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A Glória de "O Quinze"

 

Se viva fosse, a escritora Rachel de Queiroz, a primeira mulher a entrar para a Academia Brasileira de Letras, faria 97 anos em 17 de novembro. Nascida em Fortaleza, faleceu no Rio aos 93 anos de idade, em 4 de novembro de 2003.


Tive o privilégio de ser seu amigo, nos últimos 20 anos da sua vida, e a glória de ter sido por ela recebido, na posse, em 17 de setembro de 1984, quando passamos a conviver mais freqüentemente, na Casa de Machado de Assis. Foi uma figura humana de inigualáveis qualidades.


O romance inaugural de Rachel, “O Quinze”, foi escrito quando ela nem havia completado 20 anos de idade – e ainda presumia que poderia seguir a carreira do magistério. Formou-se em Humanidades, mas lecionou pouco menos de um ano. Mereceu desde logo o comentário de Gilberto Amado: “Numa garota de 20 anos, abrolha uma produção tão perfeita e tão pura que continua, sozinha, inigualada, tempos afora.”


Para o poeta Augusto Frederico Schmidt, ela escreveu o romance da seca de 1915 com imenso fervor: “Era a voz do Nordeste que se ouvia, dramática, pungente.” Logo se tornaria um nome nacional. Veio para o Rio de Janeiro, em 1939, quando encontrou o grande amor da sua vida, o médico Oyama de Macedo. Desenvolveu toda a sua obra tendo por base o princípio da liberdade humana, o que lhe valeu o galardão de uma das principais figuras da moderna literatura brasileira. “O Quinze” não foi só um livro sobre a seca. Ali puderam ser mais conhecidos aspectos da vida no interior cearense, sobretudo num dos períodos mais dramáticos vividos pelo estado. Pode-se recorrer mais uma vez a Augusto Frederico Schmidt: “O livro surpreende pela experiência, pelo repouso, pelo domínio da emoção e isto a tal ponto que estive inclinado a supor que D. Rachel de Queiroz fosse apenas um nome escondendo outro nome. Tudo o que se passa em “O Quinze”, dentro de um ambiente de absoluta realidade, tudo acontece com a mais perfeita naturalidade, que é mantida em todo o livro, sem nenhuma queda.”


Trechos selecionados podem elucidar melhor o espírito dessa obra notável. Vejamos alguns deles, com a sua marcante característica de fuga ao sentimentalismo: 1)Encostado a uma jurema seca, defronte ao juazeiro que a foice dos cabras ia pouco a pouco mutilando, Vicente dirigia a distribuição de rama verde ao gado. Reses magras, com grandes ossos agudos furando o couro das ancas...


2)Saída a última rês, Chico Bento bateu os paus na porteira e foi caminhando devagar, atrás do lento caminhar do gado, que marchava à toa, parando às vezes, e pondo no pasto seco os olhos tristes, como uma agudeza de desesperança.


3) Conceição passava agora quase o dia inteiro no Campo de Concentração, ajudando a tratar, vendo morrer às centenas as criancinhas lazarentas e trôpegas que as retirantes atiravam no chão, entre montes de trapos, como um lixo humano que aos poucos se integrava de todo no imundo ambiente onde jazia...


É a homenagem que se pode prestar à memória de Rachel de Queiroz.


Jornal do Commercio (RJ) 12/11/2007

Jornal do Commercio (RJ), 11/11/2007