Portuguese English French German Italian Russian Spanish
Início > Artigos > Votos e ex-votos

Votos e ex-votos

 

Às vésperas do Natal, costumamos fazer votos de Boas Festas e Feliz Ano Novo, mutuamente nos desejando coisas agradáveis. Ao visitar um amigo doente, apresentamos votos de pronto restabelecimento. Voto é a manifestação de um desejo. Um dia antes das eleições, faço meus votos de que muitos votem. Em outras palavras: desejo que muitos desejem. Mais ainda: que acreditem em seus desejos o suficiente para tentar contribuir, ao menos um pouquinho, para que se realizem — entrando na fila da seção eleitoral, digitando os algarismos correspondentes aos candidatos escolhidos e confirmando com um aperto de botão.

A esta altura, a maioria dos eleitores já ouviu, leu, pensou, decidiu em quem vai votar. Mas há sempre alguns dispostos a votar em branco, anular o voto ou apenas atender ao pedido de alguém. A cada um desses faço meu apelo: não desperdice sua oportunidade de escolha. O seu gesto ao votar vai se somar a milhões de outros gestos iguais e ajudar a determinar o que será de todos nós. Não se omita.

Hoje temos milhões de eleitores no Brasil. Mas essa realidade é muito recente. No Império, até 1870, o voto era indireto: votantes elegiam eleitores que elegiam deputados e senadores. A divisão era de acordo com a renda. Nem escravos nem mulheres podiam votar. Analfabetos, sim, se tivessem renda. O eleitorado representava 10% da população. Em 1881, uma mudança passou a exigir comprovação de renda e de alfabetização: apenas 1% da população passou a votar. A porcentagem, por si só, atesta o privilégio absoluto de quem tinha esse direito.

Não é o caso de acompanhar as lentas conquistas da legislação eleitoral na República. Todas foram resultado de lutas insistentes. As mulheres passaram a poder votar em 1932 — desde que fossem casadas e o marido autorizasse. Ou, se solteiras ou viúvas, se tivessem renda própria. Direitos iguais, só em 1946. E estamos bem na foto porque, em países europeus como Suíça e Portugal, tais direitos só vieram na década de 1970. Mas, de 1930 a 1945, no período Vargas, a população nunca votou para presidente. Primeiro, Vargas recebeu o poder dos militares em 1930. Depois, em 1934, foi mantido pelo voto de cerca de 200 parlamentares, em eleição indireta. Suspendeu as eleições previstas para 1938 e 1942 e ficou no poder até ser deposto em 1945.

Faço parte de uma geração nascida nesse longo tempo sem eleições gerais para presidente. Depois, quando tive idade para votar, novamente vivi um período sem ter a chance de escolher quem queria para presidir o país, entre 1964 e 1989. Entre cassações e proibições, podíamos votar apenas para outros cargos — desde que escolhêssemos entre os candidatos permitidos, de partidos tolerados, com regras limitadoras. Votávamos dentro desse universo restrito, que jeito? E, a cada vez, nos aproximávamos mais da possibilidade de uma escolha mais ampla. Não era a única forma de resistir ao regime militar. Mas era uma entre outras, e não havia por que abrir mão dela. Queríamos mais. Fizemos campanha pela anistia ampla, geral e irrestrita, que permitiu a volta dos exilados. E fizemos campanha pelas Diretas Já, a fim de poder votar para presidente. As conquistas foram lentas, gradativas. Mas hoje temos um eleitorado que se conta entre os maiores do mundo. Votam mulheres, analfabetos, maiores de 16 anos.

Depois de tudo isso, dá pena ouvir que alguém se prepara para jogar tudo isso no lixo e votar nulo. Desculpem, mas me parece que sempre dá para escolher alguém. Se o eleitor não tem certeza, pode até ser um sintoma positivo, sinal de vontade de refletir e pesar bem os diversos fatores. O país já anda sendo vítima de certezas demais, certezas intransigentes e inflamadas que nos dividem entre super-heróis e seres desprezíveis só porque pensam diferente — no futebol, na religião, na política, nas mídias sociais. A dúvida pode ser boa conselheira. A memória e a informação também. Podem até permitir que um eleitor que queira protestar da maneira mais ampla contra tudo o que aí está encontre algum candidato com essa mesma opinião. Até mesmo para presidente. O que não falta é diversidade de propostas. Agora é hora de escolher.

Eleição não é corrida de cavalos. Não é preciso apostar no que vai ganhar. O que importa é votar, manifestar o desejo cívico que mais nos represente. Da soma desses desejos sairá nosso futuro, incluindo a eventual força opositora de perdedores. Votar branco ou nulo não é protestar. É entregar a decisão aos outros, abrir mão de uma conquista.

Em santuários de milagreiros, salas de ex-votos atestam a fé de quem desejou com força. Antes que passem as eleições e nosso voto vire ex-voto num universo de promessas, lembremos que ele é uma forma de assumir a responsabilidade pelo que vier a nos acontecer. Não vai ser culpa dos políticos. Vai ser a soma dos que votamos.

O Globo, 04/10/2014