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Discurso de posse

Excelentíssima senhora Presidente da Academia Brasileira de Letras, Acadêmica Ana Maria Machado,

Excelentíssima senhora Ministra da Cultura, doutora Marta Suplicy,

Excelentíssima senhora Ministra do Meio Ambiente, doutora Izabella Teixeira,

Excelentíssima senhora Ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência da República, doutora Eleonora Menicucci,

Excelentíssimos senhor Prefeito da cidade do Rio de Janeiro, doutor Eduardo Paes,

Excelentíssimo senhor Secretário Geral da Academia Brasileira de Letras, Acadêmico Geraldo Holanda Cavalcanti,

Excelentíssimo senhor Acadêmico Eduardo Portella,

Excelentissimas senhoras acadêmicas, excelentíssimos senhores acadêmicos,

Minhas senhoras e meus senhores,

Hoje é um dia luminoso em minha vida. Ser acolhida na Academia Brasileira de Letras é, para uma escritora, mais do que uma intensa emoção, mais do que uma honra, um cálido sentimento de pertencimento a uma linhagem de criadores em língua portuguesa, mulheres e homens que vem há mais de um século, com seu imaginário, arte e cultura, ciência e gestos fundadores, mantendo vivo o fio civilizatório que nos preserva da corrosão do eterno presente.

Essa é uma casa em que passado e futuro convivem, memória e projeto, como convém aos que se sabem mortais, vítimas inescapáveis de um corpo perecível, nosso melhor companheiro, esse monstro dissimulado que, como adverte Marguerite Yourcenar, com certeza um dia nos trairá. Apesar disso somos servidores fiéis da imortalidade que a obra confere à fragilidade do destino humano, inscrevendo-nos na já tão longa e admirável trajetória "desse bicho da terra tão pequeno".

Saibam, senhoras e senhores acadêmicos, que sou-lhes infinitamente grata por me permitirem associar-me a tão nobre missão. Nas palavras inesquecíveis de Machado de Assis, à “glória que fica, eleva, honra e consola”.

Meu antecessor na cadeira 10, o poeta Lêdo Ivo, em seu discurso de posse, lembrando Rui Barbosa, disse ser ela a cadeira dos exilados. Seus ocupantes foram homens que provaram da diversidade - e alguns da adversidade - inerente à vida longe da pátria, construíram-se e enriqueceram suas almas no confronto de outras culturas para melhor amar e dedicar-se à civilização brasileira.

Inscrevo-me assim nessa estirpe que me é bem conhecida, a dos que estreitaram seus laços com a pátria e a língua portuguesa pelo avesso da ausência e da privação.

Todo exilado tem com o passado uma relação peculiar. Sabe que é nele que seu futuro um dia virá se prender, como o elo quebrado de uma corrente brutalmente interrompida. A condição de exilado é um estar no mundo precário, é ser definido pelo passado e ter no passado o sentido do futuro.

No inventário de suas múltiplas perdas a língua materna é para o escritor exilado a mais inconsolável, vivida como irreparável como seria para o pintor a súbita e inexplicável paralisia das mãos.

Senhoras e senhores acadêmicos, sou grata à generosidade com que me abrigam nessa casa, templo da língua portuguesa, à qual chego com a mesma alegria com que um dia, de volta do exílio, pisei o chão de terra da casa paterna. Aqui estou pronta ao convívio dos meus, os criadores em língua portuguesa.

* * * * *

Não desconheço as responsabilidades que são a contrapartida de tão grande honraria. Ocuparei a cadeira fundada por Rui Barbosa e que tem como patrono Evaristo da Veiga.

Terá sido com Evaristo da Veiga que primeiro aprendi que os brasileiros eram uma brava gente e que a liberdade já raiara no nosso horizonte. Não sabia a que ponto as palavras do Hino da Independência, cantadas com ardor na escola pública da minha infância, calariam na jovem e na mulher que eu viria a ser.

‘Longe vá temor servil’ terá sido uma divisa que, associada à ânsia de liberdade, me inspiraria por toda vida.

Evaristo da Veiga é um jovem de 23 anos quando o Brasil se torna uma nação independente. Em 1827 ingressa no recém-fundado jornal Aurora Fluminense de que logo se torna proprietário. Deputado por Minas Gerais, jornalista combativo, essa será sua verdadeira tribuna para defender os princípios liberais. 

