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Discurso de recepção

Discurso de recepção por Ivan Junqueira

Senhores Acadêmicos:

Embora não seja a regra – e esta, se existe, prevê de quando em vez a exceção – , cabe-me nesta noite, na condição de Presidente da Casa de Machado de Assis, receber o Acadêmico eleito Antonio Carlos Secchin. O mesmo já se dera há poucos anos atrás, mais precisamente em 7 de junho de 1999, quando o então Presidente Arnaldo Niskier acolheu no Petit Trianon o Acadêmico Murilo Melo Filho. E assim também já ocorrera em passado distante, quando o Presidente Carlos de Laet recepcionou o Acadêmico Dom Silvério Gomes Pimenta, na noite de 28 de maio de 1920, nesta mesma Cadeira nº 19, na qual a partir de hoje toma assento o novo imortal que elegemos no último dia 3 de junho. Confirma-se, portanto, aquele antigo conceito de que a exceção legitima a regra. É possível até que outros casos tenham ocorrido na história já centenária da Academia Brasileira de Letras, mas o que importa nesta noite é menos o esquecimento que tenho desses fatos do que o imperativo de relembrar o precedente que se registra na cadeira cujo patrono foi o polígrafo Joaquim Caetano da Silva e que teve como primeiro ocupante o jornalista Alcindo Guanabara.

Nascido em 10 de junho de 1952, sois hoje, aos 52 anos de idade, o mais jovem dentre nós, além de o primeiro acadêmico que conheceu a luz do mundo na segunda metade do século XX. É grande, pois, a vossa responsabilidade, e longa será, como todos esperamos, a vossa contribuição intelectual e literária à Casa que vos recebe nesta noite de festa e de glória. Muito embora a grave solenidade do instante recomende a adoção de um tom impessoal, quero aqui recordar o nosso primeiro encontro, em 1992, quando o que nos unia – e continua a unir, e decerto nos unirá para sempre –, era o interesse pela literatura, mais exatamente a poesia e a crítica literária que escrevíamos à época e os pontos de vista estéticos de que partilhávamos. Éreis então ainda mais jovem, e no entanto já despontava em vós esse pendor pela astúcia da análise textual, pela palavra exata e escorreita, pela limpidez do estilo e pela clareza da expressão, atributos que, segundo penso, são o apanágio do poeta que se faz crítico e do crítico que subjaz em todo aquele que se torna, quase por fatalidade, um poeta de poetas. E assim tiveram início essa amizade e essa admiração recíprocas que se prolongam até os dias de hoje e que agora mais uma vez nos aproxima no momento em que conquistais a glória suprema do homem de letras que fostes desde sempre.

Quero aqui recordar aos presentes um pouco de vossa trajetória como poeta, como ensaísta, como crítico literário e como professor universitário, já que, na qualidade de titular de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sois o herdeiro do grande e inesquecível Afrânio Coutinho. E dispensa acrescentar que deste mesmo berço ilustre procedem os Acadêmicos Alceu Amoroso Lima, Celso Cunha, Eduardo Portella e tantos outros que ali deixaram as indeléveis marcas de sua sabedoria. Vindes de uma família de imigrantes italianos do Veneto que se estabeleceram no estado do Espírito Santo desde os fins do século XIX, mas corre também em vossas veias o generoso sangue de um avô português que era poeta e leitor assíduo de Camões, de Guerra Junqueiro e de Antero de Quental. Apesar de carioca – ou homo copacabanensis, como gostais de dizer –, vivestes até os cinco anos em Cachoeiro de Itapemirim, onde aprendestes a ler e escrever. E esta primeira infância é que inerva o amor que guardais por vossas raízes mais remotas.

Mais adiante, aos 17 anos, ingressastes na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde fostes discípulo, entre outros, dos Acadêmicos Eduardo Portella, Afrânio Coutinho, Evanildo Cavalcante Bechara e Oscar Dias Corrêa. Seis anos depois, em 1975, vos tornastes professor de literatura e cultura brasileira da Universidade de Bordeaux, na França, e em 1977 obtivestes o diploma de Estudos Aprofundados na Sorbonne. De volta ao Brasil, trabalhastes com a futura Acadêmica Nélida Piñon e o escritor Rubem Fonseca no Departamento de Cultura da Secretaria de Educação do Município do Rio de Janeiro. Lecionastes ainda, ao longo destes trinta e quatro anos de magistério, não apenas no Brasil, mas também, como professor convidado, na França, na Itália, em Portugal, na Venezuela e nos Estados Unidos. Mestre em Literatura Brasileira em 1979 e doutor em Letras em 1982, com teses sobre a poesia de João Cabral de Melo Neto, conquistastes em 1993, em concurso público que vos atribuiu a nota máxima, a cátedra de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na qual sucedestes a Alceu Amoroso Lima e Afrânio Coutinho. Era o coroamento de vosso percurso magisterial, e o lograstes na condição de o mais jovem catedrático dessa especialidade entre vossos pares na instituição de ensino superior que foi sempre uma espécie de segunda residência para vós. E agora começais a morar em vossa “terceira residência”, aquela que foi o exílio para Pablo Neruda e que será para vós, ad immortalitatem, a Academia que agora vos recebe.

Não me alongarei mais em vossa biografia, já que os muitos anos de vida que vos restam se encarregarão de fazê-lo. Que baste por hora este precário e lacunoso bosquejo. Quero antes deter-me em vossa obra, a do ensaísta laureado de João Cabral: a poesia do menos, contemplado em 1987 com o Prêmio Sílvio Romero da Academia Brasileira de Letras; a do crítico literário que nos legou Poesia e desordem e Escritos sobre poesia & alguma ficção; a do organizador de diversas antologias de poetas brasileiros e das edições da poesia completa de Júlio Salusse, Cecília Meireles e Mário Pederneiras, bem como dos melhores poemas de João Cabral de Melo Neto; e, finalmente, a do poeta de Todos os ventos, no qual reunistes toda a vossa poesia e que, num único ano, o de 2003, conquistou nada menos que três importantes prêmios literários: os da Academia Brasileira de Letras, da Fundação Biblioteca Nacional e do Pen Club do Brasil, durante tantos anos presidido pelo Acadêmico Marcos Almir Madeira, a quem agora sucedeis na cadeira que lhe pertenceu por toda uma década ao longo da qual nos deu uma inexcedível lição de vida e de fraterno convívio.

É sobre o poeta que sois – e sem o concurso do qual jamais seríeis o crítico e o ensaísta em que vos tornastes – que pretendo me deter um pouco durante o tempo que me resta. Já o fiz, aliás, em 1997, no Centro Cultural de São Paulo, onde pronunciei uma conferência sobre esse poeta que vos ilumina os textos em prosa e que muito me lembram aquela exigência que nos impunha Baudelaire num dos fragmentos de Mon coeur mis à nu: “Sois toujours poète, même en prose”. Disse eu na ocasião que, por serdes até aquela data essencialmente um crítico de poesia, tal condição vos inibiria no que toca à arte de escrevê-la. É bem de ver que tal conjectura tem lá o seu grão de verdade, pois o pleno e ininterrupto exercício de vossas demais atividades, às quais se acrescentava então a espinhosa e multitudinária responsabilidade que vos cabia como editor da revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, decerto vos levaria, como de fato vos levou, à fímbria de uma outra exigência, esta de Leonardo da Vinci, quando aludia ao ostinato rigor com que deve proceder o artista em tudo o que faz. E esse rigor, se não inibe, sem dúvida concorre para que qualquer escritor só dê à estampa o que julga digno de si e de sua pena.

