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Discurso de recepção

Discurso de recepção por Alberto Venancio Filho

Numa noite de março de 1978, em instituição cultural de relevo e mais antiga, o Instituto dos Advogados Brasileiros, tive o privilégio de vos receber e então examinar aspectos da obra do jurista e do cultor do direito.

Já então a vossa obra se estendia em matérias afins, a teoria política, a sociologia e as relações internacionais. O vosso interesse era atraído, especialmente, para o direito internacional público, que seria de serventia na futura atuação internacional como Embaixador do Brasil e Ministro das Relações Exteriores.

Cabe mencionar dessa fase o texto de vossa autoria “Ordem, Poder e Consenso, Caminhos do Direito Internacional”, incluído no volume “As Tendências Atuais do Direito Público” em 1975, que tive a honra de organizar com o saudoso Professor Celso de Albuquerque Mello, em homenagem ao grande acadêmico e meu preclaro Mestre Afonso Arinos de Mello Franco, no qual colaboraram os acadêmicos Cândido Mota Filho e Hermes Lima e os futuros acadêmicos Evaristo de Moraes Filho e Pontes de Miranda.

Ao vos saudar naquela cerimônia já se estabelecera amizade iniciada doze anos antes no prédio da Fundação Getúlio Vargas na Praia de Botafogo. Dirigia eu o Centro de Estudos e Pesquisas no Ensino do Direito (CEPED), iniciativa pioneira e inovadora da metodologia do ensino do direito e cuja repercussão se projetou por outros estados.

Recebíamos a visita de jovens professores de direito da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, que pretendiam iniciar trabalho semelhante. Foram dois dias de intenso proveito intelectual e do grupo impressionou-me pela inteligência e pela cultura, o mais moço, Celso Lafer, e daí surgiram daí laços de sólida amizade.

Quando mais tarde em 1973 fui para São Paulo realizar pesquisas nos arquivos e na biblioteca da Faculdade de Direito, com vistas à preparação do livro “Das Arcadas ao Bacharelismo”, socorri-me de vossos préstimos. Recordo-me do almoço que me oferecestes no Automóvel Clube, presentes alguns de vossos amigos, figuras expressivas da intelectualidade paulista: Alcides Jorge Costa, Fábio Konder Comparato, Antônio Angarita Silva, José Gregori, Tércio Sampaio Ferraz, e o mais atuante de todos, o vosso pai Dr. A. Jacob Lafer, figura importante na vossa formação, que impressionava pela forte personalidade e com quem aprendestes que “pensar é pensar em profundidade”, e que com sua mãe D. Betty, grande incentivadora de vossos trabalhos, recentemente falecida, constituía um casal harmonioso.

Assim, ao cabo de quarenta anos de convívio, aliado à amizade e admiração, tenho a satisfação de vos receber na Academia.

Ao ingressar na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, a vossa precocidade se revelou logo. Em aula de direito os alunos se agitavam entre pendências ideológicas e nomes como Celso Furtado suscitavam discussões. Pedistes a palavra, e com precisão e conhecimento, para surpresa do mestre e dos colegas, fizestes uma apreciação pertinente e crítica da obra de Celso Furtado. Revelastes já o traço marcante de vossa personalidade, o exercício da capacidade de julgar e a faculdade de ver os fatos na exata perspectiva.

Na escola do Largo de São Francisco, dois mestres vos influenciaram fortemente, um no início do curso, outro ao seu término. Em primeiro lugar, Gofredo Telles Júnior, espírito aberto a todas as tendências e a quem a Academia concedeu o Prêmio Senador José Ermírio de Moraes pelo livro “A Folha Dobrada”; outro, ao final do curso, detentor da cadeira que hoje ocupais na Faculdade e vindes a ocupar nesta Casa, a cadeira do nosso saudoso confrade Miguel Reale.

