhe deu um beijo em paga. Vamos, como é que eu ando?
– Não, Ezequiel – disse eu –, mamãe não quer. 

Eu mesmo achava feio tal sestro. Alguns dos gestos já lhe iam ficando mais repetidos, como os das mãos e pés de Escobar; ultimamente, até apanhara o modo de voltar a cabeça deste, quando  falava, e o de deixá-lo cai, quando  ria. Capitu ralhava. Mas o menino era travesso, como o diabo; apenas começamos a falar de outra coisa, saltou no meio da sala, dizendo a José Dias.
– O senhor anda assim.
Não pudemos deixar de rir, eu mais que ninguém . A primeira pessoa que fechou a cara, que o repreendeu e chamou  a si foi Capitu;
– Não quero isso, ouviu?

Nesse maravilhoso jogo de timbres e contrastes, de corda, madeira e percussão, não podemos perder de vista as dissonâncias. E sobretudo as formas diretas de Ezequiel (o senhor anda assim) e  de Capitu (não quero issoouviu?).

Será preciso lembrar que a tessitura contrapontística do quarteto depende dos acordes de Bento Santiago, prestes a engolir todas as vozes no volume dos graves?

O Infinito e a Flor Azul 
                                                           
         und meine Seele spannte,
         weit ihre Flügel aus

         Brentano

Descobri Novalis quando traduzia Hölderlin e mal acabara de entrar na casa dos vinte. O poeta da Flor Azul desenhava em meu espírito vagas  harmonias. Sua forma sutil abraçava minhas leituras de Brentano e Tiuchev, pontilhadas de estrelas e plenilúnios.  Novalis sonhou, a partir da noite e da matemática, a inclusão de todas as coisas sob  uma perspectiva coalescente. Melodia que me deixou muitos versos na memória, quando lidava com as altitudes de Hölderlin. 

Pouco depois, sem perder a demanda arrebatada do poeta da noite, a descoberta dos fragmentos abriu de par em par um mundo que mal adivinhava, clareando poemas antes intangíveis, como o  Wenn nicht mehr Zahlen und Figuren.  Não que tanto mistério se dissipasse, a partir daquelas iluminações – em forma de pólen ou crisálida – mas eram indícios de ouro e de mais profundas lavras.

Para Vicente Ferreira da Silva, o poeta

“é o anunciador da Flor Azul, o revelador da Substância, aquele que deve trazer à terra, que é transitoriedade, a imagem sublime da vida absoluta. Fundamentalmente, nada mais somos do que puras virtualidades, vagos prenúncios da flor misteriosa”.

Esse vago prenúncio parece emergir da filosofia de Novalis, de sua razão impura  e necessária entre poesia e matemática. 
     
Aqueles fragmentos causam viva impressão. Suspensos entre esboço e latência. Uma espiral de pensamento. Como a concha de um náutilo ou a forma de um girassol  (penso em The curves of Life, de Theodore Andrea Cook). Tudo em potência. E prestes a se atuar. Uma selva espessa de confronto e passagem. Como se fossem árvores de fragmentos, cujas raízes perfazem uma trama que se espalha sob a terra.

Geologia friável, portadora de um sem-número de relações, como nos poemas de Sprachgitter de  Paul Celan. 
  
Uma disciplina de fronteiras voláteis desenha a harmonia das partes dispersas, aproximando-as mutuamente, a partir da porosidade dos fragmentos, que partilham a mesma origem de luz e sombra (echte Klarheit).  E Novalis se apresenta com o fervor dos discípulos de Pitágoras, da Academia de Florença e de Fichte, com as possíveis dissonâncias matemáticas  num quadro  de  clássica beleza.  Donde o frescor que se desprende da soma dos fragmentos, fadados a uma potência incessante, um todo que se esboça na saudade daquelas mesmas partes.

Essa espécie de atomismo lógico-poético-matemático é a um só tempo fonte de encanto e inquietação. O modo de lançar pontes sobre potências dispersas e iluminá-las, determinando-lhe coleções precisas ou arbitrárias – eis os limites árduos na leitura de Novalis.

A matemática nos fragmentos é um sinal dessa inquietação.