No número 42 desse jornal, com penetrante capacidade de antecipação, defende ideias que são até hoje caras àdemocracia. Elogia as liberdades constitucionais como fermento da jovem nação e reconhece, como seu garante, “o poder invisível da opinião”. 

Jornalista, político, livreiro, tradutor, Evaristo da Veiga falece aos 38 anos, no Rio de Janeiro, sua terra natal, deixando às gerações futuras um sábio conselho e uma missão:

Não temais ímpias falanges 
Que apresentam face hostil
Vossos peitos, vossos braços
São muralhas do Brasil.

Brava gente Brasileira...

* * * * *

Conselho e missão, que hão de ter calado fundo em Rui Barbosa, que o escolheu como patrono da cadeira 10 e cuja vida pautou-se pela confiança na capacidade do povo brasileiro de constituir-se como uma grande nação.

De Rui é Bolivar Lamounier quem traça retrato conciso e definitivo. "Suas diferentes facetas de advogado, jurista, político, jornalista e orador parlamentar se interligam e compõem um denso e articulado discurso, cujo objeto é a formação da esfera pública e a construção institucional da democracia no Brasil".

 A lei e a liberdade são os compromissos inarredáveis desse brasileiro, primeiro de uma linhagem ilustre do que chamaríamos, hoje, um intelectual público, em quem pensamento e ação, emoção e razão, vida e obra convergem e se retroalimentam na devoção a uma causa.

Principal expressão da cultura jurídica brasileira, construtor de instituições, defensor de um liberalismo democrático nos albores da República Velha ainda profundamente marcada pela abominável escravidão, Rui Barbosa, em seu empenho de modernizar estruturas arcaicas, em vida e postumamente encontrou fortíssimas resistências.

Foi acusado de "moralista, idealista utópico e reacionário" por não poucos arautos da transformação social que, desdenhosos da democracia, consideravam-na “uma ideia fora do lugar”, abstração jurídica em um universo concreto de miséria.

É de Santiago Dantas, outro eminente intelectual público, a definição de Rui como "o estadista do progresso", símbolo de uma classe emergente. “Foi no correr da campanha civilista que Rui Barbosa se tornou o herói popular legendário, cujo culto continua vivo no país. Tudo na sua figura, no seu pensamento, no seu destino, dele faz o herói dessa burguesia nascente, que encheu o vazio interno da sociedade de senhores e escravos, e que ainda hoje não completou sua longa, difusa, mas constante ascensão”.

Em sua memorável conferência de 1919 sobre a questão social, Rui, crítico acerbo do poder militar, proclama: “Às majestades da força nunca me inclinei. Mas sirvo as do direito. Sirvo ao merecimento. Sirvo à razão. Sirvo à lei. Sirvo à minha pátria.”

Nesse mesmo admirável texto, celebra a mudança pela qual passa a concepção individualista dos direitos humanos, matizada por uma extensão cada vez maior dos direitos sociais, introduzindo em filigrana o conceito de cidadania.

A ação diplomática de Rui Barbosa, defensor em Haia da democratização do espaço internacional, volta à cena no tempo presente quando a globalização coloca o desafio da construção de uma governança democrática que realize a promessa e esperança do século XXI de fazer do planeta uma Terra Pátria.

Que instituições garantirão a paz e o futuro dessa Terra Pátria, acolhendo as diversidades de que é feito o humano, assim como de diversidades é feito o Brasil e são elas que o fazem mais rico e exemplar.

Quisera estivesse conosco hoje Rui Barbosa para, inspirado na experiência brasileira e revivendo o espírito de Haia, defender na difícil e necessária convivência entre os povos o direito de todos à dignidade, ao seu lugar e sua voz. 

A Academia Brasileira de Letras, que ele presidiu por oito anos, preserva como um tesouro a memória de grandes homens porque sabe que o que os faz grandes é a mensagem que não se esvai no tempo, inspira o presente e ecoa no futuro, tecendo o fio civilizatório a que me referi.

* * * * *

Laudelino Freire, professor, político, jornalista e filólogo, conhecia melhor do que ninguém a estatura de grande mestre do vernáculo que foi a de Rui Barbosa. Assumiu o risco e honrou o privilégio de sucedê-lo na cadeira 10 deixando-nos um dicionário de grande valia, que leva seu nome.

Seu espirito empreendedor levou-o a fundar, em 1918, a Revista da Língua Portuguesa cujos 28 volumes são, ainda hoje, inestimável fonte para os estudiosos de nossa língua.

