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O colar de Heloisa

 

Encantamento em vida —é o que entendi de meu breve, mas intenso convívio com essa grande intelectual que me saudou na cerimônia de posse na ABL (Academia Brasileira de Letras).

Uma bela senhora, bela e brava colega Heloisa Teixeira, com palavras que abrem caminhos e animam as lutas por igualdade dos povos das bordas e periferias.

Machado quebradeiro —assim nomeou o espaço de intervenção das gentes de outras bandas da cidade do Rio de Janeiro, das quebradas em movimento por cidadania e vida. Gente que afetou essa pensadora do país Brasil. Coragem de inventar novos sentidos também no convívio entre desiguais, em que cabe o outro, um diferente de mim mesmo.

Assim, com certeza, carrega cosmogonias próprias e não se perde na passagem estreita do que chamamos finitude. Tem truque de imortalidade nas linhas que escreveu para nossa boa convivência entre mortais.

Helô, clamam seus irmãos e suas irmãs, manos e manas de décadas de convívio animado nas lutas políticas de emancipação, da cultura e democracia entre povos, assim me anima a convidar um pequeno colar de memórias feito por aqueles que me deram o passe de entrada na roda das vidas que se iluminaram com a movimentação dessa passista de todas as nossas escolas.

Vai junto nesta saudação Marco Altberg:

"Heloisa Teixeira, Helô é uma daquelas pessoas que parecem ter estado sempre ao nosso lado. No meu caso é real, desde a década de 1970, como uma irmã mais madura, doce e firme. Transferiu talento para seus filhos e para todos os mais jovens e nem tão jovens, que desfrutaram de sua inteligência e militância pela cultura e pelo novo, justo e popular dessas terras daqui. Tenho certeza que ela vai continuar bem perto, pairando sobre nós. Viva Helô!"

O jornalista Rogério Faria Tavares é mesmo quem faz a terceira voz:

"Há muito tempo admirava a atuação de Heloisa Teixeira na cena cultural brasileira. '26 Poetas Hoje' foi um marco na história da literatura brasileira. Lançado em 1976, foi uma janela para a produção poética de nomes hoje consagrados, como Antônio Carlos Secchin, Ana Cristina Cesar, Chico Alvim e Geraldo Carneiro.

Seus escritos sobre o feminismo e sobre o panorama cultural do Brasil durante a ditadura deveriam ser lidos por todo o mundo. Até nas salas de aula. Seu olhar para os povos periféricos, das 'quebradas', fez muita diferença. Ficou marcado como um gesto generoso, inclusivo e eficaz.

Heloisa tinha uma atitude sempre altiva diante da vida. E não conformada. Ousava. Arriscava. Sabia o significado da palavra coragem. Fez uma bela carreira acadêmica, chegou a professora emérita. Mas foi, acima de tudo, uma intelectual pública, que sabia da importância de interferir no debate das grandes questões de seu tempo.

Seu discurso de recepção a Ailton Krenak na ABL foi inesquecível, respeitando as trilhas que ele seguiu na vida e festejando a sua justa e merecida chegada à Casa de Machado de Assis, que também foi a Casa de Helô, ainda que por muito menos tempo do que gostaríamos.

Sempre me lembrarei dela como uma amiga entusiasmada pela experiência da existência, pelo poder e pela força da arte —sobretudo, para transformar a realidade e para melhorar as coisas. A partir de agora, temos, todos os que conviveram com ela e aprenderam a admirá-la, um compromisso de honrar e celebrar o seu legado. Heloisa Teixeira: sempre presente!"

Folha de São Paulo, 28/03/2025