Como que duas tendências antagônicas se formassem na crítica, uma avalizando e outra desconhecendo o logos matemático de sua obra. As opiniões se dividem.

Houve quem considerasse Novalis como a antecipação da indecidibilidade de Gödel  e dos invariantes de Einstein! Para outros, seu pensamento afundava em frágeis caravelas, povoadas de fantasmas erradios.     
 
Leio uma tese segundo a qual o universo em Novalis se resume a uma   equação: “L’univers se présente à lui comme une vaste équation algébrique. Il s´agit, par une réduction graduelle, de déterminer les termes inconnus en fonction des termes connus”. A leitura dos escritos matemáticos não me permite assumir de todo essas palavras, embora não me falte a compreensão de que haja no autor de Heinrich von Ofterdingen  um difuso  predomínio  matemático. Reconheço-lhe a sombra de uma ficção algébrica, um romance matemático, cujos personagens são a Parte e o Todo.  A  mathesis universalis deve ser vista nesse contexto de mão dupla: matemática da poesia e poesia da matemática – formando um continuum com  os outros saberes.  Por isso, o universo é mais do que uma vasta equação algébrica.

Para Novalis, a matemática havia de passar das categorias algo estáticas de quantidade e qualidade para assumir outras mais dinâmicas, como as de relação e modalidade. Essa mudança de perspectiva é crucial:  assumir as ferramentas da unidade, a partir de uma configuração sintática dos verbetes de uma nova enciclopédia, cuja base é toda número e palavra. A matemática como sendo cálculo do raciocínio e  produção de metáfora, cujo princípio remete ao desafio de Aquiles e da Tartaruga. Assim, quando subdivido um segmento de reta indefinidamente, o movimento resulta impossível.  Para alcançar determinado trecho, preciso atingir primeiro o ponto médio. Antes, porém, devo chegar ao ponto que divide um quarto de segmento e assim ad infinitum. A vantagem da tartaruga sobre Aquiles é irrecuperável e se desenha assim: 1/2 +1/4 +1/8 +1/16. E a soma-aquiles não converge para o 1.

O episódio se insere na crise dos irracionais, no método de exaustão de Eudóxio e no axioma de Arquimedes, que assombraram a filosofia antiga. Somente depois de Bolzano algumas respostas matemáticas haviam de enfrentar o paradoxo de Zenão. Sobretudo quando o infinito atual deixou de ser uma espécie de Dr. Jekill e Mister Hyde. Bom para a teologia e mau para a matemática! Como se o comprimento de uma linha escondesse um demônio latente e perigoso que o matemático-sacerdote devia converter num infinito bom,  não mais que potencial, como queria Aristóteles e,  portanto,  um arremedo de infinito, preso nas teias da finitude.  O susto de Galileu diante da relação biunívoca entre quadrados perfeitos e inteiros positivos – deparando-se com a diferença de comportamento entre conjuntos finitos e infinitos –   seria resolvido na passagem do século XVIII ao XIX.      

Um dos grandes resultados produzidos pela querela entre os partidários de Newton e os de Leibniz sobre o cálculo foi o fato de retirar aos poucos,  mas de modo irreversível, o jugo do real sobre a matemática, pondo  fim à analogia cerrada  entre  natureza e realidade numeral –  quando o déficit do real representava um problema no campo da Análise. Como lembra Dik Struik, muitos consideravam os infinitesimais como fantasmas de quantidades desaparecidas – ghosts of departed quantities – e mesmo para Leibniz eles não passavam de ficção, embora ninguém duvidasse então da certeza dos cálculos.  Todo um debate que havia de prefaciar o Mundo Três de Karl Popper com a sua  autonomia. Os infinitesimais, não encontrando respaldo na natureza, nem por isso perdiam o valor heurístico. 

Seria preciso – após a conquista de Leibniz – redesenhar a relação de força do infinito potencial sobre o atual, determinando a legitimidade ontológica do segundo.  Esse drama de conceitos seria euqacionado exemplarmente  pela obra de Cantor, que houve por bem quantificar o infinito, atribuindo-lhe tamanho e espessura.  O infinito em ato deixava de ser um fantasma no singular e se via acompanhado desde então por um conjunto de  infinitos plurais.
  