Em Osvaldo Orico, seu sucessor, paraense nascido na virada do século, o intelectual polivalente concorria com o diplomata. Homem do mundo, representou o Brasil em três continentes, sem renunciar à vocação literária que expandiu-se em gêneros tão diversos quanto poesia, conto, romance, ensaio e biografia.

Na juventude, foi leitor voraz de Rui Barbosa e cultor da literatura de José de Alencar, de quem seria, mais tarde, biógrafo. Debruçou-se também sobre as trajetórias de Evaristo da Veiga e José do Patrocínio, a quem dedicou uma de suas obras mais inspiradas, “O Tigre da Abolição”.

Nessa noite em que a Academia Brasileira de Letras vive um fato inaugural em sua história - pela primeira vez uma mulher, a presidente Ana Maria Machado, dá posse a outra mulher - reverencio a memória de Osvaldo Orico, persistente defensor da abertura dessa Academia às mulheres.

Orígenes Lessa, sucessor de Orico, é lembrado por Ledo Ivo em artigo publicado na Revista Brasileira, como “um homem meigo, amigo das pessoas e das árvores, que encarnava o que o convívio cultural oferece de mais claro e salubre”. E eu acrescento, amigo das crianças, que enfeitiçou com textos adoráveis como a História de um cabo de vassoura. Orígenes Lessa sabia que, ao entrar na vida, o mundo se apresenta tão insólito que qualquer versão é plausível, bastando crer para ver.

Dono de uma escrita multifacetada, os romances O Feijão e o Sonho e O Evangelho de Lázaro, entre outros títulos, são um precioso legado à literatura brasileira. É ainda Lêdo Ivo – que o sucederia na cadeira 10 - que, em seu discurso de posse, relembra com ternura esse que foi um mestre da literatura infantil: "Em seu caminho de homem e escritor, guiava-o aquela luz mais alta que estabelece a hierarquia oculta dos homens e confere uma primazia incontestável aos que sabem guardar em seus espíritos uma perpétua infância e se sentem rodeados de vozes longínquas".

* * * * *

Quem conviveu com Lêdo Ivo - e é, para mim, senhoras e senhores acadêmicos, uma honra sucedê-lo nesta cadeira - sabe que também ele guardava em si a capacidade de maravilhar-se, uma perpétua infância. A infância cobrou de sua poesia o tributo aos anos fundadores de uma vida longa e riquíssima em experiências que iriam se transmudar na impressionante obra poética que Lêdo Ivo nos legou.

As vozes longínquas que atribuiu a Orígenes Lessa também o envolviam com seus murmúrios, ditando a magia da linguagem. Era assim que Lêdo definia a poesia, “magia da linguagem inventada pelos homens”.

Sua poesia nutria-se da vida oculta e nebulosa da memória, onde recriava e revivia os mangues, as praias, os morcegos, os apodrecidos ancoradouros das Alagoas. Nascido em Maceió em 1924, sua obra será, por toda vida, um retorno a essas terras alagadas, a esses encontros com o mar, às praias onde conheceu o amor e a alegria que, em seus versos, ocupariam um ponto de ouro.

Em suas "Confissões de um Poeta" Lêdo nos conta: “À noite, antes de dormir, eu arquitetava minhas histórias. Das sobras do dia gasto, dos retalhos refugiados pelo varejo dos instantes, eu ia extraindo os fios de que carecia para tecer o meu tapete ilusório. E dirigia vidas e destinos, dava à realidade banal um colorido faustoso, sentia-me o senhor absoluto de um império íntimo, até que o sono vinha e, com a sua borracha invisível, apagava os borrões canhestros e ambiciosos da criação, e me fazia de novo participante de outro mundo caprichoso e ilógico. Foi assim toda a minha meninice, tem sido assim toda a minha vida: uma luta perpétua entre a terra da realidade e o mar do sonho, um litígio incessante entre razão e imaginação. E ambos esses elementos avançam um contra o outro, conquistando praias provisórias.”

Esse caleidoscópio de personagens que foi Lêdo Ivo - ou Teseu do Carmo, seu alter ego - fez existir em sua obra uma gama de gêneros e de estilos literários que deixaram para trás o poeta da geração de 45, ainda que a tenha, de certa forma, fundado. A exuberância de seus recursos poéticos derrubou os confinamentos das regras estilísticas.

