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Luiz Inácio não veio ver Celso

 

No domingo passado, esperei pôr os olhos no presidente. Não de muito perto, como na primeira vez, porque soube que a segurança dele está mais rigorosa e, além de tudo, não acredito que nem ele nem eu fizéssemos essa questão toda de estar perto um do outro. Mas esperei que ele aparecesse, sim. Era o enterro de um grande homem, cuja vida, até mesmo na FEB, em que se alistou ainda estudante, foi dedicada ao país. Vivemos numa era onde o cinismo e a descrença parecem dominar a maneira pela qual se vê a realidade, mas nessa era Celso Furtado jamais ingressou. Tive a felicidade, embora escassamente desfrutada, de partilhar de sua companhia e lembro que, mesmo fisicamente debilitado, conservava vigoroso o espírito e seus olhos faiscavam, quando falava no que lhe movia o coração. O que lhe movia o coração era o amor, a quase obsessão, pelo Brasil e seu povo, em cujo futuro sempre acreditou com veemência e combatividade, munido da erudição e da clareza de raciocínio que o tornaram um pensador consagrado e reverenciado em todo o mundo. Na época em que minha geração despertava para os problemas nacionais, ele foi mestre e exemplo, e exemplo e mestre continuará pelo resto de minha existência.


Quando morre um homem como Celso, a sensação de orfandade é inevitável. Quem agora falará por tantos de nós, quem agora poderá defender-nos contra argumentos que não sabemos desmontar, quem exporá falácias e desmentirá raciocínios interesseiros, comprometidos com nosso atraso ou prejuízo, a quem recorreremos para nos ensinar e orientar? E, nestes tempos assustadores, quem nos incutirá esperança? Que eu conheça, o governo tem alguns programas, como o Bolsa Família, que não sei bem distinguir do Fome Zero, que não disseram a que vieram, a não ser para expor, mais uma vez, ineficiência e corrupção, e estão sendo abandonados até mesmo pelos amigos históricos do presidente. Mas projeto para o Brasil não vejo, não sei, não me contaram nem me mostraram. O projeto que todo mundo vê é a reeleição, continuar no poder, o duro fardo que tanto pesa, mas ninguém quer largar. Projetos, planos, idéias abrangentes quem teve e tinha era Celso. Mas ele só era levado em conta da boca para fora dos governantes, enquanto outros, que pensam como ele, são tidos como ultrapassados, são ignorados ou, quando demasiadamente incômodos, simplesmente defenestrados de onde quer que estejam repetindo verdades incômodas. E não se tratava de nenhum perigoso comunista, que quisesse subverter a ordem social e econômica e obrigar Bush a nos invadir para nos democratizar. Celso nunca foi comunista e dizia que nem conhecia direito o pensamento marxista. Queria, para resumir, o desenvolvimento do Brasil, acreditava nisso, morreu acreditando nisso.


Mas ele não precisa de apresentação ou elogio meu. Mesmo os que não acolhiam ou até repeliam suas idéias respeitavam e admiravam sua grandeza de alma e sua integridade, bem como o intelectual superior que sempre foi. No rol dos grandes brasileiros ele já está e ninguém o pôs lá: o lugar é seu, de direito, quem o levou até o alto foram seu trabalho, seu brilho e sua abnegação. Portanto, limito-me a ter saudade dele, a pensar se com ele não se foi realmente uma era, se ainda temos ou teremos homens de sua estatura, até mesmo se ainda haverá o Brasil que ele nunca teve a alegria de ver como gostaria - um país próspero e feliz, a mãe gentil a quem, quase imberbe, foi oferecer a vida por amor nos campos de guerra da Itália e continuou com essa devoção até partir, como é destino de todos nós.


Pois é, o presidente sabe disso. Sabe até bastante mais, talvez. Celso o ajudou e incentivou, acreditava nele - e ele chegou aonde chegou um pouco por causa da força do pensamento e da ação de gente como Celso. E um pouco também não só por causa de gente como Celso, mas por causa diretamente do próprio Celso, a quem chamou de “amigo”. Então todos esperavam, inclusive eu, o perenemente mal-informado, que o presidente viesse despedir-se do herói, ele, presidente, que falou tanto em como precisávamos de nossos heróis e não os cultuávamos. Esperavam igualmente que seu predecessor, o dr. Fernando Henrique, também viesse, pelas mesmas razões básicas.


Mas, mostrando de novo sua cada vez mais notável parecença, nenhum dos dois deu as caras. Soube que o presidente tinha compromissos e receava “tumultos”, mas não estou seguro, porque li isso nos jornais, todos suspeitos e conluiados contra ele, através de desleais, covardes e outras figuras deletérias, responsáveis pelo que de ruim nos cai sobre as cabeças. Li também insinuações de que temia vaias. Sim, estaria no Rio de Janeiro, não na ilha da fantasia zelosamente mantida em Brasília. É, na previsão de vaias, acho que ele tinha razão. Creio que seria vaiado, sim, como já foi, porque desconfio de que muitos cariocas têm vontade de vaiá-lo. Não ao PT - de que, também li, oh maledicentes, ele agora parece querer distância, já que se trata cada vez menos de sua tchurma - pois a prefeita de São Paulo não foi vaiada, nem o dr. Suplicy ou o dr. Mercadante, assim como vários outros que vieram ver Celso. Há de ser chato tomar vaia do povo, principalmente no caso dele. Deve esvaziar insuportavelmente o ego intoxicado pela adulação que enreda o poder numa teia de algodão de açúcar e, como este, agrada o paladar, mas é mau alimento.


Bem, o fato é que ele não veio. Recitaram-se palavras de pesar, decretou-se luto oficial, escreveram-se necrológios e a herança de Celso Furtado perdurará, ao contrário do poder e da glória do mundo. Nosso irmão Luiz Inácio não veio ver nosso irmão Celso. E, se as coisas funcionam mesmo como ensina a Bíblia, é bem possível que nunca mais veja.


 


O Globo (Rio de Janeiro) 28/11/2004

O Globo (Rio de Janeiro), 28/11/2004