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Réquiem para Celso Furtado

 

Estes últimos seis anos têm sido muito cruéis para a nossa Academia Brasileira de Letras. Nesse período perdemos alguns acadêmicos emblemáticos: Antônio Houaiss, Herberto Sales, Dias Gomes, Carlos Chagas, Geraldo França de Lima, Rachel de Queiroz, Raymundo Faoro, Evandro Lins e Silva, o Cardeal Dom Lucas Neves, Barbosa Lima Sobrinho, Roberto Campos, Roberto Marinho e agora Celso Furtado, que morreu no dia 20 de novembro, aos 84 anos.


Ainda recentemente, solicitei e recebi, através de Rosinha, sua mulher, um dos últimos textos escritos por Celso Furtado sob o título Para onde caminhamos?, destinado especialmente ao JB.


Na quinta-feira seguinte, requeri à presidência da ABL, que aprovou, a transcrição desse texto em nossos anais, a fim de que ficasse registrado para sempre.


Ao sair daquela nossa reunião semanal, Celso me agradeceu essas duas iniciativas com um olhar tão triste e um aperto de mão tão forte, tão demorado e tão comovido, como se estivesse pressentindo que aquele seria o nosso último cumprimento. E acontecia, infelizmente, que era.


Nesse seu artigo final, destacam-se as suas advertências contra o engessamento das economias periféricas, que cada vez mais se endividam com os altos juros pagos aos centros internacionais do poder.


Celso adverte também, citando Hegel (o apaixonado tradutor de Sófocles), que alguns impérios, ao longo dos séculos e da história da humanidade, atravessaram períodos de frenética expansão e criatividade, seguidos de retrocesso e depressão.


Aí estão os casos da ascensão e queda dos impérios persa (de Ciro e Dario), cartaginês (de Aníbal e os dois Cipiões), babilônico (de Hamurabi e Nabucodonosor), macedônico (de Alexandre Magno), romano, da pax romana (de Cesar, Otávio e Pompeu), britânico (da Rainha Vitória, Gladstone e Pitt), napoleônico (dos Bonapartes), austro-húngaro (de Francisco José I), prussiano (de Bismarck) e germânico (de Guilherme II e Adolfo Hitler).


Assim, talvez o mesmo esteja acontecendo agora com o império americano, da pax americana, cuja real-politik produziu inimigos implacáveis, capazes dos atentados criminosos e terroristas ao Pentágono de Washington, às torres gêmeas do World Trader Center de Nova York e ao metrô de Madri.


Ele se debruça a seguir sobre as pedras do xadrez mundial e da globalização, para dar o seu diagnóstico sobre o atual desafio civilizatório. Um desafio, aliás, que a esta altura dos acontecimentos bem pode estar sendo decidido nos areais iraquianos, na esteira dos tanques ou na boca do canhão.


Todas essas advertências têm sido ditas e repetidas por um discreto paraibano, nascido na Cidade de Pombal, um longínquo aglomerado perdido no sertão e no semi-árido nordestinos. Como pracinha da FEB, Celso depois teve o seu primeiro contato com o universo europeu, então dizimado pela 2ª Guerra.


Veio de Cambridge para participar dos últimos anos do governo de Juscelino, com a criação da Sudene, deparando-se aí com Julião, Dom Helder, Gilberto Freyre, os usineiros, o DNOCS e, já então, os sem-terra. Cresce e se agiganta na fase do exílio, iniciado em 1964, no Chile, e continuado depois nos Estados Unidos (da guerra fria e do Vietnã) e na França (de De Gaulle e do chienlít).


Em Paris, é o único professor estrangeiro nomeado por De Gaulle para ensinar na Sorbonne, onde, durante 20 anos, profere aulas magistrais e inesquecíveis, falando para repletas e entusiasmadas platéias de estudantes.


Perseguido pelo regime militar, vê-se disputado entre as mais importantes universidades americanas de Yale, de Columbia e de Harvard; francesas, da Sorbonne e de Paris; e inglesas, de Cambridge e Oxford.


Vai à China (do maoísmo e da Revolução Cultural) e ao Japão (da reconstrução e do progresso).


Certa vez, em 1985, eu estava em visita à Universidade de Tóquio quando perguntei a um guia se havia ali o livro de algum autor brasileiro. E fiquei surpreso quando ele me trouxe o exemplar de A formação econômica do Brasil, escrito em Londres por Celso Furtado e já traduzido para o japonês.


Pois bem, é este paraibano competente e valoroso - com uma obra vertida para o inglês, francês, italiano, alemão, castelhano, romeno, sueco, polonês, persa (farsi), chinês, árabe e japonês - quem depois nos brindaria com mais 37 livros. Neles, em estilo cartesiano, na moldura e no figurino das atuais economias - não raro em equações algébricas e geométricas - Celso Furtado analisa as teorias de Weber, de Rostow e de quase todos os grandes intérpretes da política econômica do mundo nestes séculos 19 e 20: Adam Smith, Stuart Mill, Marx, Engels, Lenin, Hegel, Malthus, Marshall, Samuelson, Galbraith e Prebisch.


Celso Furtado era o maior pensador brasileiro dos tempos atuais, uma personalidade mítica, um teórico, ideólogo e arquiteto da problemática e do desenvolvimento brasileiros e sul-americanos, coerente, austero, honesto, íntegro, gentil e atencioso (até o seu último suspiro), lido e ouvido com respeito e admiração em todo o país e em todo o mundo, sobretudo pelos jovens.


Não foi à toa nem por acaso que ele se viu eleito, recentemente, como O Economista do Século. Não foi à toa nem por acaso também que a Academia Brasileira de Letras, em 1977, o elegeu para o seu quadro de membros efetivos, na cadeira nº 11, sucedendo aos acadêmicos Darcy Ribeiro, Deolindo Couto, Adelmar Tavares, João Luís Alves, Eduardo Ramos, Pedro Lessa, ao fundador Lúcio de Mendonça e ao patrono Fagundes Varela. E o elegeu também para que ele convivesse fraternalmente conosco, na sua inesgotável riqueza de ser humano, vocacionado para o carinho e o companheirismo que a todos nós muito honrou e enriqueceu.


Há alguns dias, com sua morte, indolor e tranqüila, a cultura e a inteligência brasileiras, como disse o professor Cristóvam Buarque, ficaram bem menores e bem mais pobres.


 


Jornal do Brasil (Rio de Janeiro) 08/12/2004

Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), 07/12/2004