No âmago de sua poesia, outro litígio incessante o acompanharia: o diálogo da vida pulsante na celebração dos sentidos, na intensa fruição da beleza do mundo, que desnudava com os finos movimentos de sua poesia e a presença da morte, seu lado sombrio.

Já em seu livro inaugural, Imaginações, suas primeiras visitas ao invisível, a morte irrompe noPoema em Memória de Éber Ivo, pranto pelo irmão morto ainda criança. Lêdo, mal saído da adolescência, escreve também a Valsa Fúnebre para Hermengarda, um de seus poemas preferidos - e quem me conta é seu filho, o pintor Gonçalo Ivo - o que atesta a que ponto a morte foi, desde tão cedo, sua incontornável companheira.

Bem mais tarde a morte voltaria ao seu convívio, recorrente, a exemplo do belo Soneto da Comparsaria.

Velha espiã da vida, a morte vem
para levar-me à doce travessia,
onde o aquém fica além e o além aquém,
e o tempo todo cabe num só dia
.”

Em seu segundo livro, Ode e Elegia, a Descoberta do Inefável, primeiro poema dedicado a Leda, sua companheira de toda a vida, Lêdo traça um esboço premonitório de toda sua existência, a busca incansável de, pelo trabalho da palavra, atingir o indizível.

Sem o sublime, que é o poeta? Sem o inefável,
como pode louvar, não traindo a si mesmo,
a plena e estranha juventude da moça a quem ama?

Em outro verso,

Temos necessidade de anjos para ser homens
Temos necessidade de anjos para ser poetas.

E em outro ainda,

Pois às vezes sinto que meu primeiro verso foi murmurado talvez
sem que eu soubesse por um anjo
preocupado com o meu ar desesperado de papel em branco.

Os anjos ainda estão lá, em sua poesia, quando o poeta já tem mais de oitenta anos e nos oferece o que reputo seu poema maior, Réquiem:

Somente a morte ensina que os anjos não existem
Tudo que perdi, perdi para sempre.

Réquiem foi recompensado com o prestigioso premio Casa de las Américas.

* * * * *

Senhoras e senhores acadêmicos, minhas senhoras e meus senhores, tenho pela poesia a reverência devida ao sagrado.

Tenho a  consciência humilde do que me falta para melhor restituir o poeta e Acadêmico Ledo Ivo nesta noite em que, pela graça encantatória da lembrança, sentimos a sua presença. 

Vem em meu socorro a sensibilidade do poeta e Acadêmico Ivan Junqueira que, companheiro de ofício, melhor do que ninguém transitou pelo universo polifônico que é a sua obra. No brilhante ensaio introdutório às obras completas de Lêdo, Ivan nos diz:

Há em sua poesia o testemunho literário de mais de meio século de experiência e de constante renovação estética e estilística. Há ainda a fidelidade de quem, à margem das gerações e dos movimentos literários, permaneceu idêntico a si próprio, pois a maneira de ser do poeta que escreveu Ode e Elegia é a mesma de quem, sessenta anos depois, nos perturba com os poemas inéditos de Plenilúnio”.

E Ivan conclui: “não se pode entender a opulência e a diversidade da poesia de Ledo Ivo se não levarmos em conta o homem vário, complexo e inquieto que se move sem cessar por detrás de cada um de seus versos”.

Ivan Junqueira bem pressentiu esse homem vário que, insaciável, aventurou-se em todos os gêneros, o romance, com Ninho de Cobras, o conto, a poesia, o ensaio e, até mesmo, a dramaturgia, com o poema Calabar.

Inquieto, sim, esse incansável viajante que, com as raízes bem plantadas nas Alagoas, ganhou primeiro o Brasil e depois o mundo, onde sua obra encontrou o eco e o aplauso de inumeráveis traduções e prêmios literários.

Peregrino dos templos da arte, palmilhou a terra com a voracidade de quem não renuncia a nenhum horizonte, recolhendo em cada cultura  um verso que irromperá mais tarde em seu texto, refazendo na cartografia de seu imaginário os caminhos que primeiro conhecera, deslumbrado, nas páginas dos livros amados, em Cervantes, em Tolstoi, em Dostoievski, seus mestres, suas devoções estéticas.

Artista consagrado, que viveu até o último alento confiante nas sensações que a vida ainda poderia oferecer-lhe, Lêdo Ivo dirá muito melhor do que eu sobre si mesmo nesse poema do livro Plenilúnio, intitulado significativamente Desejo, que fecha suas obras completas.

