O único potiguar a integrar a Academia Brasileira de Letras (ABL) nasceu em Mossoró, mas edificou sua carreira como escritor premiado em outras paragens – muitas delas fora do Brasil, como diplomata. O mundo que ele viu está todo em seu Brasil literário. O escritor esteve em Natal nesta semana para participar de um encontro criado pelo projeto Ocupação Literária em parceria com a Academia Norte-rio-grandense de Letras (ANRL).
Ele vive hoje em Curitiba (PR), e ocupa a cadeira nº 22 da ABL desde julho de 2017. Em Natal, Almino conduziu a mesa literária “Homem de Papel: da Prosa Machadiana à Construção do Romance no Século XXI”, no qual falou sobre Machado de Assis e a literatura atual. Antes, ele também conversou com a TRIBUNA DO NORTE sobre diversos assuntos relacionados à sua carreira e à sua escrita. Confira:
Você construiu sua carreira literária fora do RN. Mas a origem nordestina se reflete na sua obra e no seu olhar sobre a literatura?
Não posso deixar de ser quem eu sou, nordestino, e isso sempre se projeta de alguma forma. As minhas primeiras leituras mais sérias foram todas de escritores nordestinos. Eu li toda a obra de Graciliano Ramos, muito jovem, aos 14 anos. Eu morei em muitos lugares, e eu não queria levar minha literatura a esses lugares todos. Eu preferia trazer o mundo para para minhas referências brasileiras, em vez de leva-las para o mundo. Eu queria romper com essa estética clichê do regionalismo, e preferi ambientar minhas histórias em Brasília, uma cidade sem grande tradição literária, mas que foi construída pelos nordestinos. O Nordeste está em meus romances, sem que isso crie qualquer artificialismo.
Sua trajetória inclui não apenas a literatura, mas também diplomacia e filosofia. Como essas áreas influenciam sua escrita e visão de mundo?
Na escrita, o diplomata tem que ter muito cuidado com as palavras, e o escritor também. Mas com objetivos muito diferentes. Na diplomacia você não deve romper com as regras, precisa da clareza, do lugar-comum para ser compreendido. O que é um processo radicalmente diferente do escrito da poesia, da prosa. Se você romper um pouco e inovar na linguagem, você estará fazendo algo melhor. Também já me perguntaram se as viagens e pessoas ilustres que conheci influenciaram minha literatura. Influenciaram sim, mas não tanto como a literatura brasileira. Autores que leio e releio para aprender com eles, são quase sempre brasileiros.
Sua palestra em Natal abordou a transição da prosa machadiana para o romance contemporâneo. Como você enxerga essa evolução e quais são os desafios do romance no século XXI?
Eu gosto de literatura em que o leitor possa traçar paralelos entre o que está lendo e o que está vivendo. Eu gosto que ela tenha um elemento de contemporaneidade. Mas sempre com a preocupação de que cada frase possa ser lida em outro contexto. Há muitas teorias sobre o romance, inclusive de que ele morreu, chegou ao fim. Mas o romance é uma das formas literárias mais flexíveis, ela pode absorver qualquer coisa. O mundo vai mudando, vão surgindo novos obstáculos para o romance – e isso é muito bom para o gênero. Ele vai se renovando através dos obstáculos que encontra. Até a questão do livro físico x digital. Eles vão conviver. E se o físico acabar, o que importa é o conteúdo.
De que forma sua obra dialoga com a de Machado de Assis, seja no estilo, na ironia ou na construção de personagens?
Machado é para mim o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Eu achei que seria interessante no meu projeto literário, nem parodiar, nem ter uma referência que seja fundamental no meu livro. Mas achei importante dar uma piscadela de olho pro leitor, para que ele enxergue uma referencia a Machado. Por exemplo, já escrevi um personagem do “além túmulo” como o Brás Cubas, mas o meu narrador não fala de si, só dos outros. Também já citei o Memorial de Aires, trazendo o personagem para o nosso tempo, para mostrar como ele se comportaria nos dias de hoje. Os personagens vivem situações bem diferentes. Mas no geral é algo quase imperceptível, porque meu estilo e escrita não são iguais aos do Machado.
A literatura brasileira atual está em constante transformação. Você acompanha?
Eu acompanho e acho muito positivo o “resgate” de autores discriminados em sua época, e o destaque de grupos que não tinham voz. Certa vez na Alemanha dei a ideia de criar uma coletânea com grandes escritores brasileiros, e escolhi 12. E um deles era a Carolina Maria de Jesus. Ela já era celebrada, mas numa gaveta, como uma escritora “favelada e negra”. Ela é uma grande escritora, e ponto. Mas não é resgatar qualquer um. É o que tem qualidade pra isso. Foi também o caso do Lima Barreto, que hoje é amplamente reconhecido. Na literatura contemporânea, do meu ponto de vista, quando vejo o que está despontando, a melhor parte está sendo produzida por mulheres.
Qual a sua visão sobre o papel da ABL na cena literária de hoje?
A academia é a mais antiga instituição literária, cultural, e da preservação da língua no Brasil. E eu gosto de instituições, nós precisamos delas. É bom ter uma instituição que perdure nesse campo. E a ABL é independente, ela não tem nenhuma veiculação estética ou política, desde o começo. O papel dela é se renovar à medida em que consiga, e dialogar com as novas correntes, inclusive na literatura. Ela faz isso também através de sua revista, que é a mais antiga de literatura no Brasil. Há uma enorme diversidade, e ela dialoga com escritores contemporâneos de distintas correntes e origens. Durante um ano, por exemplo, tivemos um diálogo com a produção literária da “quebrada”, através da Heloísa Teixeira.
Seus romances transitam por temas como política, memória e identidade. Como você escolhe os temas que deseja explorar?
Pra mim é muito importante o personagem, eu sempre parto dele. Eu tenho a biografia completa dele na minha cabeça. Outros elementos como história, filosofia, vão sendo agregados à medida em que os personagens vão se relacionando. O que eu evito é colocar as outras linguagens em primeiro plano. Eu estudei filosofia com grandes filósofos, mas se eu ponho isso na minha literatura, é por tabela. De vez em quando eu me aproprio, às vezes de maneira jocosa. É algo que me dá uma bagagem adicional que posso aproveitar na linguagem de ficção, mas não está em primeiro plano.
Matéria na íntegra: https://tribunadonorte.com.br/viver/o-romance-e-uma-das-formas-literarias-mais-flexiveis-diz-escritor-joao-almino/
27/03/2025