Muito embora o que acabamos de dizer contribua para caracterizar a escassez de uma poesia do pouco, como então a batizei glosando aquilo que definistes como “a poesia do menos” no que respeita à severa arquitetura verbal de João Cabral de Melo Neto, pareceu-me que o fio da meada principiava com o vosso próprio comportamento de autor, que se ocultava, de todo arredio às efêmeras glorietas literárias, sob o manto de uma quase paradoxal e extrema sociabilidade mundana. É que, num dos poemas de vosso segundo livro, Elementos, que absorve a poesia do primeiro, Ária de estação, “revisitada e diminuída”, como a corroborar aquela tendência ao menos e ao pouco a que já nos referimos, encontramos estes versos: “Na sonância do que vive, / minha fala é resistência, / e dizer é corroer o que se esquiva.” Comportamento idêntico é o que se vê nas últimas linhas da estranha novela metapoética Movimento, onde confessais: “Coloco uma folha na máquina. Penso no que vou escrever. Por alguns segundos fico indeciso. É preciso contar. Meu corpo treme de frio, o papel parece aumentar seu limite em branco nas minhas mãos. Mas eu resisto.” Resiste, claro está, como resistia Mallarmé quando escreveu o célebre verso: “Sur le vide papier que la blancheur défend.” De tanto lidar com as palavras, passastes a duvidar delas. Por isso mesmo, ainda em Elementos, aludis à “língua iludida da linguagem”, pois aquilo a que almejáveis era o que se situava “aquém do nome, / movendo a voz que se/ publica enquanto cala”. É tanta a vossa pudicícia diante da sacralidade do verbo poético que chegais a nos pedir: “me emudece para o jogo desse dia, / resgata em prosa o que eu perco em poesia”. Vossa metalinguagem está crivada de versos que comprovam à saciedade essa desconfiança quanto à eficácia das palavras, tema com que T.S. Eliot, aliás, conclui o último movimento do primeiro de seus Four Quartets. Sem incidirmos aqui em nenhuma estapafúrdia ou abstrusa comparação, o que lemos em vós é, mutatis mutandis, quase o mesmo, sobretudo quando dizeis: “enquanto na garganta do meu canto/ um sol solene me assassina.”  Ou quando, desolado, confessais:

O que faço, o que desmonto,
são imagens corroídas,
ruínas de linguagem,
vozes avaras e mentidas.

O que eu calo e que não digo
entrelaçam meu percurso.
Respiro o espaço
fraturado pela fala
e me deponho, inverso,
no subsolo do discurso.
 
É claro que, ao “purifer les mots de la tribu”, qualquer poeta – e o próprio Mallarmé é o exemplo supremo dessa escassez no que toca ao volume da obra poética – tende não apenas à concisão de tudo o que escreveu, mas até mesmo à redução daquilo que se entende como o corpus poético de sua produção. A rigor, o exemplário vem desde Leopardi, cujos Canti somam apenas 40 poemas. O conjunto de Les fleurs du mal, de Baudelaire, totaliza somente 167 poemas, e nele está tudo o que o autor escreveu em verso, se aqui desprezarmos sua irrelevante Juvenília. E é pequena, também, a obra poética de Valéry, o mais ilustre dos discípulos de Mallarmé. Pequena, entre nós, é a obra fundamental de Dante Milano, que morreu aos 91 anos de idade e nos deixou uma exígua produção de 141 poemas. Esse Dante Milano que Drummond, ao fim da vida, considerava o maior dentre todos os poetas brasileiros do século passado. E se os cito aqui, é porque todos encarnam essa poética do pouco, que teria a coroá-la aquele juízo do poeta expressionista alemão Gottfried Benn, segundo quem o que de fato permanece para sempre de cada grande poeta não chega a oito ou dez poemas dignos desse nome.

Não quero dizer com isto que esse reducionismo seja, necessariamente, sinônimo de qualidade estética: pode-se escrever pouco e, ainda assim, escrever mal. O que quero dizer é que, quando se trata de um grande e verdadeiro poeta, essa avarícia equivalerá, quase inevitavelmente, a um salutar exercício de concentração intelectual que tende a expurgar o que não presta. E é isto o que vemos desde o vosso primeiro livro, onde já se lê muita poesia que merece esse nome, sobretudo, por exemplo, no poema que dedicais a João Cabral de Melo Neto e naquele que leva o título de “Onde este fardo molhava”, cujos versos aparecem algo modificados (vale dizer: reduzidos) em Elementos. Não resisto aqui, muito a propósito, a transcrever os esplêndidos versos de sabor camoniano que abrem a terceira parte desse poema que nos recorda também certa ambiência que Jorge de Lima criou na Invenção de Orfeu:

E olhamos a ilha assinalada
pelo gosto de abril que o mar trazia
e galgamos nosso sono sobre a areia

num barco só de vento e maresia.
Depois, foi a terra. E na terra construída
Erguemos nosso tempo de água e de partida.

Sonoras gaivotas a domar luzes bravias
em nós recriam a matéria de seu canto,
e nessas asas se esparrama nossa glória,

de um amor anterior a todo estio,
de um amor anterior a toda história.

Dizem alguns que vossa poesia paga tributo à sintaxe desértica de João Cabral. Por mais que essa dívida fosse algo previsível, já que mergulhastes mais fundo do que ninguém nas vísceras do verso cabralino, não vemos dela qualquer indício em vossos poemas, já que soubestes vos manter incólume ao jugo dessa influência, à qual, diga-se logo, sucumbiram incontáveis epígonos do autor de Uma faca só lâmina. É que não se deve confundir a poesia do menos com a poética do pouco, muito embora sejam ambas quase tangenciais. E mais: há que se entender que os processos verbais de João Cabral e os vossos são inteiramente distintos. A poesia daquele primeiro é essencialmente visual e guarda poucas relações com aquilo que poderíamos definir como a música da língua, com essa melopéia que nos vem desde Camões e Sá de Miranda e que entranha boa parte de vossos versos, nos quais a todo instante aflora a chamada índole da língua, como o vemos, de forma cabal, na primeira estrofe do poema “Vou armar as margens dessas lendas”, na qual se lê:

Vou armar as margens dessas lendas
alugadas pela garra da alegria.
Sobre o cimo de uma voz zombada
Avisto o nada, e meu avesso me recria.

E surpreende até que assim o seja, pois quem freqüenta a poesia de João Cabral – ou, mais grave ainda, quem a estuda a fundo, como o fizestes – , conhece como ninguém o seu fundo e insidioso poder de contaminação estilística. Conviver com essa poesia, sobretudo quando se é poeta, é como anular-se na fímbria de um sortilégio que se quer impor e imprimir seu estigma sobre tudo o que porventura medre ao seu redor. Penso que todos nós já corremos esse risco, e alguns foram por ele devorados. Estranhamente, não o fostes. E é possível, neste caso, que nos devais uma explicação. De nossa parte, arriscamos aqui um paradoxo: talvez justamente por conviverdes à exaustão com a poesia de João Cabral é que pudestes vos furtar ao seu traiçoeiro fascínio.

Depois de Ária de estação e de Elementos, somente retornastes à poesia publicada em 1988, e, ainda assim, de raspão. Ou en passant, como sugere o título de uma plaquete que vos reuniu apenas oito poemas e que leva o título de Diga-se de passagem. É bem de ver aí vossa preocupação metalingüística, já que quatro desses oito poemas de algum modo a ilustram, conquanto em dois deles, “Notícia do poeta” e “Remorso”, predominem antes o humor e o sarcasmo antiparnasianos, como naquele segundo, onde se lê: “A poesia está morta. /Discretamente, Alberto de Oliveira volta ao local do crime.” Interessa-nos mais de perto, entretanto, o primeiro poema do livro: “Biografia”. É que sua primeira estrofe proclama uma poética que jamais poderia ser endossada pela raison raisonante que preside a poesia de João Cabral de Melo Neto:

O poema vai nascendo
num passo que desafia:
numa hora eu já o levo,
outra vez ele me guia.