Outra influência marcante foi Horácio Lafer, que chamais carinhosamente de tio, primo irmão de vosso pai. Com a singularidade de ambos terem ocupado a pasta das Relações Exteriores, desde menino convivestes com ele, que acompanhava vossos estudos e prestigiou vossas iniciativas em longas conversas sobre filosofia, livros e vida política.

Iniciastes ao mesmo tempo com o curso de direito, os estudos de teoria literária com o Professor Antônio Cândido, cuja presença permanente entre nós tanto nos alegrará, que se tornou seu grande amigo, mestre e conselheiro até os dias de hoje. O entusiasmo pelos estudos foi grande, leitura até altas horas da noite, desinteresse por outras atividades, que levou os pais preocupados a consultar o professor, que comentou:

“Na minha atividade de professor tenho sido solicitado por pais empenhados em que os filhos estudem mais. Pela primeira vez me pedem que o aluno estude menos.

Ainda estudante universitário, redigistes dois trabalhos de crítica literária, “O Judeu em Gil Vicente” e “O Problema dos Valores nos Lusíadas”. No primeiro, ao estudar a figura do judeu como personagem, confirmava o relacionamento com os judeus e a sociedade em período da história e tal como aparece no contexto imaginário da obra de Gil Vicente. A época em que Gil Vicente viveu foi a transição entre a Idade Média e o Renascimento e Gil Vicente comportou-se como um autêntico espírito medieval. Analisastes os autos em que a figura do judeu está mais retratada: “Auto da Barba do Inferno”, “Inês Pereira”, “Juiz da Beira” e “Auto da Lusitânia”, examinando em cada um deles os vários comportamentos do personagem. Afinal, a obra de Gil Vicente, segundo vosso exame, se comprova que o judaísmo peninsular caracterizou-se diferente de outras partes do mundo e como a literatura expressa essa situação.

O estudo “O Problema dos Valores nos Lusíadas” (subsídios para o estudo da cultura portuguesa no século XVI) já revela pelo subtítulo a extensão do tema. Considera em primeiro lugar que dentre as manifestações artísticas do Renascimento a que melhor captou esta complexa realidade foi a literatura e dentre os gêneros literários a épica; e como característica dos fundamentos dessa realidade a burguesia comercial na ordem sócio-econômica, a razão de estado na ordem política e o empirismo na ordem cultural, Portugal realizou a expansão ultramarina e as grandes navegações foram uma grande empresa racional quanto aos seus meios e racional quanto aos seus fins. Mostrastes como a experiência, fundamento das grandes navegações foi a tônica dominante nos Lusíadas.

Aduzistes neste trabalho uma comparação entre Camões e Maquiavel, ambos desejando a alteração das situações nacionais. Maquiavel pretendeu auxiliar o Príncipe a atingir o bem comum e Camões cantou os feitos da grande empresa portuguesa, visando através do exemplo acordar o povo.

Mostrastes que Camões propôs cantar os grandes feitos portugueses, mas partindo de uma visão indutiva e não de um sistema de valores absolutos. Os valores são relativos e só podem ser referidos à História.

Ao comentar o trabalho sobre Gil Vicente, Mestre Antônio Cândido, diria:

“Poucas vezes um estudioso tão jovem terá começado tão bem a sua produção quanto Celso Lafer com esta monografia sobre o judeu na obra de Gil Vicente. Um gosto acentuado pela investigação; a inteligência atilada para penetrar nos textos; certa ousadia no manipular os dados; a extrema vivacidade da exposição. Eis alguns traços que desde logo predispõem o leitor favoravelmente e que ocorrem em todo o desenvolvimento do trabalho”.