Novalis não foi atingido por essas questões, que lhe são posteriores, mas nem por isso não toma parte no capítulo que prefacia o cálculo das partes infinitesimais, impressionado com a taxa de crescimento de dx, que justo por ser considerada uma quase ficção,  respondia integralmente por uma poética do espaço  matemático.     

Enquanto  Brentano e Tiuchev nadavam nas águas do infinito e  Leopardi naufragava no abismo daquelas mesmas ondas, Novalis se movia por entre Sonho e Cálculo, imagens sonoras e fluxos de integrais, na esfera da continuidade em que o Todo é princípio e fim.  Como disse Käte Hamburger: “der  Gedanke der Kontinuität als Ursprungeinheit, d.h., als zugrundeliegende  Allheit war also für Novalis der Letzte Grund, durch den die Infinitesimalrechnung sich legitimiert.”   A perspectiva de Novalis sobre a Análise se resolve como etapa do raciocínio filosófico  e  do pensamento poético, num largo processo de abertura de janelas e passagens, de trânsito ou redução  do incerto para o regular,  do infinitamente grande   ao infinitamente pequeno. Para ele,

der Differentialkalkül scheint mir die allgemeine Methode, das Unregelmässige auf das Regelmässige zu reduzieren –es durch eine Funktion des Regelmässigen auszudrücken – es mit dem Regelmässigen zu verbinden – das Regelmässige zu dessen Meter zu machen – es mit demselben zu logarithmisieren.

O cálculo infinitesimal como forma de operacionalizar a ideia de infinito, como modo de superar certa insensibilidade numérica – como a entende Hofstadter – não importa a supressão de sua  espessura, mas aquele alcance de relação e modalidade reclamado por Novalis,   numa  esfera de projeção poética, por onde o cálculo se espraia. 
   
No plano do infinito, números e palavras, luzes e sombras,  chaves e criaturas, tendem para um zona de coincidentia oppositorum, que é a vida matemática dos deuses, nas alturas infindáveis do mundo hiperurânio. 

O descortínio da mathesis universalis cabe ao poeta, que é também sacerdote e matemático. E a Flor azul assume seus contornos de beleza e mistério.

Um heroísmo metafísico até esse momento desconhecido” – as palavras são de Vicente Ferreira da Silva – “abrasava esses corações destemidos dos que ousavam partir à aventura  em busca da misteriosa ‘flor azul’, símbolo de todo Romantismo. No Henrique de Ofterdingen, o poeta fala-nos dessa flor misteriosa: ‘Não, não são os tesouros que despertam  em mim este desejo inexprimível; a cupidez está bem longe do meu coração; mas suspiro pela descoberta da flor azul! Ela está sempre em meu espírito e eu não posso refletir ou sonhar outra coisa. Nunca senti nada semelhante; é como se tivesse sonhado até agora ou como se durante o meu sono tivesse deslizado para  um mundo novo; pois no mundo em que vivi até hoje  quem jamais se afligiu por flores?’ A flor azul  é o símbolo do enigma da coisa, do pleno desenvolvimento e explicitação de tudo aquilo que neste mundo só existe como possibilidade e germe, encapsulado na ganga amorfa da materialidade. Somos apenas a semente, o broto de uma floração maravilhosa que divisamos no amanhã, entre brumas, na região indefinida do sonho. ‘Longinquidade infinita do mundo das flores!
 

Sergio Quinzio e a Suprema Inversão

Volto mais uma vez à teologia de Sergio Quinzio e sigo por essa mesma selva de espanto. Sobretudo quando o livro em questão,  A derrota de Deus, traz  desde o título um sinal de alerta: terá Deus esquecido as promessas do Reino, ou talvez não queira ou não as possa cumprir?

Uma espera sofrida de século a século. Quinzio responde com uma lucidez que fere como lâmina. E o mal-estar é maior porque feito por um teólogo de dentro, do mesmo horizonte religioso, que parte das profecias bíblicas e dos apocalipses.