No processo cabralino, o que se percebe é a mão tenaz e dominadora do poeta, de modo que o poema jamais o guia, sendo antes por ele controlado e mesmo subjugado. É claro que sobre esse assunto de precedências caberia aqui toda uma discussão que este breve discurso não comporta. O que quero deixar claro, mais uma vez, é que, embora haja analisado com rara acuidade a poética de João Cabral, é outra a matriz a partir da qual se articula o vosso processo poético, tal como o vemos, ainda em Diga-se de passagem, num belo poema veladamente metalingüístico que tem como título “Cintilações do mal”, cujas duas primeiras estrofes tomo aqui a liberdade de citar:

Cintilações do mal. Precipício de poemas,
travessia para um sol que vem de longe.
Minha sombra aparecendo na calçada
repentina feito a mão de um monge.

Enroladas nos panos da cama,
na malícia de serpente e lã,
dormem as mulheres que não tive
na delícia vermelha da maçã.

Vejam bem que, neste caso, o tom seria antes bandeiriano do que cabralino. Ou mesmo eliotiano, se nos lembrarmos daqueles “Preludes” que constam de Prufrock and Other Observations. E isso atesta aquilo que costumo chamar de boa formação poética. Em outras palavras: quanto mais influências ou pontos de tangência, tanto melhor para a saúde literária de qualquer autor.

Os poemas até então inéditos que, juntamente com os que já se encontravam publicados, reunistes em Todos os ventos vos confirmam todas as anteriores virtudes, além de acrescentar-lhes outras. Assim, paralelamente ao domínio cabal da língua e da linguagem poética, assiste-se ao vosso amadurecimento como artista, essa maturidade que não se deve apenas a uma conquista do espírito e da alma, mas também a uma refinada educação sentimental, como nos sugere o romance de Gustave Flaubert. Percebe-se nesses poemas que renunciastes a qualquer artifício verbal ou pompa estilística, o que os leva àquela difícil comunhão entre o que e o como da expressão poética. Não há neles nem sobras nem arestas: são apenas exatos, como exatas são a vida e a morte. Sua música weberiana já não mais recorre àqueles traiçoeiros e amiúde fáceis artifícios da paronomásia ou da aliteração. Nota-se ainda que vossa poesia se avizinha cada vez mais daquela concepção wordsworthiana segundo a qual o fenômeno poético poderia ser entendido como uma “emotion recollected in tranquility”. É pelo menos isto o que comprovam pelo menos dois dos “Dez sonetos da circunstância”, cuja pompa é nenhuma e cuja poesia é absoluta. Assinale-se em ambos o misterioso estigma de um tempo que passou e deixou suas marcas, essas marcas que devem aqui ser compreendidas como uma “busca do tempo perdido”, na qual o ser humano se redescobre porque alcança a dimensão estética do tempo, como no ápice do romance proustiano. Nesse sentido, é exemplar o primeiro quarteto do soneto “O menino se admira”, no qual se lê:

O menino se admira no retrato
e vê-se velho ao ver-se novo na moldura.
É que o tempo, com seu fio mais delgado,
no rosto em branco já bordou sua nervura.

Há também nesses poemas uma vertente a que jamais renunciastes: a do humor. Se é verdade que ela aflora mais intensamente em vossos ensaios críticos, nem por isso podemos desconsiderar sua existência desde os primeiros textos poéticos que escrevestes. Essa “rebelião do espírito contra a miséria da nossa condição”, como escreveu certa vez Aníbal Machado a propósito do humor, faz-se visível em dois de vossos últimos poemas: aquele em que explorais um breve episódio das peregrinações azevedianas, quando o grande poeta romântico cumpre certa visita no Catumbi; e um outro em que confessais não poder vos dar “em espetáculo”, pois “a platéia toda fugiria/ antes mesmo do segundo ato”. Não bastasse essa fuga, teríeis ainda contra vós um crítico que, “maldizendo a sua sina/ rosnaria feroz/ contra a minha verve/ sibilina”. Mas é antes fina do que sibilina a verve com que descreveis a tal visita de Álvares de Azevedo naquele primeiro poema, cujos últimos versos dizem:

Ao sair, deixa de lembrança
ao sono cego do parceiro
dois poemas, um cachimbo e um estilo.
 
Sim, um estilo. E eis aqui uma das chaves, se não a principal, para que possamos entender não apenas a vossa poesia, mas também a prosa e o ensaísmo que escreveis. Esse estilo austero e de poucas palavras que cultivais em vossa linguagem poética e que não se pode dissociar daquele que ilumina vossos textos ensaísticos, nos quais, como sublinha Antônio Houaiss, “há um lastro preciso de elegâncias (na linguagem, nas imagens, no encaminhamento das idéias, no respeito ao leitor, no pudor para com os criticados). Esse estilo, remata ainda Sérgio Paulo Rouanet, que “mantém uma misteriosa afinidade” com a “matéria poética que trabalha”. Refiro-me aqui a tais circunstâncias porque é amiúde importante, para compreendermos a poesia de determinados autores, que lhe examinemos mais de perto a prosa estético-doutrinária que nos legaram. É isso, por exemplo, o que acontece com Horácio, Boileau, Coleridge, Baudelaire, Valéry, Eliot, Leopardi, Paz, Borges e tantos outros cuja crítica literária tem a iluminá-la a condição de poetas que sempre foram. E mais crucial ainda do que todas essas ponderações que faço aqui para vos compreender melhor o estro poético seja talvez esmiuçar-vos o próprio pensamento doutrinário a respeito do assunto, ou seja, o que entendeis por poesia.

No ensaio “Poesia e desordem”, que abre vossa penúltima coletânea de escritos sobre poesia e alguma prosa, dizeis que “a poesia não pretende ser o espelho do caos, hipótese em que, ausente qualquer padrão de reconhecimento, tudo, isto é, nada, seria poético.” É ainda nesse ensaio  que nos esclareceis quanto à vossa própria concepção do fenômeno poético quando sustentais que “a poesia representa a fulguração  da desordem, o ‘mau caminho’ do bom senso, o sangramento inestancável do corpo da linguagem, não prometendo nada além de rituais para Deus nenhum”. Ou seja, o ato poético, como o compreendeis, seria uma espécie de “desordem sob controle”. E argumentais que, nessa perspectiva, “a poesia poderia ser também encarada como uma espécie de grande metáfora da língua, um discurso que, simulando ser a imagem do outro, já que dele utiliza as palavras e a sintaxe, acaba produzindo objetos que desregulam o modo operacional e previsível da matriz”. E como que para confirmar vossa atitude exegética dizeis ao fim do segundo ensaio do volume: “Por isso, desconfio da crítica que escamoteia, por pudor epistemiológico, sua condição de navegante à deriva do texto, na busca infatigável da invenção do sentido.”

Temos aqui, efetivamente, o que sois ou, na pior das hipóteses, o que vossa escolha estética nos leva a crer o que sejais: um poeta de poetas e um crítico de poetas. E não apenas vossa poesia como também vossa prosa o atestam. E há nessa mesma poesia um dado que talvez a explique melhor. Aludo aqui a uma breve e concisa inscrição a partir da qual se articula vossa meditação pré-socrática sobre aqueles quatro elementos que serviram de base à especulação filosófica dos primeiros pensadores daquela colônia grega de Mileto, na Ásia Menor:

O real é miragem consentida,
engrenagem  da voragem,
língua  iludida da linguagem
contra a sombra que não peço.
O real é meu excesso.

É graças a esta inscrição, verdadeira declaração de princípios poéticos, que se pode começar a entender o vosso pensamento sempre avesso à evanescência da música simbolista ou à fantasmagoria da ilusão romântica. Vossa preocupação é antes com a palavra concreta, e não com o vazio de um “signo precário”. Em certa medida, reagis contra aquele esforço no sentido de dizer o indizível que caracteriza quase toda a poesia rilkiana. E não creio que assim o seja apenas por influência da dura e áspera sintaxe cabralina, mas por algo que já preexistia em vós, quer como crença estética, quer mesmo como desígnio poético, ao vosso monumental estudo sobre João Cabral de Melo Neto. É que supomos que essa aproximação com a poesia do autor de Pedra do sono resultaria antes de uma goethiana afinidade eletiva. A mesma, por exemplo, que levou Baudelaire a difundir na França o Poetic Principle de Edgar Allan Poe e a traduzir-lhe para o francês quase toda a obra ficcional. E no que toca a essa vossa obsessão pela visibilidade concreta do signo poético ou à vossa desconfiança com relação a tudo o que não seja emocionalmente tangível, se aqui não me derem ouvidos, não os façam moucos para o que escrevestes no primeiro poemas de Elementos:

Palavra,
nave da navalha,
gume da gaiola,
ave do visível.