Agora uma nota pessoal, quem me chamou a atenção para o estudo sobre os Valores há muitos anos, destacando-lhe os méritos, foi meu saudoso amigo e o futuro confrade Celso Cunha.
Ao terminar o curso nas Arcadas do Largo de São Francisco, vários caminhos se vos abriram: na advocacia, com Rubens Gomes de Souza e Alcides Jorge Costa; nas atividades empresariais em empreendimentos familiares e nas Indústrias Klabin; na crítica literária, com a vocação revelada nos dois ensaios. Mas o caminho trilhado, atraído pelos desafios da teoria política, foi a realização do curso de pós-graduação em ciência política na Universidade de Cornell e ali vossas inquietações intelectuais encontrariam diálogo em figuras da mais alta expressão intelectual, Otávio Paz e, especialmente, Hannah Arendt.

Foi com interesse e curiosidade que matriculastes no curso que Hannah Arendt iria ministrar como professor visitante no semestre acadêmico do ano de 1965.

A personalidade de Hannah Arendt desde logo impressionava. Uma indumentária discreta, mas elegante, com aparência forte, mas feminina de uma senhora madura, uma presença pessoal e rigorosa e uma frase, cujo sotaque revelava em inglês a presença latente do alemão.

As propostas oferecidas dos cursos eram fascinantes, e, finalmente, foram escolhidos dois cursos contemporâneos, “Experiências políticas do século XX” e “O Regime Totalitário”.

Hannah Arendt permitia e incentivava o contato e o diálogo, também fora de aula, e com ela discutistes vários temas como a relação entre a arte, a política e a filosofia política.

Numa tarde de inverno, não se furtou ela em ponderar com tato, mas com firmeza que o tamanho da vossa barba crescera em demasia, e não contribuía para a estética, o que levastes a apará-la imediatamente, na convicção antecipada de que a aparência coincide com o ser, como mencionou em um dos seus livros.

A tese de doutoramento “JK e o Programa de Metas”, aprovada pelo Departamento de Governo daquela universidade em 1970, mas só publicada em português em 2002, examinava o sistema político brasileiro e o processo de estruturação do planejamento econômico, a partir da análise do Programa de Metas do Presidente Kubitschek. Na apresentação do Programa de Metas e das soluções utilizadas, chamou vossa atenção o uso criativo pelo governo Kubitschek da chamada administração paralela – integrada por órgãos tais como o BNDE, a CACEX, a SUMOC e os Grupos Executivos que conseguia controlar a execução do Programa de Metas, afastando a inércia da máquina administrativa tradicional.

Voltastes à teoria política em 1975 com o livro “Sistema Político Brasileiro”, análise teórica do problema e estudo da realidade política brasileira, com críticas severas ao regime militar e que mereceu de nosso saudoso confrade Raymundo Faoro a expressão de tratar-se de um livro de coragem.

De retorno ao país, a vocação do ensino logo se revelou ao ingressar no magistério de direito internacional público da Faculdade de Direito de São Paulo. Tivestes o interesse voltado para tema novo, o direito internacional econômico, do qual nos aproximamos pelo estudo afim do direito público econômico.

Dizia o nosso confrade Afonso Pena Júnior, ilustre jurista e autor da grande obra de crítica de atribuição, “A Arte de Furtar e seu autor”, que “a literatura jurídica brasileira era basicamente dedicada ao óbvio”. Os autores examinam a lei e comentam literalmente artigo por artigo, sem atentar para os problemas que os dispositivos legais apresentam.

Ao contrário, escolhestes um caminho pioneiro ao apresentar tese sobre “Da Reciprocidade no Direito Internacional Econômico – O Convênio do Café de 1976”, o direito internacional econômico um ramo novo do direito internacional. Do Convênio de Taubaté de 1976 no plano interno aos vários convênios internacionais uma gama de problemas surgiu. O Convênio de 1976 mereceu uma análise profunda, em estudo extremamente original.

Tive a feliz oportunidade de assistir à vossa defesa de tese, em que o candidato se portou com grande competência, merecendo a nota máxima. Registro que na banca examinadora se encontrava renomado professor, jurista ilustre, mas adepto de uma concepção conservadora do direito internacional, e em argumentação cerrada quis demonstrar que a tese não era de direito. O candidato, com calma e tranquilidade, contestou de forma cabal esta afirmação, que não se coadunava com as novas tendências que o direito internacional apresentava.

