Portuguese English French German Italian Russian Spanish
Início > Artigos > Um Estado Islâmico para ficar

Um Estado Islâmico para ficar

 

Ao contrário da primeira expectativa, as últimas semanas só estão confirmando o avanço e o assento territorial do Estado Islâmico, estendido, agora, à cidade-chave de Palmira, já no próprio eixo da Síria. Trava-se, ao mesmo tempo, a cruzada proposta por Obama, em conjunto com os Estados europeus, quanto ao esmagamento irredutível do "Estado" terrorista. Ainda dentro da segurança de sua erradicação e da torna ao equilíbrio internacional de todo o Oriente Médio, Obama acaba de reiterar, com datas certas, a retirada das tropas do Iraque e do Afeganistão, na réplica contundente ao expansionismo do governo Bush. 

Washington ainda acredita, entretanto, na possibilidade de uma fissura maior do Isis, no confronto entre sunitas e xiitas, apoiados no contraponto entre a Arábia Saudita e o Irã. Muito da aproximação com o Estado persa liga-se, agora, ao possível cantonamento do avanço a leste dos milicianos de Abu Bakr, e do definitivo assento territorial do Estado Islâmico. 

Da mesma forma, a posição antifundamentalista de parte de Estados árabes-chave, como o Egito, vem de condenar à pena de morte o ex-presidente Mursi, trazido ao poder por toda a força da Irmandade Muçulmana. Mas, já a prazo, com vistas à próxima eleição americana, torna-se cada vez mais remoto o prognóstico de vitória de Hillary pelos Democratas, frente ao fortalecimento republicano, onde desponta a candidatura de Jeb Bush, com a possível terceira chegada ao poder da família-sím-bolo do conservadorismo americano. E o presságio, de logo, avulta do que seja uma associação de Washington com toda a onda da direita europeia, em que o ganho nítido, ainda que inesperado, de Cameron, na Inglaterra, terá como sequência mais provável o sucesso de Marine Le Pen, em Paris. 

Esse cenário, em todo o seu presságio, na sua possível fatalidade, tem, em contracampo, partidos de esquerda saídos quase do anonimato, para um alinhamento político à vista dos riscos a longo prazo dessa Europa assediada pelo fundamentalismo. O novo cenário global torna obsoletas quaisquer novas visões clássicas de uma guerra fria. Mas para atingir de vez, e globalmente, os cenários da modernidade em função do conservadorismo irrompido no Primeiro Mundo, frente às garantias históricas da democracia e do assento dos Direitos Humanos. 

Jornal do Commercio (RJ), 04/06/2015