Não quero a eternidade
A trama interminável 
de uma roca que fia 
um dia pós um dia
na duração perpétua
Quero ser o que passa:
A leve nuvem branca
Que se desfaz no espaço
A fumaça de um jato
No céu vazio e claro
Não me agrada ou seduz
viver após viver.

Antes quero o relâmpago
Que rasga o céu sombrio
Uma folha de álamo
No chão de uma viagem
E a chuva momentânea
Que cai sobre as cidades

Prefiro um vôo de pássaro
 a tudo que é eterno.
A tudo que é durável
Prefiro o perecível.
A sombra fugidia
No dia luminoso
Dos narcisos e rosas;
Os instantes que regem,
Na noite indecorosa
O amor dos amantes
Seus gritos e gemidos;
A pétala fugaz
Ferida pelo outono.
Contenta-me o trajeto
entre uma porta aberta
e uma porta fechada
em plena madrugada
ou na manhã mais cândida.
O meu Deus é relâmpago,
O breve esplendor 
Antes do grande sono.

Recuso-me a durar
e a permanecer
Nasci para não ser
e ser o que não é
após tanto sonhar
e após tanto viver.

Após tanto sonhar e após tanto viver, Lêdo Ivo faleceu em Sevilha, terra que muito amou, em 23 de dezembro do ano passado. Sua poesia permanecerá, indelével, na história da literatura brasileira.

* * * * *

A cadeira 10 testemunha a vocação nacional dessa Academia. Fundada por um baiano, acolheu um sergipano, um paraense, um paulista, um alagoano e hoje acolhe uma carioca, todos ávidos de horizontes, habituados a pisar muitos chãos, movidos pela mesma ânsia que nos faz buscar em outras terras uma ampliação do nosso destino ao preço de riscos em que o que está em jogo é, por vezes, a nossa própria identidade. 
 
Sinto-me feliz na companhia desses viajantes, por vezes exilados como foi Rui Barbosa, cidadãos de um Brasil único e cidadãos do mundo.

Nós que aceitamos o desafio de entender o mistério do outro que revela o nosso próprio mistério, que descobrimos em cada língua estrangeira uma janela para uma civilização que também nos pertence, em cada paisagem inédita um recanto desse grande jardim planetário que é, ao mesmo tempo, nosso abrigo e prisão.

Pertenço à grei dos que buscam uma indicação para se perder. Que aprenderam com Jorge Luis Borges que o labirinto não é o risco do impasse, antes a possibilidade de escolha dentre os caminhos que se bifurcam. 

Disso tenho certeza. Eu que me perdi e me encontrei nos labirintos da Medina de Fès onde, na madrugada, os muezins entoam seu canto como um lamento, a noite se deixa sonhar de olhos abertos e o tempo abolido desafia o futuro.

Nas margens bíblicas do Nilo onde é tão fácil cruzar com a Virgem Maria que ainda hoje foge com seu menino nos braços.

Na luz divina do fim de tarde na cidade velha de Jerusalem onde se pode, enfim, chorar um choro infinito pelo indizível Holocausto.

Na selva da Guiné, onde cantei uma cantiga de ninar que todos sabiam de cor e, olhando para o céu vi, na noite sem lua, um mar de diamantes.

Na Muralha da China, essa cicatriz na pele do mundo que o delírio da vontade imperial traçou como fronteira da civilização.

Nos canais adormecidos de Veneza, a Sereníssima, onde nas brumas da madrugada, celebram-se as núpcias secretas do real e do sonho.

Nas neves eternas dos Alpes suíços, onde o calor da solidariedade derreteu o gelo com que a crueldade de uma ditadura envolvera meu coração.

E, sempre, sempre, de joelhos, ao som dos sinos de Vézelay, mesmo sem saber por quê.

Esses mundos que fiz meus, caminhos de nuvens, que guardam, cada um, um capítulo do meu destino espalhados em meus livros, foram vividos em voz alta, como cabe a uma cronista que colhe por onde anda fotos do invisível, mais tarde filtradas à luz de sua sensibilidade e memória, reveladas enfim, no papel, em sua literatura. Rubem Braga, o maior dos cronistas brasileiros, disse que quem escreve crônicas está vivendo em voz alta.

