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O Centenário da Academia

Texto de autoria do Acadêmico Josué Montello

A Academia Brasileira de Letras chega neste momento ao patamar de seu primeiro centenário, exemplarmente fiel a si mesma. Para isso nada mais fez do que seguir a lição suprema que também nos legou Machado de Assis com seu próprio exemplo.

No discurso de instalação da Academia, mestre Joaquim Nabuco, na condição de secretário-geral, teve a oportunidade de reconhecer mostrando-nos o caminho que explicaria nossa sobrevivência: “Eu confio que sentiremos todo o prazer de concordarmos em discordar; essa desinteligência inicial é a condição de nossa utilidade, o que nos preservará da uniformidade acadêmica.” E logo acrescentou: “Mas o desacordo tem também o seu limite, sem o que começaríamos logo por uma dissidência.”

O próprio Machado de Assis, já na presidência, ilustrou a lição de Nabuco com seu exemplo. Assim, ao tomar conhecimento, no mesmo ano da fundação da Academia, do livro veemente e injusto em que Sílvio Romero o lapidava, negando-lhe os méritos de poeta e prosador, limitou-se a este comentário, em carta a Magalhães de  Azeredo: “De notícias publicadas vejo que o autor foi injusto comigo. A afirmação do livro é que nada valho. Dizendo que foi injusto comigo não exprimo conclusão minha, mas a própria afirmação dos outros; e eu sou suspeito. O que parece é que me espanca. Enfim, é preciso que quando os amigos fazem um triunfo à gente (leia esta palavra em sentido modesto) haja alguém que nos ensine a virtude da humildade.”

E foi adiante o nosso primeiro presidente. Ao ser eleito Euclides da Cunha, designou exatamente Sílvio Romero para receber o novo confrade, em nome da Academia.

Daí a perenidade desta instituição. E foi exatamente essa a lição que seguiram os sucessivos responsáveis pelo comando da instituição, notadamente nas ocasiões em que novamente ardeu Tróia, reclamando nossa serenidade e paciência.  Digo isto com a autoridade de quem teve os seus desencontros, e os superou, e os venceu, para que nos reencontrássemos, logo a seguir, fiéis aos objetivos fundamentais de nossa instituição.

Em 13 de dezembro de 1985, em Paris, na dedicatória manuscrita de seu livro sobre a Academia Francesa, La vieille dame du Quai Conti, assim chamada por completar então trezentos e cinqüenta anos de vida gloriosa, o duque de Castries teve a oportunidade de advertir-me que a Academia Brasileira de Letras, que ainda não havia alcançado cem anos, estaria ainda em plena juventude. Agora, pelo visto, com um século de existência, já terá os seus primeiros cabelos brancos, e sempre bem-comportada.

Nélida Piñon, nossa presidente, chegou na hora própria para nos congregar, nas festas do centenário acadêmico. Eu, que primeiro fui buscá-la para que compusesse a diretoria que eu tinha a honra de presidir, transmiti-lhe, por minha vez, a sugestão da paciência e da comunhão fraterna, que ela tem sabido aprimorar com a sua cordialidade e a sua competência. E estou certo de que, ao acender as luzes do Petit Trianon, que tive a honra de repor na sua beleza e na sua imponência inaugural, será a dona da casa inexcedível na arte de bem acolher os nossos convidados, festejando com seus confrades o primeiro centenário da Casa de Machado de Assis.

In: Academia Brasileira de Letras 100 anos (1897 - 1997)