Se me permitem os confrades e os amigos que vieram aqui esta noite para vos saudar e aplaudir, gostaria de dizer ainda algumas poucas palavras sobre Todos os ventos, volume em que reunistes toda a vossa poesia, pois é nele que melhor se pode observar a cristalização de todos esses processos estilísticos e verbais a que já aludi, como o atestam, muito particularmente, aqueles modelares “Dez sonetos da circunstância”. E se digo modelares, faço-o apenas porque neles não se percebem aquelas fraturas e fissuras que nos levam às vezes a concluir que se rompeu a indissolúvel comunhão entre forma e fundo, como se vê amiúde nos poemas dos autores que não alcançaram ainda a sua maturidade. Nesses sonetos, ao contrário, vemos confirmada aquela concepção de que forma e fundo são uma coisa só, tamanho e tão íntimo se revela o matrimônio entre o que se quis dizer e o que efetivamente se disse. É de tal modo austera e solene a vossa linguagem que, em seu prefácio ao livro, Eduardo Portella nos assegura que nele estão “todos os ventos e nenhum vendaval”, exceto “a serena percepção do precipício, esse núcleo tenso e intenso que promove a dispersão e a coesão”. Outro ilustre acadêmico e astucioso crítico literário, Alfredo Bosi, sustenta que, em Todos os ventos, lograstes “alcançar o nível raro da expressão singular, forte e desempenada”, e logo em seguida se refere aos “belos sonetos ingleses” de que há pouco me ocupei. E reservo-me aqui, por uma questão de estima pessoal, o direito de escolher apenas um desses dez soberbos sonetos, aquele que me dedicais e que leva o título de “À noite o giro cego”. Nele dizeis:

À noite o giro cego das estrelas,
errante arquitetura do vazio,
desperta no meu sonho a dor distante
de um mundo todo negro e todo frio.

Em vão levanto a mão, e o pesadelo
de um cosmo conspirando contra a vida
me desterra no meio de um deserto
onde trancaram a porta de saída.

Em surdina se lançam para o abismo
nuvens inúteis, ondas bailarinas,
relâmpagos, promessas e presságios,

sopro vácuo da voz frente à neblina.
E em meio a nós escorre sorrateira
a canção da matéria e da ruína.

Pouco depois, em 2003, haveríeis de nos brindar com outra coletânea de ensaios críticos: Escritos sobre prosa & alguma ficção. E mais uma vez comprovastes aquela exigência baudelariana de que, se formos poetas verdadeiros, haveremos de sê-lo também em prosa. Disse-o depois Fernando Pessoa, quando afirmou que somente os poetas são capazes de escrever boa prosa. E disse-o também Alceu Amoroso Lima ao sublinhar que “todo grande poeta é um grande crítico, como todo grande crítico é um poeta, ou em perspectiva ou em ação”. É vasta e complexa a matéria de que vos ocupais nestas páginas, que reúnem ensaios, estudos críticos, conferências, palestras, prefácios, textos jornalísticos e comunicações universitárias sobre alguns dos mais insignes escritores brasileiros, entre os quais se incluem Machado de Assis, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Cruz e Sousa, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cecília Meireles, Raul Bopp, João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade, além de vários outros autores contemporâneos. E não esqueçamos aqui os assuntos temáticos que foram objeto de vossa argúcia, como é o caso da poesia que se produziu entre nós durante o Romantismo, o Simbolismo, o Parnasianismo e o Modernismo.

Como sempre, vossa crítica literária encontra-se instrumentada não apenas por um “esplêndido domínio verbal”, como certa vez observou Antônio Houaiss, mas também pelo pleno conhecimento que tendes da matéria de que tratais, virtudes a que se soma um outro tempero: o do humor. Não surpreende, portanto, que esses textos de crítica tenham sido louvados por alguns dos mais lúcidos e exigentes ensaístas brasileiros, como José Guilherme Merquior, Sérgio Paulo Rouanet, Benedito Nunes, José Paulo Paes, Alfredo Bosi, Ivo Barbieri, Miguel Sanches Neto e Eduardo Portella, que certa vez disse de vós: “Além do mais, em Secchin convivem, dentro das mais harmoniosas regras de convivência, o poeta e o crítico”. E logo depois remata: “Secchin é poeta não só porque escreve poemas convincentes, mas porque o seu ensaio se nutre da relação fundadora com a palavra.” E eis aí confirmados aqueles conceitos tão caros a Baudelaire, a Fernando Pessoa e a Alceu Amoroso Lima.

Senhores acadêmicos, esta é uma Casa de autores e livros, na feliz expressão de Múcio Leão, tanto assim que hoje dispõe de duas opulentas e seletas bibliotecas: a Biblioteca Acadêmica e a Biblioteca Rodolfo Garcia, que reúnem cerca de 150 mil volumes e cujos acervos incluem incontáveis raridades bibliográficas que demandam o zelo de todos aqueles que amam o livro. Ao elegermos Antonio Carlos Secchin, elegemos também um dos maiores e mais obsessivos bibliófilos brasileiros. Curioso, pertinaz, maníaco, ciumento e detetivesco como todos os de sua espécie, fostes capaz, entre outras notáveis proezas, de recuperar toda a poesia de Júlio Salusse, dada como perdida, mas afinal resgatada por vós num caderno manuscrito adquirido em sebo e depois publicado nos Anais da Biblioteca Nacional. Não contente com tal façanha, reunistes a obra completa do poeta simbolista Mário Pederneiras, que será em breve reeditada pela Academia Brasileira de Letras, e conseguistes ainda descobrir o derradeiro exemplar do livro Espectros, que assinala a estréia de Cecília Meireles, em 1919, e cujo total desaparecimento era um desafio para bibliófilos, pesquisadores e leitores. E o encontrastes a tempo de incluí-lo na monumental edição do centenário de nascimento da autora, que organizastes em 2001 para a Editora Nova Fronteira.

Autor do já clássico Guia dos sebos, do qual há pouco se deu a lume a 4ª edição revista e aumentada, e que mapeia de forma cabal e exaustiva as velhas lojas dos alfarrabistas do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Goiânia, Fortaleza, Curitiba, Maceió, Manaus, Natal, Porto Alegre e São Luís do Maranhão, sois hoje, talvez, o mais aplicado e tenaz guardião de nossas jóias bibliográficas, o que decerto muito convém à Casa de Machado de Assis e à preservação de seu riquíssimo acervo. Em vossas mãos – e sob vossa obsidiante e zelosa tutela – todo esse tesouro estará mais bem guardado do que nunca.

Sr. Antonio Carlos Secchin – o poeta, o ensaísta, o crítico literário, o bibliófilo, o mestre exemplar de nossa literatura – sede bem-vindo ao nosso convívio, que, como sabeis, se estenderá para o resto dos tempos. Per omnia seculae seculorum, diz a surrada, e talvez por isso mesmo verdadeira, expressão latina. Esta é a Casa que o tempo escolheu para erguer a sua morada, que é também a do ser que se resolve em palavras. É nela que havereis de conquistar aquele tempo que, como diz o poeta, somente através do tempo será conquistado. A isto chamamos memória: a dos que já se foram e ainda dóem em nós como eternas cicatrizes, e a dos que, como vós, lograram transpor a soleira da imortalidade. Sede bem-vindo.