O livro resultante da tese para a cadeira de professor titular, tem o título “A Reconstrução dos Direitos Humanos (diálogo com o pensamento de Hannah Arendt), e dedicado “a Miguel Reale, a Gofredo Teles Júnior e a Vicente Marota Rangel, professores e amigos, patronos da minha carreira universitária na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo”.

Esta tese representava nítida evolução na carreira universitária e no vosso pensamento. A primeira sobre o sistema político, estudo monográfico de período chave para o entendimento da modernidade do Brasil.

A segunda tese, o estudo do Convênio Internacional do Café, representava o alargamento de escopo com passagem da ordem interna para a internacional, tendo como tema subjacente o destino do Brasil.

A terceira se situa num plano de maior abstração, uma passagem do mais específico para o mais genérico. Tendo como ponto de partida o pensamento de Hannah Arendt, a tese examina as condições e possibilidades da afirmação dos direitos humanos. Colocava-se, portanto, na interação da filosofia do direito com a teoria política.

Convém assinalar que, enquanto o mestre Antônio Cândido apresentou o prefácio do primeiro livro, agora assinava a orelha e mostrava como nesses vinte e cinco anos de pensamento, a linha mestra permanece a mesma. “Como jurista, ensaísta e pensador, uma das suas características tem sido o interesse por temas que lhe permitam ressaltar a dignidade do homem e a crítica aos fatores que envenenam as relações das sociedades”.

A vossa tese representa um diálogo com o pensamento de Hannah Arendt, mas apresenta originalidade de pensamento, ao destacar o tema dos direitos humanos.

Analisa o primeiro grupo de direitos considerado inicialmente os direitos individuais inatos, depois os direitos de segunda geração, os direitos de crédito, de feição social, e, afinal, os direitos da terceira geração, representado pela família, o povo, as coletividades.

Na apreciação dos direitos humanos considera a cidadania como o “direito a ter direitos”, pois sem ela não se constrói a igualdade que requer o acesso ao espaço público. Também aponta a repressão ao genocídio como um crime contra a humanidade, crime estruturalmente ligado à gestão totalitária e a ofensa a esses direitos. Nesta ótica, importância especial é dada ao direito de intimidade como parte integrante do direito da personalidade, tutela o direito do indivíduo de estar só.

De volta ao Brasil quisestes partilhar com amigos e professores o conhecimento de Hannah Arendt, e dispusestes a trabalhar seriamente na divulgação entre nós da sua obra.

Promovestes a publicação do livro “Entre o passado e o futuro” para o qual escrevestes o prefácio.

Ao receber o livro, ela escreveu:

“Tentei o melhor para tropeçar através de sua introdução, mas apesar disso só pude ler um pouco, com o auxílio do meu latim, o que não é suficiente para entender o texto. Mas tenho confiança e muito agradeço”.

Em 1973 seria publicado pela Editora Perspectiva “A Crise da República”, e em 1975 terminastes o prefácio para o volume “Anti-semitismo e instrumento de poder”.

Por ocasião da sua morte, escrevestes sob o calor da emoção para o Estado de São Paulo, necrológio sobre a trajetória de sua obra. Em 1978 para o livro “A vida do espírito” realizastes mais um estudo, todos reunidos no vosso volume “Hannah Arendt, pensamento, persuasão e poder”.

Outra grande influência que recebestes foi a de Norberto Bobbio, pensador italiano, que viveu na segunda metade do século XX.

Encontrastes com ele grande coincidência de pontos de vista, seja na visão da política, do direito e da filosofia, e considerastes que poucos estudaram tão bem o tema da democracia, quantos foram aptos na crítica ao socialismo, sem ser um anti-socialista, e poucos fizeram uma análise das insuficiências do marxismo, sem nenhum anti-marxismo.

