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A grande dama do Sertão

 

Há 100 anos, no dia 17 de novembro de 1910, no antigo nº 86 da Rua Senador Pompeu, em Fortaleza, nascia Rachel de Queiroz. Descendia, pelo lado materno, da estirpe dos Alencar, parente, portanto, do ilustre autor de O Guarani, pelo lado paterno, dos Queiroz, família de raízes profundamente lançadas no Quixadá e Beberibe. Essa ancestralidade e o decisivo apoio de seus pais indiscutivelmente seriam, sem dúvida, os responsáveis pelo desabrochar de seu talento literário, ainda em tenra idade, e pelo imenso amor que nutria pelo Sertão nordestino ao longo de sua vida de escritora.

Falar de Rachel de Queiroz é falar de literatura, mas é impossível fazer qualquer referência à Grande Dama do Sertão sem mencionar sua paixão pela política. Talvez por isso, em suas crônicas, tenha se deixado arrastar pelo jornalismo, posto que sempre fez questão de se proclamar como jornalista, e não como ficcionista.

Faço aqui um parêntese para lembrar o que dizia Joaquim Nabuco no seu discurso de posse como secretário-geral da Academia Brasileira. Dizia Nabuco: “Nós não podemos matar no literato, no artista, o patriota, porque sem a pátria, sem a nação, não há escritor, e com ela há forçosamente o político”.

Admiradora de Churchill – “o homem que encheu o século”, como o qualifica em O caçador de tatu, e a quem considerava um profundo conhecedor da natureza humana –, dizia que o grande político é “o homem de ação, que sabe fazer valer as ideias inovadoras e consolidar valores culturais e melhorias sociais significativas para o seu povo”.

Antigetulista convicta, Rachel ingressou no Partido Comunista Brasileiro, o então PCB, em 1931, de onde saiu pouco tempo depois, por não permitir que a ideologia política interferisse em sua liberdade como escritora. Em 1932, havia escrito João Miguel e submetido o romance à aprovação da hierarquia partidária. Para tal, Rachel teria de mudar o destino de 30 personagens, fazendo o operário matar o coronel e a mocinha se prostituir, o que ela, terminantemente, recusou-se a fazer. Por isso, deixou o partido.

Embora fosse prima do presidente Castello Branco, com quem tinha ótimo relacionamento, e mantivesse contato com diversas personalidades políticas, entre as quais se incluem os presidentes José Sarney, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, o máximo a que se permitiu foi aceitar um cargo no Conselho Federal de Cultura, órgão que integrou desde sua fundação, nos idos de 1967, até sua extinção, em 1989. Participou também Rachel de Queiroz da 21ª Sessão da Assembleia Geral da ONU, em 1966, na condição de delegada do Brasil.

O presidente Jânio Quadros chegou a convidá-la para ser ministra da Educação, ao que respondeu: “Presidente, colaboro no que for preciso, mas sem cargo oficial. Não posso pôr em risco minha independência intelectual, nem nasci para viver em cortes palacianas”.

Se esses dois lados de Rachel de Queiroz – o literário e o político – são de tal forma fascinantes, a eles vem se somar o lado profundamente humano da autora de O Quinze, pedra basilar de sua literatura e de seu interesse pela política. Dizia Rachel de Queiroz: “Na realidade, o de que eu gosto é da vida e das pessoas com suas contradições, paixões e afetividades. A criatura humana me fascina muito, me fascina e também me comove. Quando escrevo, tenho o ser humano como objeto de minha narrativa. Eu tenho paixão é pelo ser humano”.

Foi a primeira mulher cearense a se candidatar ao Legislativo estadual, em 1934, herdando o pioneirismo de Bárbara de Alencar, sua quinta avó, primeira presa política do Brasil. Foi também a primeira mulher a receber o Prêmio Camões e a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras, antecipando-se à Academia Francesa, que somente quatro anos mais tarde, em 1981, escolheria Margarite Youcenar como a primeira mulher a integrar o seu panteão de imortais.

Possuía uma profunda ligação com a sua terra, sobretudo com a aridez de Quixadá, com a aridez das secas dos nordestinos que tanto conhecemos.

Costumava dizer que “ser nordestino é um privilégio que eu não específico para não fazer inveja aos que não gozam dessa felicidade”, com que aliás só posso concordar como pernambucano que sou.

Lutou Rachel de Queiroz com determinação, para que fosse criado o Parque Nacional dos Serrotes, do Quixadá, com o objetivo de proteger os inselbergs daquela região, onde popularmente são designados como serrotes.

Rachel fez da sua vida uma arte e transformou a arte em vida! Relembro, por isso, as palavras utilizadas por Adonias Filho no discurso com o qual recepcionou Rachel de Queiroz na Academia Brasileira de Letras: “O vosso lugar nesta casa, pois, não é apenas vosso. É também e, sobretudo, da literatura brasileira, porque ninguém a serviu melhor que vós, senhora Rachel de Queiroz, com talento e amor, respeito e dignidade”.

Jornal do Commercio (PE), 11/12/2010