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Pobre plantinha tenra

Ainda que já seja um clichê, não deixa de ser exata a imagem de Otavio Mangabeira que compara a democracia a uma planta tenra que precisa ser regada e cuidada sempre, sob o risco de não sobreviver. Os acontecimentos recentes só vêm lhe dar razão. Exigem cuidados redobrados por parte de cada um de nós.

Os executores de Marielle Franco sabiam exatamente para onde apontavam as armas e quem estava na mosca de seu alvo, ainda que Anderson Gomes tenha sido uma vítima eventual. Conheciam o valor de símbolo da vereadora, mulher, jovem, socialista, mestiça, gay, criada em favela, intelectualmente bem formada, ativista incansável, líder em ascensão na oposição, com todos os atributos icônicos que representavam a soma de tudo o que odeiam e querem eliminar. Os assassinos só não sabiam quanto era poderoso esse valor simbólico e quanto representava a soma de tudo isso ao mesmo tempo. Nem imaginavam a comoção que sua morte iria despertar. Nem mesmo seus seguidores mais próximos tiveram consciência disso no impacto do primeiro momento, quando afirmaram que os tiros foram contra seus 46 mil eleitores. Só aos poucos se foi percebendo que os disparos miravam muito mais que isso, mais que todos os eleitores brasileiros juntos, mais que a consciência de justiça de quem protestou pelo planeta afora. O alvo foi a própria democracia.

É disso que se trata nesse tipo de crime de intimidação: dar uma lição a quem acha que pode enfrentar o poder da força bruta. Na grande tradição histórica dos assassinatos políticos pelo mundo afora, de Abraham Lincoln a Gandhi ou Martin Luther King. Ou, no Brasil, nos tantos crimes chocantes que a cada vez dão a sensação de que serão um ponto de virada, marcando que não se pode admitir mais nada semelhante, que desta vez foi demais, que as coisas agora vão ter de mudar. Só que não mudam — como mostram as sucessivas lembranças das chacinas da Candelária e de Acari, do massacre de Carajás, e de exemplos acumulados de barbárie, como os assassinatos do seringueiro Chico Mendes, da missionária Dorothy Stang, da juíza Patricia Acioli, do jornalista Tim Lopes e tantos outros.

Depois da queda, coice — diz a sabedoria popular. Pois coice foi o que não faltou, logo após a execução. Proliferaram na internet as acusações e notícias falsas contra Marielle, numa campanha difamatória criminosa. Tudo parte de um mesmo esquema para eliminação do adversário a qualquer custo, mesmo que para isso se tenha que recorrer à violência e à mentira. O alvo é sempre a democracia.

O país está vendo essas práticas em ação há bastante tempo. No caso de fake news e propaganda política enganosa, isso se demonstra com clareza desde a campanha eleitoral de 2016. Agora, internacionalmente, com o escândalo que envolve Facebook, Cambridge Analytica e outras empresas, confirma-se como as plataformas digitais não têm sido confiáveis, misturando opinião com supostas informações, mentiras com verdades, calúnias com fatos. Comprova-se o que já dava sinais — a atuação de grupos organizados no pleito que levou Trump ao poder, na influência da Rússia em eleições alheias, na vitória do Brexit a enfraquecer a Europa. A democracia não tem sido capaz de criar mecanismos de controle, regulamentação e defesa contra essas práticas. Justamente por serem democráticos, os sistemas atingidos zelam pela liberdade de expressão e pela garantia dos direitos individuais, e se mostram lentos nas medidas exigidas pela proteção à sua própria sobrevivência.

Além do mais, às vezes cidadãos bem intencionados, mas sem malícia política, acabam funcionando como linha auxiliar desses ataques, ao menos por colaborarem para essa confusão antidemocrática. Quantos de nós atentamos para os sinais dados nos dias anteriores à execução de Marielle quando, na Vila Kennedy, diariamente o Exército derrubava barricadas para que o poder público pudesse entrar com serviços, e toda noite as barricadas eram erguidas novamente em flagrante desafio? Quantos percebemos que a prefeitura, até então ausente, fez questão de se valer desse confronto e enviar máquinas a fim de derrubar quiosques erguidos há décadas por moradores da comunidade? Quantos distinguimos ali o recado dos bandidos a dizer “quem manda aqui sou eu”, a provocação e a manobra para jogar a população contra a intervenção? Quantos só vimos tarde demais a comprovação de quem mandava mesmo, diante do assassinato da vereadora? Quantos, depois disso, ainda repetiram automaticamente que a culpa toda é da intervenção e do Temer? A quem ajuda esse desvio de foco?

Como se não bastasse, o STF ainda se desgasta com esse vergonhoso espetáculo dos últimos dias, reforçando na sociedade a sensação de que poderoso fica impune, a lei não é para todos, e a desigualdade encontra respaldo na Justiça — com uma força simbólica que não se via desde que, em 1973, se criou a Lei Fleury especialmente para impedir um delegado torturador de ser preso após condenação em segunda instância.

A pobre plantinha tenra pede socorro.

O Globo, 31/03/2018