Os trabalhos de filosofia do direito tinham um campo muito amplo, pois era o jurista que parou para pensar nos problemas jurídicos, e suas respostas precisas e rigorosas se tornaram fonte de referência fundamental para o mundo jurídico.

O estímulo intelectual que a obra de Bobbio, teve para vós, tanto no campo acadêmico quanto no posicionamento político, decorreu tanto na leitura de livro como nos diálogos que mantivestes em Turin, e depois no encontro em 1982 no Brasil. Tornastes um grande vulgarizador das suas obras e prefaciador de muitas delas no Brasil.

Nesse contexto, a recepção da obra de Bobbio para setores mais amplos da sociedade ocorreu também no Brasil. E pode ser acentuado pelo prestígio das várias reedições que tinham por base as carências teóricas da ciência política no Brasil e que essas obras tiveram a virtude de preencher.

Em 1982 em viagem ao Brasil, realizou-se um encontro em Brasília, com vossa participação, onde foram apresentadas várias contribuições sobre a obra de Bobbio. E por vosso intermédio veio dar conferências na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Tanto Hannah Arendt como Norberto Bobbio inspiraram vossos estudos dos direitos humanos.

A preocupação com os direitos humanos se acentuou com o término da 2a Guerra Mundial e teve marco significativo com a aprovação pela Assembléia Geral das Nações Unidas da Declaração Universal dos Direitos do Homem, relatada pelo jurista francês René Cassin e na qual teve atuação destacada o nosso confrade Austregésilo de Athayde.

Estabelecestes uma observação sobre os critérios de interpretação dos direitos humanos. Os direitos humanos são representativos de uma grande mudança, na concepção da organização da vida coletiva, pois, como assinalou Bobbio na passagem da perspectiva do dever do súdito para a perspectiva do cidadão. Por essa razão, sua interpretação deve partir da compreensão de que numa democracia, só os direitos humanos legitimam o sistema político. E  por esse motivo, a interpretação dos direitos humanos deve ter como critério favorecer sempre, em todo caso concreto, da melhor forma possível, o conteúdo do direito tutelado pela lei.

A vossa atuação na matéria não foi apenas teórica, mas de caráter prático, quando do julgamento pelo Supremo Tribunal Federal, de Habeas Corpus 82.424/RS, referente a um editor de Porto Alegre que se dedicava de forma sistemática a reeditar livros de nítido anti-semitismo. Por essa conduta foi condenado por crime de racismo e se discutia no caso se anti-semitismo constituiria crime de racismo.

O Supremo Tribunal Federal analisou amplamente a matéria. Inicialmente o voto relator – Ministro Moreira Alves foi de que os judeus não constituíam uma raça e não se podia qualificar o crime como de racismo. O voto vencedor do Ministro Maurício Corrêa, apontando que não se reconhece qualquer subdivisão de raça humana, mas que o racismo persiste como fenômeno social e em conseqüência houve no caso prática de racismo. Participastes do processo como “amicus curiae” e elaborastes parecer que teve ampla citação por vários Ministros.

O tema do liberalismo mereceu também a vossa atenção e nos vossos livros “Ensaios Liberais” e “Ensaios sobre a Liberdade” são expostos os grandes temas sobre a questão, concluindo que não se deve falar em liberalismo no singular mas liberalismos no plural, pela variedade de vertentes que apresenta.

O chamamento para o serviço público se deu em 1992, quando fostes convidado para exercer o Ministério das Relações Exteriores, gestão curta, devido o impedimento do Presidente Fernando Collor de Melo, mas, entre outras tarefas, presidistes com grande êxito a Conferência Eco-92.

Ministro das Relações Exteriores na ocasião, chegastes à conclusão, juntamente com os Ministros Célio Borja, Marcílio Moreira e Sérgio Rouanet, diante da crise institucional que os ministros, para o bem do país, deveriam se manter nos seus cargos, e tentar manter a governabilidade. O documento então elaborado permitiu uma transição fácil e harmônica quando do impedimento presidencial. Na pasta das relações exteriores que ocupavas a gestão da crise traduziu-se no esforço constante em sustentar a credibilidade internacional do país, o que ocorreu com êxito.