Meus predecessores nessa cadeira - cada um com os seus instrumentos: poesia, ensaio, crônica, conto, romance - cumpriram o mesmo destino que é o de todos os criadores, o de traduzir em texto idéias, convicções, emoções e pensamentos, vivências confessas ou inventadas, que são a matéria mesma de nossa criação.

Todos vimos pousar nessa Academia nossas biografias e nossas obras como um ínfimo caco de vidro nesse gigantesco vitral da criação em que a humanidade conta a sua busca de sentido, seu diálogo aflito com um interlocutor mudo, sua aspiração à transcendência.

Dele fazem parte os gestos ancestrais que, nas grutas de Altamira e Lascaux, para além da cópia de um bisão, imprimiam à passagem de um homem pela terra um sentido de mensagem enviada ao futuro, a um destinatário improvável mas possível.

Dele participa todo o acervo da criação dos que escrevem, compõem, pintam, filmam, pensam a nossa origem e destino, desdobrados em múltiplos mistérios que se escondem nos corpos e almas, os inventores e arquitetos, todos nós, criadores de arte e pensamento, construtores de mundos, fazemos parte desse vitral, exposto ora às luzes da liberdade, ora ao ensombrecer da opressão. Esse vitral é o monumento testemunha de nossa inconfessa aspiração à superação da morte. À imortalidade.

Entre nós, os que com uma lucidez quase demente recusam até mesmo esse testemunho e anunciam o fim da arte e a morte de Deus, mesmo esses compõem esse vitral, colocando nele uma peça insólita, essa desesperada confissão de inutilidade.

* * * * *

O universo da criação abriga mundos diversos. Venho de um de seus recantos mais nobres onde nos exprimimos com palavras. Somos gente de letras, os que fomos trazidos a esse mundo encantado pelo impulso insopitável que nos levou desde a infância ao segredo da escrita e ao gozo da leitura.

Se hoje pratico esse ofício sou grata aos grandes escritores que me seduziram com o feitiço de suas histórias. O antropólogo Lévy Strauss disse ser o homem, por excelência, um inventor de mitos. Desde sempre, pois, digo eu, um contador de histórias.

É Mário Vargas Llosa, um desses feiticeiros, que em “A verdade das mentiras” melhor define a literatura como uma forma de utopia. Ela nasce de um desejo de intervenção em uma relação ao mundo sentida como inconclusa, diz ele, “sonho lúcido, fantasia encarnada, a ficção nos completa, a nós, seres mutilados a quem foi imposta a atroz dicotomia de ter uma vida só e os desejos e fantasias de desejar mil.”

O mesmo diz Lêdo Ivo quando afirma que nossas obras findam por gerar as nossas vidas e escrever as nossas biografias. E que “a nossa aventura interior corrige a monotonia do mundoE vivem duas vezes os que não dispensam a passagem dos cavaleiros da ilusão pelos palcos da vida”.

Ambos têm razão. Escrita e leitura são apostas na possibilidade de um encontro, na imprevisibilidade e encantamento que dele podem advir, corrigindo no insatisfatório cotidiano seus limites e opacidades, dando visibilidade a outro mundo possível.

São mentiras verdadeiras, essas que nos consolam de nossas nostalgias e frustrações, nossos sonhos insubordinados e que encontram na ficção sua proibida encarnação.

Escrever é um desafio ao indevassável sentido da existência. É uma busca incansável de sentido, esse que nos escapa a cada dia e a cada geração, mas cujo desejo persistente e renovado de encontrá-lo remete à definição camusiana do mundo como absurdo, não em si mesmo, mas no nosso insopitável desejo de que ele não seja como é.

É da literatura que emergem esses personagens chamados equivocadamente de ficção já que, como afirma um colega da Universidade de Genebra, o grande crítico George Steiner, mais do que personagens inventados são “presenças reais”, que habitam o nosso imaginário com a força e a personalidade que lhes são próprias.

Para além do que nosso imaginário queira fazer deles, antes, fazem de nós seus inescapáveis interlocutores, criam devoções que se transmitem de geração em geração, como os grandes mitos literários que são, a exemplo de Édipo, Hamlet, Fausto ou Dom Quixote. 

Creio que são essas presenças reais que ditam o nosso destino, convivem conosco e habitam o recôndito mais secreto de nosso eu, aquele que é mais insubmisso que o inconsciente, o território liberado de nosso imaginário.

