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Discurso - Feira Internacional de Frankfurt (2013)

APRESENTAÇÃO OFICIAL DA DELEGAÇÃO DO BRASIL NA FEIRA INTERNACIONAL DO LIVRO EM FRANKFURT

Discurso da presidente da ABL, Ana Maria Machado

Minhas palavras neste momento não são apenas protocolares, na qualidade de presidente da Academia Brasileira de Letras -- instituição cultural fundada por Machado de Assis e Joaquim Nabuco, e ativa há 116 anos, regida por um estatuto que lhe atribui como objetivo a cultura da língua e da literatura nacional.  Ou como delegada da Biblioteca Nacional , de quem recebi esta honrosa incumbência -- uma instituição com mais de dois séculos de existência, guardiã de tesouros bibliográficos, entre eles um precioso exemplar da Biblia de Gutenberg. Falo também como autora com mais de 40 anos de carreira, como portavoz de meus colegas, meus irmãos-escritores, tantos autores aqui presentes e tantos mais que aqui não estão. Em todas essas condições, desejo agradecer por este encontro e dar as boas vindas aos que vierem nos conhecer.

O Brasil aqui chega hoje, como convidado de honra desta Feira Internacional do Livro em Frankfurt, e traz um retrato instantâneo de nossa produção editorial contemporânea. Como se trata de livros, traz também muito mais do que isso: um convite à descoberta de nossa literatura . Vocês nos convidaram e nos recebem com todas as honras nesta cidade. Nós também convidamos vocês: venham ler nossos autores. Prometemos recebê-los à altura em nossa casa literária.

Nestes tempos contemporâneos, pelo mundo afora, somos todos vítimas de uma certa prisão a imagens predeterminadas, que prometem um resumo rápido de todo um povo e uma cultura. Porém nem sempre essas imagens são fiéis. Uma palavra detona logo uma imagem que pretende esgotá-la, sem perda de tempo. E a imagem do Brasil não é associada a livros. Ou seja, o Brasil não é considerado um país literário – diferente de alguns de seus vizinhos. Os estereótipos que se colam aos olhares  lançados sobre nós se voltam muito mais para a cultura daquilo que é imediatamente apreensível pelos sentidos -- o corpo. Mas um corpo em que o cérebro costuma ser esquecido, como se não tivéssemos espírito, na celebração da dança,  da música, do futebol, da capoeira e outros esportes,  da sensualidade, das peles bronzeadas que se exibem nas praias, do carnaval, dos sabores da caipirinha. Mas os brasileiros somos muito mais do que isso, no amálgama cultural e étnico que nos constitui, capaz de criar tudo isso e muito mais, a partir de um rico patrimônio indígena encontrado pelos europeus que chegaram ao nosso país, dos  diversos aportes dolorosamente  transplantados da Africa em porões de navios carregados de escravos, da bagagem acumulada e trazida por imigrantes europeus, asiáticos, e do oriente médio, de variadas origens – todos colaborando para moldar uma forma única de nos expressarmos, capaz de  dar uma contribuição enriquecedora para todas as nações.

Então, ao agradecermos o convite para esta vinda a Frankfurt, retribuímos também com outro convite: venham conhecer o Brasil que está nos livros, o Brasil que escreve e se escreve. Nas décadas de 60 e 70, quando o mundo literário voltou os olhos para a América Latina, saltou por cima desse país continental que é o Brasil,  dispensou sumariamente nossa querida língua portuguesa e assentou todos os seus holofotes sobre os hispano-americanos, no merecido encantamento com o chamado realismo mágico que então caracterizava seus livros, em tantas claves diversas, vindas de tantos países. No entanto, ainda que nos tangenciássemos aqui e ali, o rótulo não nos servia. Nossos escritores nunca foram prioritariamente habitantes desses píncaros – embora talvez o gênero tenha sido criado  ainda no século XIX pelo brasileiro Machado de Assis, com Memórias Póstumas de Brás Cubas. Nossa praia é outra, como dizemos. Ou são outras. Variadíssimas. Surpreendentes. Por vezes, inclassificáveis.

Assim, o que lhes trazemos nesta feira é um convite  a mergulhar nas águas desta multiplicidade, desta identidade aberta, feita de diálogos e cruzamentos culturais. Em vez de cordilheiras e vulcões, águas. Um ambiente líquido, que escorre , flui, se derrama, cria ondas, redemoinhos, vórtices, enche e vaza com a maré e nunca se deixa apreender em um único golpe de mão. E na soma que nos damos a conhecer, feitos de tantas diferenças,  mas unidos por um conjunto de relações – que não é o caso de explorar nesta breve fala.   Agora, cabe apenas uma advertência: não venham procurar o exotismo e o pitoresco, nem  a se dar por satisfeitos com a denúncia automática dos óbvios problemas , repetidoras de clichês. Procurem ir além da mera confirmação de estereótipos simplificadores. A literatura que se faz  no Brasil tem muito mais a lhes oferecer -- em sua variedade de protótipos, sua inquietação, sua inovação formal, sua inquietação, seus variados registros de diálogo irônico com o cânone em  piscadelas literárias de todo tipo, das mais refinadas e sutis às mais divertidas e escrachadas paródias, pastiches, intertextualidades.