Senhores Acadêmicos:

Embora não seja a regra – e esta, se existe, prevê de quando em vez a exceção – , cabe-me nesta noite, na condição de Presidente da Casa de Machado de Assis, receber o Acadêmico eleito Antonio Carlos Secchin. O mesmo já se dera há poucos anos atrás, mais precisamente em 7 de junho de 1999, quando o então Presidente Arnaldo Niskier acolheu no Petit Trianon o Acadêmico Murilo Melo Filho. E assim também já ocorrera em passado distante, quando o Presidente Carlos de Laet recepcionou o Acadêmico Dom Silvério Gomes Pimenta, na noite de 28 de maio de 1920, nesta mesma Cadeira nº 19, na qual a partir de hoje toma assento o novo imortal que elegemos no último dia 3 de junho. Confirma-se, portanto, aquele antigo conceito de que a exceção legitima a regra. É possível até que outros casos tenham ocorrido na história já centenária da Academia Brasileira de Letras, mas o que importa nesta noite é menos o esquecimento que tenho desses fatos do que o imperativo de relembrar o precedente que se registra na cadeira cujo patrono foi o polígrafo Joaquim Caetano da Silva e que teve como primeiro ocupante o jornalista Alcindo Guanabara.

Nascido em 10 de junho de 1952, sois hoje, aos 52 anos de idade, o mais jovem dentre nós, além de o primeiro acadêmico que conheceu a luz do mundo na segunda metade do século XX. É grande, pois, a vossa responsabilidade, e longa será, como todos esperamos, a vossa contribuição intelectual e literária à Casa que vos recebe nesta noite de festa e de glória. Muito embora a grave solenidade do instante recomende a adoção de um tom impessoal, quero aqui recordar o nosso primeiro encontro, em 1992, quando o que nos unia – e continua a unir, e decerto nos unirá para sempre –, era o interesse pela literatura, mais exatamente a poesia e a crítica literária que escrevíamos à época e os pontos de vista estéticos de que partilhávamos. Éreis então ainda mais jovem, e no entanto já despontava em vós esse pendor pela astúcia da análise textual, pela palavra exata e escorreita, pela limpidez do estilo e pela clareza da expressão, atributos que, segundo penso, são o apanágio do poeta que se faz crítico e do crítico que subjaz em todo aquele que se torna, quase por fatalidade, um poeta de poetas. E assim tiveram início essa amizade e essa admiração recíprocas que se prolongam até os dias de hoje e que agora mais uma vez nos aproxima no momento em que conquistais a glória suprema do homem de letras que fostes desde sempre.

Quero aqui recordar aos presentes um pouco de vossa trajetória como poeta, como ensaísta, como crítico literário e como professor universitário, já que, na qualidade de titular de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, sois o herdeiro do grande e inesquecível Afrânio Coutinho. E dispensa acrescentar que deste mesmo berço ilustre procedem os Acadêmicos Alceu Amoroso Lima, Celso Cunha, Eduardo Portella e tantos outros que ali deixaram as indeléveis marcas de sua sabedoria. Vindes de uma família de imigrantes italianos do Veneto que se estabeleceram no estado do Espírito Santo desde os fins do século XIX, mas corre também em vossas veias o generoso sangue de um avô português que era poeta e leitor assíduo de Camões, de Guerra Junqueiro e de Antero de Quental. Apesar de carioca – ou homo copacabanensis, como gostais de dizer –, vivestes até os cinco anos em Cachoeiro de Itapemirim, onde aprendestes a ler e escrever. E esta primeira infância é que inerva o amor que guardais por vossas raízes mais remotas.

Mais adiante, aos 17 anos, ingressastes na Faculdade de Letras da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde fostes discípulo, entre outros, dos Acadêmicos Eduardo Portella, Afrânio Coutinho, Evanildo Cavalcante Bechara e Oscar Dias Corrêa. Seis anos depois, em 1975, vos tornastes professor de literatura e cultura brasileira da Universidade de Bordeaux, na França, e em 1977 obtivestes o diploma de Estudos Aprofundados na Sorbonne. De volta ao Brasil, trabalhastes com a futura Acadêmica Nélida Piñon e o escritor Rubem Fonseca no Departamento de Cultura da Secretaria de Educação do Município do Rio de Janeiro. Lecionastes ainda, ao longo destes trinta e quatro anos de magistério, não apenas no Brasil, mas também, como professor convidado, na França, na Itália, em Portugal, na Venezuela e nos Estados Unidos. Mestre em Literatura Brasileira em 1979 e doutor em Letras em 1982, com teses sobre a poesia de João Cabral de Melo Neto, conquistastes em 1993, em concurso público que vos atribuiu a nota máxima, a cátedra de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio de Janeiro, na qual sucedestes a Alceu Amoroso Lima e Afrânio Coutinho. Era o coroamento de vosso percurso magisterial, e o lograstes na condição de o mais jovem catedrático dessa especialidade entre vossos pares na instituição de ensino superior que foi sempre uma espécie de segunda residência para vós. E agora começais a morar em vossa “terceira residência”, aquela que foi o exílio para Pablo Neruda e que será para vós, ad immortalitatem, a Academia que agora vos recebe.

Não me alongarei mais em vossa biografia, já que os muitos anos de vida que vos restam se encarregarão de fazê-lo. Que baste por hora este precário e lacunoso bosquejo. Quero antes deter-me em vossa obra, a do ensaísta laureado de João Cabral: a poesia do menos, contemplado em 1987 com o Prêmio Sílvio Romero da Academia Brasileira de Letras; a do crítico literário que nos legou Poesia e desordem e Escritos sobre poesia & alguma ficção; a do organizador de diversas antologias de poetas brasileiros e das edições da poesia completa de Júlio Salusse, Cecília Meireles e Mário Pederneiras, bem como dos melhores poemas de João Cabral de Melo Neto; e, finalmente, a do poeta de Todos os ventos, no qual reunistes toda a vossa poesia e que, num único ano, o de 2003, conquistou nada menos que três importantes prêmios literários: os da Academia Brasileira de Letras, da Fundação Biblioteca Nacional e do Pen Club do Brasil, durante tantos anos presidido pelo Acadêmico Marcos Almir Madeira, a quem agora sucedeis na cadeira que lhe pertenceu por toda uma década ao longo da qual nos deu uma inexcedível lição de vida e de fraterno convívio.

É sobre o poeta que sois – e sem o concurso do qual jamais seríeis o crítico e o ensaísta em que vos tornastes – que pretendo me deter um pouco durante o tempo que me resta. Já o fiz, aliás, em 1997, no Centro Cultural de São Paulo, onde pronunciei uma conferência sobre esse poeta que vos ilumina os textos em prosa e que muito me lembram aquela exigência que nos impunha Baudelaire num dos fragmentos de Mon coeur mis à nu: “Sois toujours poète, même en prose”. Disse eu na ocasião que, por serdes até aquela data essencialmente um crítico de poesia, tal condição vos inibiria no que toca à arte de escrevê-la. É bem de ver que tal conjectura tem lá o seu grão de verdade, pois o pleno e ininterrupto exercício de vossas demais atividades, às quais se acrescentava então a espinhosa e multitudinária responsabilidade que vos cabia como editor da revista Poesia Sempre, da Biblioteca Nacional, decerto vos levaria, como de fato vos levou, à fímbria de uma outra exigência, esta de Leonardo da Vinci, quando aludia ao ostinato rigor com que deve proceder o artista em tudo o que faz. E esse rigor, se não inibe, sem dúvida concorre para que qualquer escritor só dê à estampa o que julga digno de si e de sua pena.