São elas uma família secreta que, ao sabor de um encontro fortuito, elegemos para conviver conosco na intimidade de uma vida inteira. São as vozes que ouvimos, que nos consolam e em quem encontramos uma afinidade que as fazem tão humanas quanto nós mesmos, que nos ensinam a viver, nos transmitem valores e estimulam nossos amanhãs.

Outro professor ilustre da universidade de Genebra, o crítico Jean Starobinski, pensa, com razão, que, “em certas circunstâncias mais vale esquecer-se de si e se deixar surpreender. Em troca, sentir-se-á, vindo da obra, um olhar que nos é dirigido, que não é um reflexo de nossa interrogação, mas o olhar de uma consciência radicalmente outra, que vem ao nosso encontro, nos interroga e nos força a responder. O livro nos interroga”.

E, eu acrescentaria, de maneira ainda mais enfática, que o olhar dessas “presenças reais”, que pousa sobre nós, é fundador.

* * * * *

Senhoras e senhores acadêmicos, para melhor apresentar-me ao nosso convívio, convoco alguns membros dessa família secreta à qual pertenço, as presenças reais cujo sangue invisível me corre nas veias.

Emília entrou em minha vida quando eu tinha nove anos. Instalou-se em meu imaginário com o autoritarismo absolutista que era o seu, uma boneca de pano, feia e vestida de trapos, que, em tempos de bonecas de porcelana, olhar vazio e cabeça oca, só tinha a seu favor o brilho da inteligência e a coragem da impertinência.

Com ela eu disse adeus às meninas exemplares. Emília ensinou às meninas da minha geração o sagrado direito à malcriação, à afirmação da vontade e à defesa de ideias próprias.

Emília abriu caminho para a entrada triunfal em minha adolescência de Simone de Beauvoir, fascinante personagem de si mesma que, em Memórias de uma moça bem comportada, escreveu: “A liberdade comanda, ela não obedece”.

Simone trilhou os tortuosos e acidentados caminhos da liberdade e deixou como mapa cinco volumes de memórias onde se guarda um precioso olhar sobre o século XX e o ponto de vista da mulher que ousou escrever “O segundo sexo”, esse livro que partiu o século ao meio, convidando as mulheres de minha geração à inédita autoria do feminino. 

Autoria que se impôs quando vimos dissolverem-se representações e imagens que ecoavam o eterno feminino e passamos a habitar um território liberado, saída secreta da clausura de uma linguagem e de um pensamento que nos pensava e descrevia in absentia.

No meu último dia como aluna do Instituto de Educação, escola pública em que tive o privilégio de me formar, enterrei sob uma árvore os meus bens mais preciosos, o tesouro de minha adolescência. Dentro da caixa, com quinquilharias várias, deixei um exemplar das “Memórias de uma moça bem comportada”.

O encontro com Antígona, tragédia de Sófocles, abre a aventura dos meus vinte anos. O mito de Antígona atravessou o tempo, envolvendo gerações com sua força encantatória, como o eco de uma voz sempre reencontrada, servindo de metáfora a oposições irreconciliáveis.

Masculino e Feminino dialogam em contradita. Antígona fala com o corpo. Fora do tempo, transita soberana no mundo dos mortos, sua temporalidade é o eterno. Creonte diz a contingência do agora, seu tempo é a historia e fala com a Razão que o poder se atribui. Antígona e Creonte encenam a inegociável dissemelhança sexual feita de estranheza e encantamento.

No espelho de Antígona, os meus vinte anos descobriram um rosto arquetípico. Fugitiva do esquecimento, a frágil princesa tebana que, afirmando lei própria, negou a autoridade do Rei e do Homem - pele nua de um Feminino em carne viva - voltou ao proscênio e acenou à minha geração, àquelas mulheres que, recusando o decreto de exclusão da vida da Pólis, pisaram, ainda que com passo incerto, os territórios proibidos do masculino.

O tempo fez seu trabalho de grande escultor. Nesses anos o feminino escapou do mármore do eterno, investiu um espaço de liberdade, abrigou uma desorganização profunda, forçando-se a reconhecer em um mesmo processo desintegração e gênese. Nem o outro nem o mesmo do masculino, tampouco o seu avesso, emerge onde encontra brechas, imprevisível.

É na produção literária que a emergência do feminino mais do que se anuncia, se enuncia, sotto voce, nem por isso inaudível. Virginia Woolf pedia a todas as escritoras que levassem uma flor ao túmulo de Jane Austen porque só ela, contra o cânon da época, ousara escrever como mulher.