Mas estejam certos de que vão encontrar o reverberar dos problemas brasileiros nas obras de variados autores de percepção aguda.  A sociedade e a política brasileira estão sempre rondando, por perto, por baixo do que se publica entre nós. Esse substrato político na escrita é uma das nossas marcas. Em seu conjunto, nossos livros levantam indagações, reflexões, diálogos críticos com o real, hipóteses do imaginário, a partir de fatos  de nosso cotidiano e de  sabores por eles despertados em cada um de nós.

Trazemos autores de procedências diversas, com suas falas pessoais, visões peculiares e irrepetíveis. Uma soma. Um mosaico, talvez. Um tecido de fios entrecruzados, de desenhos imprevisíveis e surpreendentes. Quem tiver o cuidado de examinar de perto essa urdidura terá também a revelação de avessos instigantes e desafiadores, pessoais, únicos, típicos das texturas e dos textos artesanais, abandonados nas produções em série dos grandes teares industriais. Tudo isso contribui para compor uma literatura de grande vitalidade, num processo dinâmico que se movimenta sempre, construindo possibilidades insuspeitadas pelos olhares comodistas e superficiais.

Este é um convite para que vocês venham encontrar essa literatura plural, múltipla, diversa, em que os regionalismos eventuais se esgueiram pelas frestas de um cosmopolitismo inesperado, construído sobre a intensa riqueza de uma cultural oral vigorosa que ajuda a sustentar refinadas invenções vanguardistas, sem deixar de dialogar com ecos de uma cultura de massas dinâmica , onde técnica e improviso  ousadamente se dão as mãos. Ao pagar o preço histórico de só termos conseguido escolarizar plenamente nossas crianças nas duas últimas décadas (e ainda assim, de maneira precária, com baixa qualidade no ensino), e de termos grande parte de nossos professores oriundos de lares analfabetos, sem intimidade com livros, esbarramos também num acelerado processo de urbanização e desenvolvimento tecnológico, numa rede de comunicação de massa  onipresente e criativa , de alta qualidade e de elevado padrão técnico. Em grande parte, saltamos diretamente da cultura oral para a televisão e o mundo digital sem fazer escala na Galáxia de Gutenberg. Mas desse processo histórico injusto, a refletir as desigualdades do país, nossa cultura tira uma força única, com uma produção de grande vitalidade e diversidade, combinadas de maneira muito própria, em original contribuição que surpreende quem chega perto desarmado de preconceitos, disposto a se deixar impregnar por ela.

Como amostra dessa produção na literatura, aqui chegamos com uma delegação de 70 escritores, que refletem isso. Trata-se de um bom retrato instantâneo deste momento. Sei bem que esse elevado número suscitou estranhamento e foi até mesmo recebido com ironias e críticas em certos círculos, interpretado como um gesto arrogante ou presunçoso – como se qualquer país pudesse imaginar ter 70 grandes escritores a apresentar ao mundo ao mesmo tempo. Mas proponho outra leitura, mais modesta e simpática. Não apenas por termos de considerar a escala gigantesca : afinal essa quantidade corresponde a um país continental,  de 200 milhões de habitantes, com 8 milhões e meio de quilômetros quadrados (quase 25 vezes o tamanho da Alemanha). E há ainda outro aspecto.  Creio que uma delegação como esta reflete também o  pensamento oficial de um política cultural que faz questão de apostar nas potencialidades, de se apoiar na máxima inclusão possível, de se caracterizar alegremente como uma celebração, uma grande festa, um  acolhedor coração de mãe onde sempre cabe mais um.

Encerro pois estas palavras repetindo o convite a cada um para que se aproxime de nossos livros e venha garimpar tesouros nesses ricos veios, em busca de suas descobertas pessoais. Há livros para todo gosto. Seguramente cada leitor saberá encontrar o seu. Provavelmente, mais de um se revelará atraente. Para isso, basta chegar perto, procurar ler, enfrentar o desafio de ir além da superfície e não se limitar apenas aos que nela  flutuam, selecionando somente  os que confirmam o que já se espera achar. Garanto que boas surpresas estão a sua espera.

Sejam bem vindos.

Ana Maria Machado
Frankfurt, outubro de 2013

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Ana Maria Machado