A derrota de Deus lembra um livro inspirado por Nietzsche, Pascal ou Dostoievski. E, todavia, desde a cidade de Deus:

Martin Buber disse que Hitler obrigou os judeus crentes e não crentes a falarem de Deus, e esta não é uma de suas menores atrocidades: porque ou Deus fala, e então o   escutamos, ou se fala com Deus, rezando, mas não se fala de Deus. Seja como for, para nós, e não apenas hoje, o divino não pode ser o horizonte, mas o problema.   Estamos condenados a falar de Deus, porque não é mais fácil não falarmos dele  nunca mais, como poderia prescrever Wittgenstein. Falar de Deus é possível – para o   crente e o não-crente que pensam. Justo pelo fato de falar de Deus, fazendo-o entrar em nossas equações teológicas e filosóficas, estéticas e científicas, políticas   e antropológicas,  o crente e o não-crente se encontram, e no encontro se perde de modo anticristão a diferença, irrenunciável do ponto de vista da fé, entre fé e   não fé.

O aspecto acidular dessas palavras – por onde se dissolve uma teologia do excesso – parece mover os temporais que desabam sobre o Livro de Jó e o Eclesiastes, os mesmos que deflagram um novo pacto entre a suprema Justiça e o curso da História.  Seria melhor não falar de Deus, mas apenas falar com Deus

Como atingir esse solo a duas vozes,  se Deus não é o horizonte  original, mas um problema difuso e quase insolúvel?   Seria preciso passar do silêncio – da luz tabórica dos místicos, das orações, da teologia mística e negativa – para o discurso teológico e afirmativo sobre Deus. Com todos os cuidados para não o transformar na grande aporia de um sistema.  
  
Se Quinzio tivesse lido o padre Vieira teria decerto assumido a estratégia de uma promotoria dura, apertando, acusando, assumindo  o excesso contra a indiferença.  Deve-se falar de com excesso. Tal como Vieira, imerso numa estranha partitura.

A derrota de Deus seria patente num reinado sem mando e poder. O drama da volta de Cristo, prometida para breve e prorrogada para sempre, é uma  ferida no tempo:

Depois de dois mil anos se o poder da Encarnação e da Paixão do Senhor não nos tornou capazes até agora, vinte séculos depois quando soou a ‘última hora’ do mundo,  de nos convertermos à santidade e à piedade, é insosso pensar que nos tornaremos capazes agora, quando já esquecemos  o sentido das promessas em que acreditamos. Vamos continuar  por outros milênios a jogar o jogo de Deus, que não nos ajuda porque não o merecemos, e do homem que não está na altura de o merecer sem o seu  auxílio? A palavra do juiz iníquo se fecha com outra pergunta: ‘Mas, quando vier o Filho do homem, acaso achará fé sobre a terra?’ (Lc, 18,8). A resposta só pode se  esta: ele  deverá vir, se virá,  malgrado a nossa falta de fé. E não será totalmente culpa dos homens se a fé estiver perdida. Estamos aqui apenas porque somos   filhos  desse imenso, atraso insuportável.

Como se os de Holanda estivessem na iminência de invadir  nossas terras. Como se Vieira tivesse de lembrar a Deus o que Ele pactuara com os seus. Mas a diferença é que havia nele uma certeza de futuro, que o arrebatava.

Quinzio não escreve sob as luzes da Guerra contra os de Holanda, mas sob o impacto da Shoá e de um Deus afogado no silêncio.
  
Seria talvez a perspectiva de um Deus fraco, bem mais dura que a dos teólogos radicais – os que afirmam a morte de Deus na cruz, saindo  de cena para ceder espaço ao  homem. Para eles, não um seria um parricídio. Mas o lance generoso e derradeiro de um Pai que não lega ao filho a sombra de seu  desassossego.  A morte de Cristo seria a vitória de um Deus forte, que se imolou na cruz para os mortais!

Uma despedida consentida e trágica.