Em 1995 o Presidente Fernando Henrique Cardoso vos convidou para chefiar a Delegação do Brasil junto aos Organismos da ONU em Genebra. Vossa atuação foi relevante e no curto período de dois anos fostes eleito para a Presidência do Órgão de Solução de Controvérsias e para a Presidência do Conselho Geral. Sobre solução de Controvérsias proferistes conferência em 1996 na Gilberto Amado Memorial Lectures, homenagem anual que a Comissão de Direito Internacional da ONU presta ao nosso ilustre confrade. Nesta conferência examinastes a importância do papel de Gilberto Amado na Comissão, participante da criação da Comissão e da redação do seu estatuto e membro atuante até o falecimento.

Dessa experiência diplomática proveio o livro “A OMC e a regulamentação do comércio internacional – uma visão brasileira”. Juntamente com outros estudos tratastes do tema, apresentando etapas de um “parar para pensar” com o significado das novas vertentes da OMC.

Após um curto período como Ministro do Desenvolvimento, voltastes no Itamaraty num trabalho incessante da diplomacia itinerante. Os dois volumes “Mudam-se os Tempos” espelham esta atividade. Entre os temas de sua atuação, assinale-se os esforços da consolidação do Mercosul, uma atuação ativa na questão do meio ambiente em decorrência do Protocolo de Kioto, e as questões decorrentes das conseqüências do atentado de 11 de setembro.

O vosso interesse pelos direitos humanos se exerceu também na gestão como Ministro das Relações Exteriores.

No empenho da aprovação da Convenção Interamericana sobre Direitos Humanos, envidastes todos os esforços, logrando depositar o instrumento de ratificação. Dissestes então: “Mesmo num período curto consegui levar este processo que estava amarrado”.

Na vossa vasta cultura tendes mantido fiel à formação religiosa, entendendo o judaísmo como uma tradição ética, pois a memória desta tradição, encarada como sentimento do passado, volta-se para o futuro, projetando valores morais. Examinando o judaísmo, desde a sua origem, através dos séculos, existe na trajetória judaica uma dialética fecunda entre o particularismo e a tribo e o alcance universal da mensagem. Posso ver em vossa atividade intelectual a junção desses dois elementos, fiel às suas origens religiosas, mas na perspectiva do mundo.

Ao assumir a cadeira de Filosofia do Direito da Universidade de São Paulo, encontrastes uma tradição de estudos iniciados desde a lei de 1827 com a cadeira de direito natural no primeiro ano. Nomeado catedrático Avelar Brotero, nascido em Portugal. Formou-se em Coimbra, era de temperamento difícil e se indispôs com os colegas e funcionários, falava em borbotões e suas falhas eram conhecidas como broteradas.

No final do século XIX um jovem de vinte e oito anos assumia esta mesma cadeira. Dele se disse que “deu logo a impressão de uma rajada de ar fresco e oxigenado a varrer as vetustas e sombrias salas do antigo convento. Pode-se dizer que com ele penetrou no adormecido recinto da Faculdade paulista o espírito do século, com tantas ânsias de aspirações humanas e suas largas visões de futuro”. Tratava-se de Pedro Lessa, que honrou aquela Faculdade, o Supremo Tribunal Federal e esta Casa.

Posteriormente, a cadeira foi ocupada pelo saudoso confrade Miguel Reale que a exerceu durante quarenta anos com o brilho de sua competência e cultura.