Muito embora o que acabamos de dizer contribua para caracterizar a escassez de uma poesia do pouco, como então a batizei glosando aquilo que definistes como “a poesia do menos” no que respeita à severa arquitetura verbal de João Cabral de Melo Neto, pareceu-me que o fio da meada principiava com o vosso próprio comportamento de autor, que se ocultava, de todo arredio às efêmeras glorietas literárias, sob o manto de uma quase paradoxal e extrema sociabilidade mundana. É que, num dos poemas de vosso segundo livro, Elementos, que absorve a poesia do primeiro, Ária de estação, “revisitada e diminuída”, como a corroborar aquela tendência ao menos e ao pouco a que já nos referimos, encontramos estes versos: “Na sonância do que vive, / minha fala é resistência, / e dizer é corroer o que se esquiva.” Comportamento idêntico é o que se vê nas últimas linhas da estranha novela metapoética Movimento, onde confessais: “Coloco uma folha na máquina. Penso no que vou escrever. Por alguns segundos fico indeciso. É preciso contar. Meu corpo treme de frio, o papel parece aumentar seu limite em branco nas minhas mãos. Mas eu resisto.” Resiste, claro está, como resistia Mallarmé quando escreveu o célebre verso: “Sur le vide papier que la blancheur défend.” De tanto lidar com as palavras, passastes a duvidar delas. Por isso mesmo, ainda em Elementos, aludis à “língua iludida da linguagem”, pois aquilo a que almejáveis era o que se situava “aquém do nome, / movendo a voz que se/ publica enquanto cala”. É tanta a vossa pudicícia diante da sacralidade do verbo poético que chegais a nos pedir: “me emudece para o jogo desse dia, / resgata em prosa o que eu perco em poesia”. Vossa metalinguagem está crivada de versos que comprovam à saciedade essa desconfiança quanto à eficácia das palavras, tema com que T.S. Eliot, aliás, conclui o último movimento do primeiro de seus Four Quartets. Sem incidirmos aqui em nenhuma estapafúrdia ou abstrusa comparação, o que lemos em vós é, mutatis mutandis, quase o mesmo, sobretudo quando dizeis: “enquanto na garganta do meu canto/ um sol solene me assassina.”  Ou quando, desolado, confessais:

O que faço, o que desmonto,
são imagens corroídas,
ruínas de linguagem,
vozes avaras e mentidas.

O que eu calo e que não digo
entrelaçam meu percurso.
Respiro o espaço
fraturado pela fala
e me deponho, inverso,
no subsolo do discurso.
 
É claro que, ao “purifer les mots de la tribu”, qualquer poeta – e o próprio Mallarmé é o exemplo supremo dessa escassez no que toca ao volume da obra poética – tende não apenas à concisão de tudo o que escreveu, mas até mesmo à redução daquilo que se entende como o corpus poético de sua produção. A rigor, o exemplário vem desde Leopardi, cujos Canti somam apenas 40 poemas. O conjunto de Les fleurs du mal, de Baudelaire, totaliza somente 167 poemas, e nele está tudo o que o autor escreveu em verso, se aqui desprezarmos sua irrelevante Juvenília. E é pequena, também, a obra poética de Valéry, o mais ilustre dos discípulos de Mallarmé. Pequena, entre nós, é a obra fundamental de Dante Milano, que morreu aos 91 anos de idade e nos deixou uma exígua produção de 141 poemas. Esse Dante Milano que Drummond, ao fim da vida, considerava o maior dentre todos os poetas brasileiros do século passado. E se os cito aqui, é porque todos encarnam essa poética do pouco, que teria a coroá-la aquele juízo do poeta expressionista alemão Gottfried Benn, segundo quem o que de fato permanece para sempre de cada grande poeta não chega a oito ou dez poemas dignos desse nome.

Não quero dizer com isto que esse reducionismo seja, necessariamente, sinônimo de qualidade estética: pode-se escrever pouco e, ainda assim, escrever mal. O que quero dizer é que, quando se trata de um grande e verdadeiro poeta, essa avarícia equivalerá, quase inevitavelmente, a um salutar exercício de concentração intelectual que tende a expurgar o que não presta. E é isto o que vemos desde o vosso primeiro livro, onde já se lê muita poesia que merece esse nome, sobretudo, por exemplo, no poema que dedicais a João Cabral de Melo Neto e naquele que leva o título de “Onde este fardo molhava”, cujos versos aparecem algo modificados (vale dizer: reduzidos) em Elementos. Não resisto aqui, muito a propósito, a transcrever os esplêndidos versos de sabor camoniano que abrem a terceira parte desse poema que nos recorda também certa ambiência que Jorge de Lima criou na Invenção de Orfeu:

E olhamos a ilha assinalada
pelo gosto de abril que o mar trazia
e galgamos nosso sono sobre a areia

num barco só de vento e maresia.
Depois, foi a terra. E na terra construída
Erguemos nosso tempo de água e de partida.

Sonoras gaivotas a domar luzes bravias
em nós recriam a matéria de seu canto,
e nessas asas se esparrama nossa glória,

de um amor anterior a todo estio,
de um amor anterior a toda história.

Dizem alguns que vossa poesia paga tributo à sintaxe desértica de João Cabral. Por mais que essa dívida fosse algo previsível, já que mergulhastes mais fundo do que ninguém nas vísceras do verso cabralino, não vemos dela qualquer indício em vossos poemas, já que soubestes vos manter incólume ao jugo dessa influência, à qual, diga-se logo, sucumbiram incontáveis epígonos do autor de Uma faca só lâmina. É que não se deve confundir a poesia do menos com a poética do pouco, muito embora sejam ambas quase tangenciais. E mais: há que se entender que os processos verbais de João Cabral e os vossos são inteiramente distintos. A poesia daquele primeiro é essencialmente visual e guarda poucas relações com aquilo que poderíamos definir como a música da língua, com essa melopéia que nos vem desde Camões e Sá de Miranda e que entranha boa parte de vossos versos, nos quais a todo instante aflora a chamada índole da língua, como o vemos, de forma cabal, na primeira estrofe do poema “Vou armar as margens dessas lendas”, na qual se lê:

Vou armar as margens dessas lendas
alugadas pela garra da alegria.
Sobre o cimo de uma voz zombada
Avisto o nada, e meu avesso me recria.

E surpreende até que assim o seja, pois quem freqüenta a poesia de João Cabral – ou, mais grave ainda, quem a estuda a fundo, como o fizestes – , conhece como ninguém o seu fundo e insidioso poder de contaminação estilística. Conviver com essa poesia, sobretudo quando se é poeta, é como anular-se na fímbria de um sortilégio que se quer impor e imprimir seu estigma sobre tudo o que porventura medre ao seu redor. Penso que todos nós já corremos esse risco, e alguns foram por ele devorados. Estranhamente, não o fostes. E é possível, neste caso, que nos devais uma explicação. De nossa parte, arriscamos aqui um paradoxo: talvez justamente por conviverdes à exaustão com a poesia de João Cabral é que pudestes vos furtar ao seu traiçoeiro fascínio.

Depois de Ária de estação e de Elementos, somente retornastes à poesia publicada em 1988, e, ainda assim, de raspão. Ou en passant, como sugere o título de uma plaquete que vos reuniu apenas oito poemas e que leva o título de Diga-se de passagem. É bem de ver aí vossa preocupação metalingüística, já que quatro desses oito poemas de algum modo a ilustram, conquanto em dois deles, “Notícia do poeta” e “Remorso”, predominem antes o humor e o sarcasmo antiparnasianos, como naquele segundo, onde se lê: “A poesia está morta. /Discretamente, Alberto de Oliveira volta ao local do crime.” Interessa-nos mais de perto, entretanto, o primeiro poema do livro: “Biografia”. É que sua primeira estrofe proclama uma poética que jamais poderia ser endossada pela raison raisonante que preside a poesia de João Cabral de Melo Neto:

O poema vai nascendo
num passo que desafia:
numa hora eu já o levo,
outra vez ele me guia.