O Deus de Quinzio, ao contrário daqueles teólogos, revela uma espécie de anemia profunda. Um deus com aquela vontade ineficaz de que falam os escolásticos, bem mais comprometida agora: 

O Apocalipse apresenta  repetidas afirmações que a atual defunta teologia de matriz aristotélica nunca pôde levar seriamente em consideração.  Vozes celestes gritam   anunciando  finalmente  que “o império de nosso Senhor e de seu Cristo estabeleceu-se sobre o mundo, e ele reinará pelos séculos  dos séculos  (Ap. 11,15). “Assumiste  a plenitude de teu poder real” (Ap. 11,17) Agora chegou a salvação, o poder e a realeza de nosso Deus, assim como a autoridade de seu Cristo (Ap 12,10).  “Aleluia! Eis  que reina o Senhor, nosso Deus, o Dominador!” (Ap. 19,6). Mas isso é dito profeticamente, na fé, na esperança desiludida há milênios. E, enquanto   indicador aponta  para o futuro esperado, aponta-o desde a experiência de um Deus ausente do mundo, um Deus que deve alcançar misteriosamente a própria divindade  mediante a dilaceração e a derrota.”
    
Aqui se compreende melhor a ideia da derrota de Deus, através do mistério e da força  da iniquidade: Deus e o Mundo coincidem abatidos nas chamas de um incêndio. Das cinzas haviam ambos de encontrar a purificação. Um Deus que morre, afinal. Uma Igreja que morre. E dessa trágica demanda o caminho para a vida – o que Deus vive na Cruz:

Um velho jesuíta  da Pontifícia Universidade Gregoriana, Xavier Tilliette, escreve, em Le cri de la croix, que aquele grito é ‘a pura expressão do abismo. Deus entra   no terror e no frio da morte, sofre a queda vertiginosa no tártaro profundo, é a presa do anjo do abismo (...) Deus morreu, que grave palavra, diz Hegel. Conheceu as   angústias da morte’. A descida aos ínferos (Ef., 4,9;1 Pt., 3,19), que foi representada tradicionalmente como uma vitória triunfal, antes de ser de todo esquecida,   aparece o êxito da queda e da aniquilação do Deus crucificado.

Como nos poemas de Turoldo, tem-se a impressão – na pele da metáfora – de que Deus e o Cosmos representam um drama metafísico do qual não já não podem sair e cujo último ato é a morte. Como etapa, talvez. Como estação. Tão dura que parece irrevogável.  Como se a experiência da cruz e da morte estivessem inscritas  para sempre na memória de Deus: “Tomando a carne humana de Jesus Nazareno, Deus não é mais idêntico ao que era antes. Sofrer e morrer na cruz deixou nele um traço indelével.” 
    
Quinzio não aprofunda aspectos da vida endodivina, pois que se decide por uma cristologia de baixo,  a partir de Jesus, que levou a carne para o seio da metafísica, o rosto do tempo para a comunidade atemporal. Deus não é o mesmo. E sentiu o sacrifício e a morte. Houve – diriam alguns  – uma inscrição   neuronal ou um corte biográfico.  O horror – diz Quinzio –  como única saída para a salvação:

Deus morreu há dois mil anos, e no trono divino, na nova Jerusalém descida do céu, senta-se com Deus, inseparavelmente, a sua imagem visível (Col. 1,15), o cordeiro   destinado ‘antes da fundação do mundo’ (1 Pt 1,10) a ser degolado’ (Ap. 5,6).  O dia do Senhor, ‘grande e terrível’ (Gal 3,4), que já os profetas haviam   insistentemente anunciado, e obsessivamente descrito com extrema violência, como fará o Apocalipse, enquanto  selo das Escrituras,  é o ‘dia da ira, dia de angústia   e de aflição, dia de ruína e de devastação; dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e de névoas espessas, dia de trombeta e de alarme, contra as cidades fortes e as   torres elevadas’ (Sof 1, 15-16). O dia do cumprimento da salvação  prometida é o dia no qual ‘toda a terra será devorada’ e exterminados ‘todos os habitantes da     terra’ (Sof 1,18) . Este é o dia que os homens e Deus deveriam desejar e invocar (Rm, 8,26-27). O horror como extrema e única possibilidade de salvação. Uma demanda   necessária e impossível ao mesmo tempo.

