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Marco Maciel ganha biografia

 

Mapa do Chile”, “Marco de Pernambuco”, “vice dos sonhos”, “construtor de pontes”, “pacificador”, “ponderado”, “tolerante”. Apelidos e referências não faltam a Marco Maciel, vice-presidente da República, senador, deputado, ministro da Educação e da Casa Civil, governador de Pernambuco. Eleito Acadêmico em 2002, ocupou a cadeira 39, sucedendo a Roberto Marinho, hoje ocupada por seu conterrâneo José Paulo Cavalcanti. Morreu em 2021 aos 80 anos e agora ganha uma biografia “O Estilo Marco Maciel”, escrita por seu assessor, o jornalista Magno Martins, que será lançada na próxima quinta-feira, dia 24, na ABL às 17:30.

Marco Maciel ocupou a Presidência da República, interinamente, por 87 vezes. Em média, governou o País por um dia a cada semana que Fernando Henrique Cardoso esteve na Presidência, entre 1995 e 2002, devido às viagens do titular. Presidiu o Brasil 29 dias a mais do que o presidente Jânio Quadros. Não despachava no Palácio do Planalto, mas em seu gabinete, no anexo do Planalto.

De acordo com o relato de Magno Martins, Marco Maciel usou a sua infinita capacidade de construir consensos, principalmente em 1984. Tornou-se peça-chave na criação de uma aliança com os oposicionistas ao regime militar e operou a transição sem que houvesse uma gota de derramamento de sangue. Teve papel tão importante que chegou a ter seu nome ventilado para vice de Tancredo, mas ele próprio abriu os caminhos para o senador José Sarney ser o escolhido. “Marco Maciel foi um dos artífices da chamada Nova República, abriu a janela do entendimento entre o regime militar e a oposição. É dele a frase “Se é para o bem do Brasil, estamos condenados a nos unir”, diz o jornalista Angelo Castelo Branco.”

Marco Maciel ocupou as funções mais relevantes que um político sonha em mais de 50 anos de atividades marcadas por uma disposição incrível para o trabalho. “Marco foi um político que esteve no regime militar, na democracia, na construção da Nova República, sempre com convicção liberal, integridade e honestidade. Nunca esteve envolvido em qualquer coisa moralmente equivocada”, revela, por sua vez, o ex-ministro Cristovam Buarque, pernambucano, também ex-governador do Distrito Federal e ex-senador.

Quando Marco Maciel era presidente da Câmara dos Deputados, o general Ernesto Geisel baixou um ato “fechando” o Congresso. Foi o Ato Complementar 102, de 1º de abril de 1977. O intuito era aprovar a reforma judiciária que havia sido rejeitada pelo parlamento.

Magno Martins conta que as varadas pela madrugada de Marco Maciel Palácio do Campo das Princesas caíram no folclore político. Quando alguém pedia uma audiência e recebia a confirmação à meia noite, não acreditava. Desconfiava de trote. Então secretário de Agricultura, o engenheiro Aloisio Sotero chegou tarde da noite em casa, depois de uma longa reunião no Palácio. Chegou tão cansado que teria esquecido até de tirar a gravata. Às duas da madrugada, toca o telefone em sua casa. A mulher atende. Do outro lado da linha, era o ajudante de ordens de Maciel, que queria tirar uma dúvida com o auxiliar. A esposa responde que ele estava em sono profundo, havia chegado muito tarde e não iria acordá-lo. No dia seguinte, ao encontrar-se com Sotero, Maciel o elogiou bastante pela eficiência, mas disse que tinha um grave defeito: era dorminhoco.

Além de não dormir, Marco Maciel também quase não comia, daí a razão de ser tão magro. Também não gostava de perder tempo em almoços. Certa vez, cumprindo uma extensa agenda em Brasília ao lado de Francisco Bandeira de Mello, o Bandeirinha, assessor de extrema confiança, foi obrigado por Bandeirinha, esfomeado, a parar numa lanchonete. Era a paradinha para o almoço. Marco Maciel se dirigiu ao dono da lanchonete e tascou: – Por favor, um sanduíche misto e uma Coca-Cola. Bandeira retrucou: – Marco, somos dois. O governador então saiu com a seguinte pérola: – Sim, Bandeira. Pedi um para dividirmos. Não podemos perder tempo.

Joaquim Nabuco e o italiano Norberto Bobio foram as grandes referências de Marco Maciel. A grandeza dos seus textos, sua perenidade e o alcance moral de seus ensinamentos fizeram dele, mais que um autor, um mestre, vocacionado não para ensinar, mas para educar”, escreveu Marco Maciel em um artigo no grupo Diario de Pernambuco há mais de 20 anos sobre Joaquim Nabuco. Para Magno, de Bobio certamente colheu a flexão para o âmbito do liberalismo social em que se viria alojar. Porém, também fazia bastantes referências ao liberal peruano Mario Vargas Llosa e estava declaradamente filiado às interpretações de Leonard Hobhouse (1864-1929), um dos patriarcas britânicos da escola do liberalismo social, acoplando à sua retórica uma defesa entusiasmada da igualdade de oportunidades.

“Católico fervoroso, rezava de joelhos ao acordar. Em voos, só decolava depois de ler a Bíblia, que levava nas mãos. A cada fim de um dia estressante, sem hora para acabar, lia trechos bíblicos das edições “Liturgia diária” ou da Liturgia das horas.

Em um longo e corajoso depoimento no livro, a viúva de Marco Maciel, Anna Maria, fala sobre os 10 anos que o acompanhou no tratamento de Alzhimer, que culminou com sua morte em 2021.

“Quando entrou na campanha de senador em 2010, a última de meio século na política e a primeira derrota entre tantas eleições que disputou, Marco Maciel já dava os primeiros sinais do mal de Alzheimer. Trocava nomes de lideranças, em estúdio gravava com dificuldades e não revelava o mesmo entusiasmo em relação aos pleitos passados.

Em casa, a família percebeu sinais dele esboçando impaciência e nervosismo, não característicos da sua personalidade serena. Ali, já estava com depressão, companheira irmã do Alzheimer, mas ninguém sabia, nem mulher, filhos ou amigos mais próximos. O baque do insucesso nas urnas o deixou profundamente triste e desapontado, acelerando a depressão. Numa primeira consulta em São Paulo, levado pela companheira inseparável, a socióloga Anna Maria Maciel, o médico constatou graves sintomas de depressão, mas sem confirmação do Alzheimer. Em casa, no convívio com a mulher, filhos e netos, Maciel continuava, porém, a revelar sinais de que a sua saúde mental não estava bem.”

21/08/2023