No processo cabralino, o que se percebe é a mão tenaz e dominadora do poeta, de modo que o poema jamais o guia, sendo antes por ele controlado e mesmo subjugado. É claro que sobre esse assunto de precedências caberia aqui toda uma discussão que este breve discurso não comporta. O que quero deixar claro, mais uma vez, é que, embora haja analisado com rara acuidade a poética de João Cabral, é outra a matriz a partir da qual se articula o vosso processo poético, tal como o vemos, ainda em Diga-se de passagem, num belo poema veladamente metalingüístico que tem como título “Cintilações do mal”, cujas duas primeiras estrofes tomo aqui a liberdade de citar:

Cintilações do mal. Precipício de poemas,
travessia para um sol que vem de longe.
Minha sombra aparecendo na calçada
repentina feito a mão de um monge.

Enroladas nos panos da cama,
na malícia de serpente e lã,
dormem as mulheres que não tive
na delícia vermelha da maçã.

Vejam bem que, neste caso, o tom seria antes bandeiriano do que cabralino. Ou mesmo eliotiano, se nos lembrarmos daqueles “Preludes” que constam de Prufrock and Other Observations. E isso atesta aquilo que costumo chamar de boa formação poética. Em outras palavras: quanto mais influências ou pontos de tangência, tanto melhor para a saúde literária de qualquer autor.

Os poemas até então inéditos que, juntamente com os que já se encontravam publicados, reunistes em Todos os ventos vos confirmam todas as anteriores virtudes, além de acrescentar-lhes outras. Assim, paralelamente ao domínio cabal da língua e da linguagem poética, assiste-se ao vosso amadurecimento como artista, essa maturidade que não se deve apenas a uma conquista do espírito e da alma, mas também a uma refinada educação sentimental, como nos sugere o romance de Gustave Flaubert. Percebe-se nesses poemas que renunciastes a qualquer artifício verbal ou pompa estilística, o que os leva àquela difícil comunhão entre o que e o como da expressão poética. Não há neles nem sobras nem arestas: são apenas exatos, como exatas são a vida e a morte. Sua música weberiana já não mais recorre àqueles traiçoeiros e amiúde fáceis artifícios da paronomásia ou da aliteração. Nota-se ainda que vossa poesia se avizinha cada vez mais daquela concepção wordsworthiana segundo a qual o fenômeno poético poderia ser entendido como uma “emotion recollected in tranquility”. É pelo menos isto o que comprovam pelo menos dois dos “Dez sonetos da circunstância”, cuja pompa é nenhuma e cuja poesia é absoluta. Assinale-se em ambos o misterioso estigma de um tempo que passou e deixou suas marcas, essas marcas que devem aqui ser compreendidas como uma “busca do tempo perdido”, na qual o ser humano se redescobre porque alcança a dimensão estética do tempo, como no ápice do romance proustiano. Nesse sentido, é exemplar o primeiro quarteto do soneto “O menino se admira”, no qual se lê:

O menino se admira no retrato
e vê-se velho ao ver-se novo na moldura.
É que o tempo, com seu fio mais delgado,
no rosto em branco já bordou sua nervura.

Há também nesses poemas uma vertente a que jamais renunciastes: a do humor. Se é verdade que ela aflora mais intensamente em vossos ensaios críticos, nem por isso podemos desconsiderar sua existência desde os primeiros textos poéticos que escrevestes. Essa “rebelião do espírito contra a miséria da nossa condição”, como escreveu certa vez Aníbal Machado a propósito do humor, faz-se visível em dois de vossos últimos poemas: aquele em que explorais um breve episódio das peregrinações azevedianas, quando o grande poeta romântico cumpre certa visita no Catumbi; e um outro em que confessais não poder vos dar “em espetáculo”, pois “a platéia toda fugiria/ antes mesmo do segundo ato”. Não bastasse essa fuga, teríeis ainda contra vós um crítico que, “maldizendo a sua sina/ rosnaria feroz/ contra a minha verve/ sibilina”. Mas é antes fina do que sibilina a verve com que descreveis a tal visita de Álvares de Azevedo naquele primeiro poema, cujos últimos versos dizem:

Ao sair, deixa de lembrança
ao sono cego do parceiro
dois poemas, um cachimbo e um estilo.
 
Sim, um estilo. E eis aqui uma das chaves, se não a principal, para que possamos entender não apenas a vossa poesia, mas também a prosa e o ensaísmo que escreveis. Esse estilo austero e de poucas palavras que cultivais em vossa linguagem poética e que não se pode dissociar daquele que ilumina vossos textos ensaísticos, nos quais, como sublinha Antônio Houaiss, “há um lastro preciso de elegâncias (na linguagem, nas imagens, no encaminhamento das idéias, no respeito ao leitor, no pudor para com os criticados). Esse estilo, remata ainda Sérgio Paulo Rouanet, que “mantém uma misteriosa afinidade” com a “matéria poética que trabalha”. Refiro-me aqui a tais circunstâncias porque é amiúde importante, para compreendermos a poesia de determinados autores, que lhe examinemos mais de perto a prosa estético-doutrinária que nos legaram. É isso, por exemplo, o que acontece com Horácio, Boileau, Coleridge, Baudelaire, Valéry, Eliot, Leopardi, Paz, Borges e tantos outros cuja crítica literária tem a iluminá-la a condição de poetas que sempre foram. E mais crucial ainda do que todas essas ponderações que faço aqui para vos compreender melhor o estro poético seja talvez esmiuçar-vos o próprio pensamento doutrinário a respeito do assunto, ou seja, o que entendeis por poesia.

No ensaio “Poesia e desordem”, que abre vossa penúltima coletânea de escritos sobre poesia e alguma prosa, dizeis que “a poesia não pretende ser o espelho do caos, hipótese em que, ausente qualquer padrão de reconhecimento, tudo, isto é, nada, seria poético.” É ainda nesse ensaio  que nos esclareceis quanto à vossa própria concepção do fenômeno poético quando sustentais que “a poesia representa a fulguração  da desordem, o ‘mau caminho’ do bom senso, o sangramento inestancável do corpo da linguagem, não prometendo nada além de rituais para Deus nenhum”. Ou seja, o ato poético, como o compreendeis, seria uma espécie de “desordem sob controle”. E argumentais que, nessa perspectiva, “a poesia poderia ser também encarada como uma espécie de grande metáfora da língua, um discurso que, simulando ser a imagem do outro, já que dele utiliza as palavras e a sintaxe, acaba produzindo objetos que desregulam o modo operacional e previsível da matriz”. E como que para confirmar vossa atitude exegética dizeis ao fim do segundo ensaio do volume: “Por isso, desconfio da crítica que escamoteia, por pudor epistemiológico, sua condição de navegante à deriva do texto, na busca infatigável da invenção do sentido.”

Temos aqui, efetivamente, o que sois ou, na pior das hipóteses, o que vossa escolha estética nos leva a crer o que sejais: um poeta de poetas e um crítico de poetas. E não apenas vossa poesia como também vossa prosa o atestam. E há nessa mesma poesia um dado que talvez a explique melhor. Aludo aqui a uma breve e concisa inscrição a partir da qual se articula vossa meditação pré-socrática sobre aqueles quatro elementos que serviram de base à especulação filosófica dos primeiros pensadores daquela colônia grega de Mileto, na Ásia Menor:

O real é miragem consentida,
engrenagem  da voragem,
língua  iludida da linguagem
contra a sombra que não peço.
O real é meu excesso.

É graças a esta inscrição, verdadeira declaração de princípios poéticos, que se pode começar a entender o vosso pensamento sempre avesso à evanescência da música simbolista ou à fantasmagoria da ilusão romântica. Vossa preocupação é antes com a palavra concreta, e não com o vazio de um “signo precário”. Em certa medida, reagis contra aquele esforço no sentido de dizer o indizível que caracteriza quase toda a poesia rilkiana. E não creio que assim o seja apenas por influência da dura e áspera sintaxe cabralina, mas por algo que já preexistia em vós, quer como crença estética, quer mesmo como desígnio poético, ao vosso monumental estudo sobre João Cabral de Melo Neto. É que supomos que essa aproximação com a poesia do autor de Pedra do sono resultaria antes de uma goethiana afinidade eletiva. A mesma, por exemplo, que levou Baudelaire a difundir na França o Poetic Principle de Edgar Allan Poe e a traduzir-lhe para o francês quase toda a obra ficcional. E no que toca a essa vossa obsessão pela visibilidade concreta do signo poético ou à vossa desconfiança com relação a tudo o que não seja emocionalmente tangível, se aqui não me derem ouvidos, não os façam moucos para o que escrevestes no primeiro poemas de Elementos:

Palavra,
nave da navalha,
gume da gaiola,
ave do visível.