O fim do mundo e a ligação entre Deus e o homem salta aos olhos. O último dia a que devíamos todos aspirar já não separa o criador da criação. Se o homem não  pode ser salvo longe de Deus, tampouco Deus  pode ser salvo longe dos homem.  Uma solidariedade necessária entre as partes que operam em conjunto, a partir da via  transitiva em Cristo, a mesma  que levou o homem para Deus e que trouxe Deus para o homem. O combate para o bem e para o fim: 
 
Mas se Deus está envolvido, como está escrito, na guerra, então a sua vitória ou a sua derrota, a sua subida ao trono de seu reino ou o nunca mais subir, e definitivamente tanto a existência como a não existência de Deus  , tudo faz ou deixa de fazer sentido no êxito da luta. Deus é a salvação de Deus, não há nenhum Deus separado da sua e da nossa salvação.

Palavras terríveis, visceralmente marcadas, produtoras de uma nova economia: “Deus é a salvação de Deus”. Tal como Vieira no famoso sermão Para o bom sucesso das armas de Portugal contra as de Holanda, cuja tarefa consistia em converter Deus para Deus.

Assim, o Céu e a Terra, a História e a Eternidade mostram-se cada vez mais solidários no plano da salvação, como  tratou recentemente, embora em outra chave,  Roger Haight com seu Jesussímbolo de Deus.

Em Quinzio, as dúvidas não conhecem fim e ele não celebra uma paz romana para esses conflitos, que se adensam em carne viva na pós-modernidade:   

Mas e se Deus for derrotado? Se Deus não salvar nunca mais? Se os mortos não ressuscitarem? Se as injustiças e os sofrimentos continuarem para sempre? Como a fé poderá pensar nisso tudo? Será fé aquela que se vê precipitar para um êxito mais catastrófico, para a própria fé, do que qualquer catástrofe?

Uma questão rechaçada desde os primórdios do cristianismo. Mas lá estava a dúvida como ruído.  E sem meio-termo.

Nada de uma quase Ressurreição. Ou tudo. Ou nada.

Eis a coincidência de Quinzio, com o cristianismo primitivo, a fé radical e o diálogo com Deus, sentido e dramático. Essa mesma adesão que os tempos atuais parecem ter dissolvido, a ponto de levar mais de um teólogo a  trabalhar numa ciência de objeto vazio. Como  se fossem conservadores de um museu esquecido. Vigários  de um Bispo velho e cansado. 

E se a derrota de Deus se mostrasse de todo irreversível,  não sendo sequer um parênteses terrível dentro da economia da salvação?

Nesse caso, a tarefa será nossa. E não será apenas a de converter Deus para Deus, mas a suprema inversão de o ressuscitar:
 
“Estamos unidos a Deus num sentido totalmente outro. No sentido em que nós também, com o Espírito que está em nós, morremos. Enquanto Deus é ‘derrotado’,   ‘arrancado’, deixado cair  da cruz como um farrapo inútil e esquecido, nós, com a nossa fé, subimos à cruz, combatemos a derradeira luta, a  agonia,  gritando: “Eli,   Eli, lema  sabachtaní?’ Assim – é o que pedimos em nossa súplica – se cumprirá  o que ainda falta à Paixão  de Cristo (Col, 1,24) e acontecerá a suprema inversão. O   nosso sacrifício  há de infundir vida, ressuscitará Deus. Deus que se ofereceu para nós, que espera de nós a salvação, é um Deus que deveríamos amar perfeitamente,   mas ele nos deixou cansados, desiludidos e  infelizes para o  fazer”.

Avançamos na modernidade e o modelo teológico parece não vestir nosso tempo e nem tampouco celebrar a liturgia de um mundo que ainda não sabemos. O desespero da tese de Quinzio mal se resolve dentro de uma dolorosa espera.  Mas a janela permanece aberta. Estranhamente aberta.  A comunicação  transitiva. E a certeza de que é preciso salvar Deus e que o futuro entre Deus e os homens, a partir da nova equação do sacrifício, há de nos tornar mais próximos e menos infelizes, desde que sejamos capazes – cansados ou abatidos –  de o ressuscitar.