Durante seus 64 anos de vida (1890-1954), Oswald de Andrade fez do mundo um circo, com ele no centro do picadeiro. No começo, foi um sucesso. Mas o mundo passou de ano e cansou-se de assistir ao mesmo show —frases de efeito, trocadilhos, insultos, brigas, reconciliações oportunistas e mais brigas. Nos dez anos anteriores à sua morte e nos primeiros dez que se seguiram, ninguém lhe deu bola. Em 1964, exumado pelos concretistas, Oswald foi entronizado como um gênio rebelde e incompreendido.
Ele mesmo disse certa vez que, no Brasil, ou se está no trono ou no patíbulo. Desde sua ressurreição, Oswald só conheceu o trono. Dezenas de livros celebram suas lendas, em maioria disseminadas por ele próprio 30 anos depois dos fatos e adotadas sem verificação. O patíbulo não está à vista, mas uma nova biografia, "Mau Selvagem", de Lira Neto, joga uma incômoda luz sobre o homem que se escondia por trás do artista.
Oswald não sai bem do livro. A obsessão por meninas com metade da sua idade —uma delas, com 12 anos—, seu desprezo depois de conquistá-las, doenças venéreas, abortos e uma morte em decorrência (a de Daisy, da famosa garçonnière) não devem contribuir para sua imagem hoje.
Pela narrativa de Lira (que não esconde sua admiração pelo autor), há muita coisa sem explicação em Oswald. Homofobia, racismo, rancores ciclópicos contra ex-companheiros, ingratidão (com Blaise Cendrars, de quem pegou a prosa telegráfica e o poema-piada) e um renitente copidesque de sua história sem apoio na realidade.
Nunca foi, por exemplo, um "homem sem profissão". Em todos os dias de sua vida, mais do que poeta ou escritor, foi um corretor imobiliário. Filho do talvez maior latifundiário urbano de São Paulo, viveu de vender os inesgotáveis terrenos e prédios que herdou em 1919, hipotecando-os, negociando com bancos, credores e agiotas e bajulando poderosos para sair de encrencas. Aliás, a leitura de seu "Diário Confessional" confirma isso. No fim, o antropófago devorou a si mesmo.