Minha obra de ensaísta e cronista é um depoimento sobre uma geração de mulheres singular, a quem coube, no tempo de uma biografia, o privilégio e o risco de ser contemporânea da ruptura de um paradigma milenar.

Foi a esse tempo que aprendi com Clarice Lispector que a aproximação do que quer que seja se faz penosamente, atravessando inclusive o oposto do que se quer aproximar.

A travessia dos territórios do masculino me aproximou, paradoxalmente, dos territórios do feminino. Só então ouvi os passos de GH e aceitei o doloroso caminho da paixão, morte e ressurreição, que fizemos juntas. A paixão segundo GH. A paixão segundo Clarice Lispector.

Em meu livro o Elogio da Diferença, cujo titulo insólito surpreendeu-me em plena luta pela igualdade entre homens e mulheres, a epígrafe deve-se a GH e resume minha acidentada trajetória: “Não, nem a pergunta eu soubera fazer. No entanto a resposta se impunha a mim desde que eu nascera. Fora por causa da resposta contínua que eu, em caminho inverso, fora obrigada a buscar a que pergunta ela correspondia”.

O olhar de GH pousando em mim, sua travessia de si mesma espelhando minha errância, aceitei para o resto da vida a convivência com essa que é a mais acabada criação do gênio de Clarice Lispector.

* * * * *

Humanitas Felicitas, Libertas. Essas belas palavras que o Imperador Adriano inscreveu nas moedas de seu reino, bem sabendo que não as tinha inventado, foi Marguerite Yourcenar que gravou na minha vida como uma divisa que não inventei, mas tentei honrar.

Humanitas. Acredito na Humanidade como um projeto viável. Fomos nós que nos rebelamos contra a ordem natural, recusamos as leis predatórias que não conhecem a compaixão diante do sofrimento, chamamos de crueldade a destruição do mais fraco que a natureza aceita como seleção natural. É esse desvio da lei natural que, assim como a arte, nos arranca da condição animal e dá nobreza à aventura humana.

Há razões de esperança. Há quem veja na esperança resquícios de utopia. Sucessivos fracassos transformaram uma palavra que queria dizer uma sociedade ideal numa geografia imaginária, sinônimo de impossível. O adjetivo utópico perdeu sua conotação de inédito, portador de esperança, e ganhou a de irrealizável, quiçá indesejável.

Fico com Oscar Wilde que dizia: um mapa-múndi que não inclua a utopia não merece um olhar sequer porque deixa de fora um país em que a humanidade está sempre aportando. Uma vez no porto, olha em volta, vê um país melhor e enfuna as velas.

Felicitas. Acredito na busca da felicidade como um dever. São os momentos felizes que enfeitam o mundo e iluminam a vida. São esses momentos luminosos que dão a ver e gravam na memória a vida que poderia ser e que ainda não é. A aspiração à felicidade é para mim, assim como a compaixão, um dos mais belos atributos humanos, talvez o mais incompreensível, já que é luta permanente contra o efêmero.

Libertas. É Cecília Meirelles quem toma a palavra: 
Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda
.”

Cecília Meirelles, a pastora de nuvens. O nome mais ilustre com que encerro a apresentação de minha família secreta para apresentar-lhes, agora, senhoras e senhores acadêmicos, minha família de carne e sangue, aqui presente essa noite.

Na pessoa de meu irmão, José Carlos Ribeiro Filho, reverencio meus mortos, meus pais, José Carlos Ribeiro e Marina Reis Vianna Ribeiro, e minha irmã querida, Mariska.

Em Mário Salles Netto, meu primo e amigo, reverencio a memória de meus tios e avós, que alegraram minha vida de menina.

Em Carmem Andrea Vianna Santos, minha afilhada, minha filha, reverencio meus vivos, as quatro gerações de uma família numerosa e unida que ainda hoje pisam comigo o mesmo chão de terra que pisaram meus pais e avós, e que aquecem minha casa e os meus Natais.

Em Miguel Darcy de Oliveira, meu jovem namorado, o companheiro de todas as aventuras, nos caminhos e abismos, a cada passo presença ao meu lado, com quem teci com fio espesso toda uma vida. Nele e com ele celebro o esplendor que é a própria Vida.

Senhoras e senhores acadêmicos, minhas senhoras e meus senhores, muito obrigada.

 

14/6/2013