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Deolindo Couto: médico e humanista

 

O homem de conhecimento sabe que o gênio solitário está fadado ao esquecimento e que, para perpetuá-lo, deve difundir o seu saber aos mais jovens, mantendo ao mesmo tempo acesa a chama da curiosidade permanente. Os jovens, ao buscar experiência, trazem consigo, na inquietude de sua mocidade, toda a beleza de um destino a cumprir. E é necessário disponibilidade para o companheirismo e para o trabalho em conjunto, como fatores estimulantes do verdadeiro espírito universitário, que se recicla nas indagações, dando aos mestres o privilégio da renovação nesse confronto diário.


Conheci um grande educador brasileiro, que foi o professor Deolindo Couto (1902-1992). Conheci-o durante uma recepção na antiga Embaixada da Espanha no Rio de Janeiro. Impressionaram-me sua elegância natural e sua postura austera, que, após alguns momentos de conversa, revelavam um fino senso de humor. Eu era então um jovem médico que estava retornando ao Rio, após intensa peregrinação pelos EUA e Europa, onde fora especializar-me em cirurgia plástica.


Através dos anos, pude acompanhar sua trajetória como pioneiro da neurologia brasileira, colocando-o ao lado de grandes vultos de médicos e cientistas, como Miguel Couto, Oswaldo Cruz e Carlos Chagas, que, por feliz coincidência do destino, viriam a ser todos eles, como nós dois, membros das Academias Brasileira de Letras e Nacional de Medicina.


Deolindo Couto gostava de ensinar. Era um professor enérgico e rigoroso, suavizando suas reprimendas com palavras de incentivo, amizade e carinho. Paraninfo em diversas turmas, seus discursos são lembrados até hoje pela precisão e beleza das palavras. De sua escola, saíram inúmeros professores titulares de neurologia em diversas universidades brasileiras. Em sua vida profissional, ele não se limitou às salas de aulas das universidades. Ampliou-as a hospitais, como o Pedro II e a Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, onde foi chefe do Serviço de Clínica Médica.


Nessa Santa Casa, trabalhamos juntos, lidando com pacientes de diferentes origens. Aprendemos que o ser humano é um só e que o sofrimento e a alegria são os mesmos, independentemente da classe social. Deolindo Couto foi um excelente médico e esteve sempre à frente de projetos que muito o engrandeceram e que levaram à criação do Instituto de Neurologia da UFRJ, que hoje tem o seu nome.


Organizou um serviço de reabilitação neurológica sob a supervisão de um médico especializado em fisiatria, uma especialidade ainda não reconhecida na época. Quando ocupou a presidência do Conselho Nacional de Educação, definiu as funções do médico fisiatra e do fisioterapeuta, o primeiro prescrevendo e o segundo executando o tratamento.


Fundou a Academia Brasileira de Neurologia, sendo em vida aclamado seu patrono. Escreveu aí um livro sobre O tremor parkinsoniano e a via piramidal. Elegeu-se para a cadeira nº 11 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Adelmar Tavares e sendo sucedido por Darcy Ribeiro e Celso Furtado. Seu trabalho na Academia Nacional de Medicina foi tão marcante que os seus confrades o elegeram sete vezes seguidas para presidi-la.


Ao ingressar nessa Academia, tive o privilégio de ser saudado por seu irmão e meu dileto amigo Bernardo Couto. Eram duas honras em um só momento, que concluí agradecendo: ''Puck, no Sonho de uma noite de verão, levou apenas 40 segundos para enlaçar a Terra. Muitos outros me foram necessários para trazer a esta Casa a mensagem do meu profundo reconhecimento e gratidão por me acolherem com tanta fidalguia''.


Victor Hugo plantou um carvalho em sua casa e disse: ''Daqui a cem anos, ele estará grande, o papa já não mais existirá e as guerras vão acabar''. O carvalho cresceu, o papa existe e as guerras continuam. Difícil é prever. O importante é viver. O futuro é a força do que vivemos no presente. Temos que dar importância a cada momento vivido.


Deolindo viveu o seu presente com qualidade, dignidade e abnegação, possuindo em plenitude o sentido humanístico de compreender a vida como um todo. Pertencia a uma geração que cultuava a fé na ciência e na concretização das idéias, aliando a racionalidade da medicina à sensibilidade da arte literária. Tinha o conhecimento da palavra, trabalhando-a com a paciência e a mestria de um artesão, em busca da perfeição.


Sua fluência verbal, sua erudição e sua riqueza vocabular contribuíam para a solidez cultural de seus discursos. Era um magnífico orador, cativando a platéia com o seu gestual envolvente e mantendo atentos todos os espectadores. Sua obra científica e literária reflete o apuro do estudioso incansável e a devoção pela elegância do estilo. A sua primeira e maior admiração foi Camilo Castelo Branco, que lhe inspirava a palavra exata e o texto conciso. A segunda foi Gonçalves Dias.


Perpetuou depois a veneração que sentia por Santiago Ramón Castejal e Egas Moniz, dois expoentes da neurologia e ambos detentores do Prêmio Nobel de Medicina, prestando-lhes uma homenagem especial no livro Dois sábios ibéricos. Deolindo era movido pela força da motivação, como pai de família, médico, professor, escritor, acadêmico e político.


Esse mergulho em sua vida, apesar de breve em face da grandeza de suas realizações, leva-nos a Stendhal, para quem o amor é uma fonte da qual só podemos beber o que depositamos. É este o caso do piauiense Deolindo Augusto de Nunes Couto, médico e humanista.


 


Jornal do Brasil (Rio de Janeiro) 03/11/2004

Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), 02/11/2004