Com vosso ingresso nesta Casa, mantém-se a tradição da presença de um professor da Faculdade de Direito de São Paulo. Desde o grande Pedro Lessa, de Cândido Mota Filho e Miguel Reale, cujo perfil primoroso acabastes de traçar. Avulta também a figura de Alcântara Machado, o primeiro bacharel em direito professor de medicina legal, que, fiel às suas origens, pronunciou aqui um expressivo texto: 

“Paulista sou, há quatrocentos anos. Prendem-me no chão de Piratininga todas as fibras do coração, todos os imperativos raciais. A mesa em que trabalho, a tribuna que ocupo nas escolas, nos tribunais, nas assembléias políticas deitam raízes, como o leito de Ulisses, nas camadas mais profundas do solo, em que dormem para sempre os mortos de que venho. A fala provinciana, que me embalou no berço, descansada e cantada, espero ouvi-la ao despedir-se do mundo, nas orações da agonia. Só em minha terra, de minha terra, para minha terra, tenho vivido; e, incapaz de servi-la quanto devo, prezo-me de amá-la quanto posso”.

É preciso salientar que o paulistanismo não se adquire apenas pela hereditariedade, mas também pelos esforços de mobilidade social que trouxeram a esta Casa, entre outros, Afonso Taunay, Menotti Del Picchia, Alfredo Bosi, Cícero Sandroni, José Mindlin e aos quais vos juntais.

Concorrestes à sucessão de vosso fraternal amigo José Guilherme Merquior em 1991, mas a eleição não teve vitorioso. Depois desse interregno, inscrevestes agora na vaga da cadeira número 14, ocupada pelo nosso saudoso confrade e vosso mestre e colega Miguel Reale. A disputa se avizinhava renhida, mas os competidores perceberam a tendência da Casa e se retiraram elegantemente para propiciar a unanimidade, que a atitude de dois acadêmicos desinteressados e omissos não conseguiu deslustrar.

Sr. Celso Lafer:

A sucessão nesta Casa não exerce sempre com uma coerência intelectual. A sucessão da cadeira 14, entretanto, corresponde a uma exceção. A partir do fundador Clóvis Beviláqua esta característica esteve sempre presente, podendo chamá-la a cadeira do pensamento social. Clóvis Beviláqua, grande jurista, autor do projeto do Código Civil, cujos comentários se constituíram a glosa do Código, oriundo da escola do Recife, destacou-se também na filosofia, na sociologia e no pensamento social, e com uma coerência de  vida pessoal inatacável. Destaco que participou pouco das atividades da Casa, e em 1920 se afastou em definitivo, em episódio de recusa de inscrição numa vaga de sua mulher.

Ocupando a cadeira por quase cinqüenta anos, foi sucedido por Antônio Carneiro Leão, professor pernambucano, reformador da educação em seu estado, professor de sociologia e educação comparada, com grande prestígio nas universidades européias e americanas, e autor de numerosas obras sobre o pensamento social.

A. Carneiro Leão sucedeu Fernando de Azevedo, ilustre professor da Universidade de São Paulo e notável humanista. Tivemos ambos o privilégio de conviver com este grande mestre da sociologia e da educação. Autor do Estatuto da Universidade de São atuação no setor público. Mas independente destes títulos honrosos, queremos vos receber como o perfeito sucessor de Miguel Reale.Paulo e um dos seus fundadores, durante anos exerceu o primado na Faculdade de Filosofia, Ciência e Letras. Foi o redator do Manifesto dos Pioneiros da educação nova de 1932 e em permanente luta pela renovação da educação no país. E a ele veio suceder o saudoso acadêmico Miguel Reale.

Registra a crônica que D. João VI costumava freqüentar as peças de teatro, e tinha o hábito de dormitar. Ao acordar, indagava: “Os noivos já se casaram?” Na solenidade de hoje, não há casamentos, mas é prudente concluir:

Sr. Celso Lafer:

Chegastes a esta Casa credenciado por uma brilhante carreira no magistério, no direito, na filosofia e com significativa atuação no setor público. Mas independente destes títulos honrosos, queremos vos receber como o perfeito sucessor de Miguel Reale.