Se me permitem os confrades e os amigos que vieram aqui esta noite para vos saudar e aplaudir, gostaria de dizer ainda algumas poucas palavras sobre Todos os ventos, volume em que reunistes toda a vossa poesia, pois é nele que melhor se pode observar a cristalização de todos esses processos estilísticos e verbais a que já aludi, como o atestam, muito particularmente, aqueles modelares “Dez sonetos da circunstância”. E se digo modelares, faço-o apenas porque neles não se percebem aquelas fraturas e fissuras que nos levam às vezes a concluir que se rompeu a indissolúvel comunhão entre forma e fundo, como se vê amiúde nos poemas dos autores que não alcançaram ainda a sua maturidade. Nesses sonetos, ao contrário, vemos confirmada aquela concepção de que forma e fundo são uma coisa só, tamanho e tão íntimo se revela o matrimônio entre o que se quis dizer e o que efetivamente se disse. É de tal modo austera e solene a vossa linguagem que, em seu prefácio ao livro, Eduardo Portella nos assegura que nele estão “todos os ventos e nenhum vendaval”, exceto “a serena percepção do precipício, esse núcleo tenso e intenso que promove a dispersão e a coesão”. Outro ilustre acadêmico e astucioso crítico literário, Alfredo Bosi, sustenta que, em Todos os ventos, lograstes “alcançar o nível raro da expressão singular, forte e desempenada”, e logo em seguida se refere aos “belos sonetos ingleses” de que há pouco me ocupei. E reservo-me aqui, por uma questão de estima pessoal, o direito de escolher apenas um desses dez soberbos sonetos, aquele que me dedicais e que leva o título de “À noite o giro cego”. Nele dizeis:

À noite o giro cego das estrelas,
errante arquitetura do vazio,
desperta no meu sonho a dor distante
de um mundo todo negro e todo frio.

Em vão levanto a mão, e o pesadelo
de um cosmo conspirando contra a vida
me desterra no meio de um deserto
onde trancaram a porta de saída.

Em surdina se lançam para o abismo
nuvens inúteis, ondas bailarinas,
relâmpagos, promessas e presságios,

sopro vácuo da voz frente à neblina.
E em meio a nós escorre sorrateira
a canção da matéria e da ruína.

Pouco depois, em 2003, haveríeis de nos brindar com outra coletânea de ensaios críticos: Escritos sobre prosa & alguma ficção. E mais uma vez comprovastes aquela exigência baudelariana de que, se formos poetas verdadeiros, haveremos de sê-lo também em prosa. Disse-o depois Fernando Pessoa, quando afirmou que somente os poetas são capazes de escrever boa prosa. E disse-o também Alceu Amoroso Lima ao sublinhar que “todo grande poeta é um grande crítico, como todo grande crítico é um poeta, ou em perspectiva ou em ação”. É vasta e complexa a matéria de que vos ocupais nestas páginas, que reúnem ensaios, estudos críticos, conferências, palestras, prefácios, textos jornalísticos e comunicações universitárias sobre alguns dos mais insignes escritores brasileiros, entre os quais se incluem Machado de Assis, Álvares de Azevedo, Castro Alves, Cruz e Sousa, Jorge de Lima, Murilo Mendes, Cecília Meireles, Raul Bopp, João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade, além de vários outros autores contemporâneos. E não esqueçamos aqui os assuntos temáticos que foram objeto de vossa argúcia, como é o caso da poesia que se produziu entre nós durante o Romantismo, o Simbolismo, o Parnasianismo e o Modernismo.

Como sempre, vossa crítica literária encontra-se instrumentada não apenas por um “esplêndido domínio verbal”, como certa vez observou Antônio Houaiss, mas também pelo pleno conhecimento que tendes da matéria de que tratais, virtudes a que se soma um outro tempero: o do humor. Não surpreende, portanto, que esses textos de crítica tenham sido louvados por alguns dos mais lúcidos e exigentes ensaístas brasileiros, como José Guilherme Merquior, Sérgio Paulo Rouanet, Benedito Nunes, José Paulo Paes, Alfredo Bosi, Ivo Barbieri, Miguel Sanches Neto e Eduardo Portella, que certa vez disse de vós: “Além do mais, em Secchin convivem, dentro das mais harmoniosas regras de convivência, o poeta e o crítico”. E logo depois remata: “Secchin é poeta não só porque escreve poemas convincentes, mas porque o seu ensaio se nutre da relação fundadora com a palavra.” E eis aí confirmados aqueles conceitos tão caros a Baudelaire, a Fernando Pessoa e a Alceu Amoroso Lima.

Senhores acadêmicos, esta é uma Casa de autores e livros, na feliz expressão de Múcio Leão, tanto assim que hoje dispõe de duas opulentas e seletas bibliotecas: a Biblioteca Acadêmica e a Biblioteca Rodolfo Garcia, que reúnem cerca de 150 mil volumes e cujos acervos incluem incontáveis raridades bibliográficas que demandam o zelo de todos aqueles que amam o livro. Ao elegermos Antonio Carlos Secchin, elegemos também um dos maiores e mais obsessivos bibliófilos brasileiros. Curioso, pertinaz, maníaco, ciumento e detetivesco como todos os de sua espécie, fostes capaz, entre outras notáveis proezas, de recuperar toda a poesia de Júlio Salusse, dada como perdida, mas afinal resgatada por vós num caderno manuscrito adquirido em sebo e depois publicado nos Anais da Biblioteca Nacional. Não contente com tal façanha, reunistes a obra completa do poeta simbolista Mário Pederneiras, que será em breve reeditada pela Academia Brasileira de Letras, e conseguistes ainda descobrir o derradeiro exemplar do livro Espectros, que assinala a estréia de Cecília Meireles, em 1919, e cujo total desaparecimento era um desafio para bibliófilos, pesquisadores e leitores. E o encontrastes a tempo de incluí-lo na monumental edição do centenário de nascimento da autora, que organizastes em 2001 para a Editora Nova Fronteira.

Autor do já clássico Guia dos sebos, do qual há pouco se deu a lume a 4ª edição revista e aumentada, e que mapeia de forma cabal e exaustiva as velhas lojas dos alfarrabistas do Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Brasília, Goiânia, Fortaleza, Curitiba, Maceió, Manaus, Natal, Porto Alegre e São Luís do Maranhão, sois hoje, talvez, o mais aplicado e tenaz guardião de nossas jóias bibliográficas, o que decerto muito convém à Casa de Machado de Assis e à preservação de seu riquíssimo acervo. Em vossas mãos – e sob vossa obsidiante e zelosa tutela – todo esse tesouro estará mais bem guardado do que nunca.

Sr. Antonio Carlos Secchin – o poeta, o ensaísta, o crítico literário, o bibliófilo, o mestre exemplar de nossa literatura – sede bem-vindo ao nosso convívio, que, como sabeis, se estenderá para o resto dos tempos. Per omnia seculae seculorum, diz a surrada, e talvez por isso mesmo verdadeira, expressão latina. Esta é a Casa que o tempo escolheu para erguer a sua morada, que é também a do ser que se resolve em palavras. É nela que havereis de conquistar aquele tempo que, como diz o poeta, somente através do tempo será conquistado. A isto chamamos memória: a dos que já se foram e ainda dóem em nós como eternas cicatrizes, e a dos que, como vós, lograram transpor a soleira da imortalidade. Sede bem-vindo.