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Discurso de Posse na Presidência da ABL (2011)

Tomo posse na presidência desta casa com a consciência de que estou sendo honrada pela escolha de meus pares, mas com a certeza maior ainda de que estou assumindo um compromisso com eles, com a história desta instituição e com seu papel dentro da sociedade brasileira. Procurarei corresponder à confiança em mim depositada e estar à altura dessa tarefa multifacetada, para a qual espero contar com o apoio e a compreensão de todos os acadêmicos.

O primeiro e mais visível aspecto dessa tarefa é entender que me situo numa linha de tradição secular, iniciada com Machado de Assis, e não posso desmerecer esse legado que tem a ver com a grandeza desta instituição e o lugar que ela ocupa no imaginário cultural da nação. Podemos até lhe dar atividades atualizadas, usar tecnologia contemporânea, não mais nos tratarmos por vós e Vossa Excelência, ou nos permitirmos dizer tudo isso que acabo de afirmar, com uma expressão bem ao gosto de nosso tempo - não deixar a peteca cair. Mas não podemos esquecer quem somos e de onde viemos.

Por outro lado, temos também de estar atentos ao que queremos ser e para onde vamos. Nesse sentido, também meus predecessores me fornecem exemplos de trabalho no sentido de uma atualização permanente, entre os quais podemos tomar como modelo simbólico este presidente e amigo que hoje se despede do cargo, Marcos Vilaça, com seu dinamismo incorrigível e sua usina de ideias, responsável maior por dar a esta Casa uma visibilidade extraordinária e uma imagem pública renovada. Depois de sua passagem por este cargo - e de outras gestões recentes - a primeira coisa que vem à cabeça para a maioria das pessoas quando se fala na Academia Brasileira de Letras não é mais a imagem de um bando de velhinhos trôpegos e ociosos dedicados a um chá mais duradouro do que o do desaniversário de Alice no País das Maravilhas, mas a de uma instituição cultural atuante e incansável, que estende sua programação e multiplica suas atividades de tal forma que se torna impossível acompanhar tudo, até mesmo por falta de tempo físico e por ser inalcançável a ubiquidade. Esse exemplo nos traz um desafio e um dever: o de criar condições para estar à altura do que já foi feito, prosseguir o iniciado e ampliar ainda mais o alcance e a profundidade de tamanha ebulição.

É um modelo impossível de igualar. Consciente de minhas limitações, nem vou tentar. Saindo pela tangente - e já que esta casa também tem se aproximado do pop e do popular - só posso pretender ser como diz o lema de outros acadêmicos, os do Salgueiro, e repetir com a escola de samba: nem melhor nem pior, mas diferente. Diferente até mesmo pelas marcas individuais que cada um de nós traz, de história pessoal, personalidade e temperamento. Para começar, não sou pernambucana. Sou carioca e aprendi modestamente com Tom Jobim: eu possuo apenas o que Deus me deu. Ou com Paulinho da Viola: as coisas estão no mundo, e eu preciso aprender. Sei que tenho muito o que aprender. Talvez por isso, tenda a ser mais acolhedora e recolhida que expansiva. Quase retraída e pouco à vontade nestes tempos de celebridades e muita exposição. Nessa soma de diferenças complementares, nessa alternância de expansão e retraimento, de sístole e diástole, de inspiração e expiração, é que a vida se afirma com sua pulsação. E nesta casa viva, como no peito do desafinado, também bate um coração - que abre e fecha, se expande e contrai. Continua se abrindo, mas também sabe se retrair.

Para não exagerar, me reforço com dois pernambucanos na diretoria, Evanildo Bechara e Geraldo Holanda Cavalcanti; Mas em plena Guanabara, com os ares que me trazem Domício Proença de sua Paquetá e Marco Lucchesi de Niterói, cariocamente acolho todos os aportes de outros lugares. Volto aos exemplos de meus antecessores, tantos e tão variados que seria longo citar mas a todos reverencio.

Mirando-me neles, me permito matizar este meu compromisso.

Prosseguindo um processo de abertura que vem desde a instituição das visitas guiadas, por Nélida Piñon e Arnaldo Niskier, buscaremos dar continuidade a uma maior presença social da ABL, sobretudo nesta cidade que nos acolhe e na qual nos enraizamos, até mesmo por uma cláusula pétrea de nossos estatutos. Voltados para o futuro e para esses nossos territórios urbanos de incipiente recuperação para a cidadania neste momento, tentaremos compartilhar com eles a alegria das descobertas da leitura e o tesouro da literatura e da língua que nos vieram como herança, dando especial atenção a projetos de formação de novos leitores e apoio a espaços onde se incentive o acesso à cultura e à literatura nacional. Da mesma forma, continuaremos a estimular que ela seja bem estudada nas universidades brasileiras e estrangeiras, convencidos de que nestes tempos em que o mundo olha o Brasil com mais atenção, a literatura por nós criada e nosso pensamento crítico podem ser marcas pelas quais merecemos ser conhecidos. Devemos mostrar que temos protótipos culturais a oferecer ao mundo, algo muito mais fundo e significativo do que os estereótipos rasteiros que tantas vezes têm caracterizado alguns apressados olhares distantes.

Nada garante que vamos conseguir. Só podemos prometer tentar. De forma criteriosa. E gostaria determinar estas palavras sublinhando esse conceito - criterioso. É nele que esta nova diretoria baseia seu compromisso. É nele que pretendemos fundamentar nossa ação. É por ele que deveremos ser cobrados.

Ana Maria Machado
15/12/2011

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