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Representação da heterogeneidade do mundo

 

Cronista e ficcionista reconhecido, o autor Gilberto Schwartsmann adentrou no ano de 2021 o território da poesia, e em dose dupla. Primeiro, com Divina rima (ilustrações de Zoravia Bettiol), uma criativa apresentação da Comédia de Dante Alighieri, vazada, como o texto-matriz, em tercetos rimados.

Mas se, no poema dantesco, Virgílio era o mestre a conduzir o florentino, neste Gabinete de curiosidades Gilberto caminha por conta própria, num discurso de ampla voltagem lírica, bastante diferenciado do caráter necessariamente 'pedagógico' da obra anterior.

Um 'gabinete de curiosidades' se faz pela reunião compartimentada de objetos tidos como exóticos ou raros, numa espécie de microrrepresentação da heterogeneidade do mundo. E que objetos, senão os poemas, têm a capacidade, no plano da linguagem, de se tornar seres imprevisíveis? Seres retirados dos lugares-comuns do discurso, e reagenciados de modo inédito no gabinete de palavras do poeta.

As 96 peças deste livro se exibem em cinco salas ou seções, que a princípio remetem aos mostruários dos antigos gabinetes, com suas lunetas, microscópios, chifres, globos terrestres e conchas, entre outros objetos. Mas não devemos acreditar rápido demais nos poetas, pois pouco ou quase nada disso será efetivamente ofertado ao curioso leitor. Os títulos das seções fornecem pistas escorregadias, em que se pode derrapar, caso se espere um compromisso de estrita referencialidade que elas não comportam. Trata-se de seções tematicamente híbridas, gerando - para valer-me de um título de João Cabral - um verdadeiro 'museu de tudo'.

Num misto de doçura e acidez, conforme registra a orelha do livro, desfila diante de nós um conjunto de celebrações e de contestações, onde cabem episódios da vida íntima, admirações literárias e musicais, armadas por vezes em jogos de espelhos, como exemplarmente ocorre em 'Hamlet', em que um pai lê a leitura que seu filho efetuou do clássico de Shakespeare, e o poeta lê a leitura de ambos.

Mais do que de 'coisas', a realidade é feita de palavras, delas se alimenta. Por vezes, palavras do não, da recusa, da intolerância - e eis-nos no território das anticelebrações do livro. Esse veio contestatório do autor se traduz, em geral, por textos de maior extensão e por versos igualmente longos, como se observa em 'Falso sorriso', 'Quando te fores daqui', 'Escravidão', 'Doar'. A veemência do discurso social, com seu imperativo de imediata comunicabilidade, não constitui, porém, o núcleo do volume, pois será em outras vertentes que Schwartsmann vai desenvolver sua carpintaria poética mais precisa e preciosa.

Referimo-nos aos textos líricos, filosóficos, metalinguísticos em que o poeta, na clave da concisão, alcança muito bons resultados. Leiam-se 'Martelo', 'Escrever', 'Qualquer coisa', 'Eu Clarice', 'História do homem', 'Carícias', o delicioso 'Na praia de Barros'; observem-se o tom lapidar de 'Filho' e o humor em torno de um vocábulo que se torna duplo, em 'Epifania'.

Se o poeta canta musas do passado, a do presente/futuro é Leonor, esta, sim, louvada na irrupção epifânica de 'Na Sistina'. Fonte múltipla, reaparece em três outros poemas, fazendo-se presente em três das cinco seções do livro, alvo de incessantes afirmações de afeto.

Igualmente felizes são algumas incursões no poema narrativo. 'O viaduto' se estabelece num padrão de alternância entre tercetos e quadras. 'Areias de Zanzibar' revela a consciência formal do poeta no manejo das rimas dos versos finais das estrofes de 1 a 7 do poema. 'Na rede' é pura ironia frente às (falsas) virtudes do virtual, derrotado pelas mesquinharias e miudezas do mundo real.

O poema-pórtico, que nomeia o livro, já declarava ser a poesia a habitante primeira e primordial daquele espaço: 'Em meu gabinete de curiosidades, / Guardo o 'Porquinho-da-Índia, A estrela da manhã'. Diversamente dos objetos circunscritos a escaninhos lógicos, no gabinete de Gilberto o poema escapa e se expande, mirando a inatingível estrela da manhã. Se é certo que a estrela não pode ser alcançada, é igualmente certo que nem por isso o poeta deixa de sonhar com o impossível.

Correio do Povo, 24/12/2021