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ABL na mídia - Estadão - Por que ler ‘Dom Casmurro’, livro de Machado de Assis que gera debate há 125 anos?

 

Entre as perguntas que todo brasileiro já se fez em algum momento de sua vida, “Capitu traiu Bentinho?” certamente é uma das mais populares. Em Dom Casmurro, romance de Machado de Assis lançado em 1900, a história de amor entre os jovens Capitu e Bentinho se torna, ao longo dos anos, uma narrativa sobre paranoia, desconfiança e ciúmes.

Qualquer fã de literatura brasileira já se questionou sobre a veracidade dos sentimentos e suspeitas do protagonista da obra, mas engana-se quem acredita que esse mistério é a única razão do sucesso do livro.

O romance Machado de Assis é considerado revolucionário para a literatura brasileira, e segue sendo tema de aulas para ensino fundamental e médio e cobrado em provas de vestibular por todo o País. O que o torna tão especial?

Estadão conversou com especialistas em literatura brasileira e na obra de Machado de Assis para entender por que a leitura do clássico é tão importante, seja para quem vai prestar vestibular, para quem é fã de literatura ou para quem gosta de uma boa história.

Por que ler ‘Dom Casmurro’?

Para Wilton José Marques, professor de literatura brasileira da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e autor de Machado de Assis e as Primeiras Incertezas (Alameda, 2022), trata-se de uma “forma privilegiada de se ter acesso ao aprendizado humano”.

“No caso específico deste romance, para entender como o ciúme doentio do personagem narrador estrutura o próprio andamento narrativo, é preciso que o leitor, acima de tudo, se atente para todos os detalhes do enredo, que às vezes podem passar desapercebidos”, diz o pesquisador.

 Luiza Helena Damiani Aguilar, mestre em Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa pela Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP) com a dissertação Machado de Assis em jornal e livro: diferentes suportes e sentidos dos três contos de Papéis Avulsos publicados antes de Memórias Póstumas de Brás Cubas (2020), entende que, apesar da possível traição de Capitu ser a “maior polêmica de nossa literatura”, o leitor atento encontrará inúmeros outros temas no livro.

“Além dos elementos relativos aos ciúmes ou ao adultério, o romance também toca em questões como o papel da mulher na sociedade oitocentista, discussão trabalhada não só com a figura de Capitu, como também a de Dona Glória e, mais marginalmente, de Dona Fortunata e de Sancha; ou a mobilidade social, já que, apesar de vizinhos, a família Pádua enfrenta dificuldades financeiras, diferentemente dos Santiago”, explica Luiza.

“A desigualdade social, aliás, é central para a digressão realizada nos capítulos sobre Manduca, jovem doente, pobre e um dos moradores da rua de Mata-cavalos com quem Bentinho travara uma breve relação discutindo a guerra da Crimeia: o seminarista é impedido de frequentar o enterro de Manduca porque isso seria dar ao evento o ‘lustre de sua pessoa’”, reflete a pesquisadora.

Para Luana Chnaiderman, escritora e professora de língua portuguesa, quem se aventurar pelas páginas de Dom Casmurro encontrará uma boa história, com personagens e temas que ainda são reconhecíveis atualmente.

“Há muitos Bentinhos por aí, homens herdeiros, bonachões, bem humorados, com uma cultura superficial, que estudaram pouco mas se diplomaram muito e que são, por trás de um lustre culto e engraçado, extremamente violentos e autoritários”, explica a professora.

Ela, no entanto, ressalta a complexidade das personagens presentes na obra de Machado. “Note que mesmo essa descrição que estou fazendo do Bentinho - este homem que ao final da vida não é mais Bentinho e sim o Dom Casmurro, aquele que se fechou e é um homem solitário e fechado que vai narrar a história do porquê dessa transformação", ressalta Luana.

Por fim, João Cezar de Castro Rocha, escritor e historiador, autor de Machado de Assis: Por uma Poética da Emulação (Civilização Brasileira, 2013), entende que a reflexão proposta pelo escritor brasileiro só encontra paralelo na obra de outro gênio da literatura — William Shakespeare

“O ciúme é uma questão muito mais epistemológica do que psicológica. Ou seja, o ciumento é alguém que radicalmente não sabe se algo de fato teve lugar. Daí, ele se torna um fabulador involuntário de fantasias de adultério. E quanto menos evidências encontra, mais histórias imagina!”, pontua Castro Rocha.

Matéria na íntegra: https://www.estadao.com.br/cultura/literatura/por-que-ler-dom-casmurro-livro-de-machado-de-assis-que-gera-debate-ha-125-anos-nprec/

27/03/2025