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Acervo de uma vida

Manuscritos e objetos pessoais de Rachel de Queiroz ganham Memorial no Instituto Cultural José Augusto Bezerra

Délio Rocha
Repórter

O acervo do novo Memorial é valioso. Inclui originais do romance “Caminhos de Pedras” (1937), obras da cearense editadas em outras línguas e até um livro nunca publicado, escrito por uma jovem Rachel de Queiroz que se escondia sob o pseudônimo de Rita de Queluz. Também fazem parte do acervo uma antiga edição de “Flos Sanctorum”, livro dos santos da Igreja Católica responsável pelo debutar de Rachel no mundo da leitura, além de troféus, medalhas, diplomas, objetos pessoais e cerca de 200 fotografias que mostram a escritora em diversas fases da vida.

Uma rede, bordada com o nome de Rachel de Queiroz, figura entre as curiosidades do acervo. Tudo está sendo catalogado, fotografado, algumas peças restauradas e o que é mais relevante selecionado. O acervo que irá compor o Memorial Rachel de Queiroz foi doado para o bibliófilo José Augusto Bezerra, no final de 2007, pela irmã da escritora, Maria Luiza. “Este material veio do Rio de Janeiro e está em minhas mãos desde novembro do ano passado. Agora, tenho o dever de restaurar e deixar a coisa bonitinha para preservar a memória desta grande brasileira, que é uma das maiores expressões culturais do século XX”, avalia Bezerra.

O Memorial vai funcionar dentro do Instituto Cultural José Augusto Bezerra. Quando estiver pronto, ainda este ano, o espaço será aberto, inicialmente, só para historiadores e pesquisadores da obra de Rachel de Queiroz.

“São necessários alguns cuidados com o manuseio deste material. Por isso, a gente vai fazer algumas restrições no acesso. A Maria Luiza doou o acervo na certeza de que estaria em boas mãos, já que sou um amante dos livros, um colecionador de cultura, que tem a dimensão do valor deste material”, explica Bezerra, que é presidente da Associação Brasileira dos Bibliófilos e do Instituto do Ceará.

Acervo na internet

Paralelamente ao trabalho de catalogação, está sendo criado um site para abrigar, na Internet, uma versão virtual do Memorial. “É para que todos tenham acesso ao rico acervo. Será o site da Rachel de Queiroz, que também poderá receber outros documentos que não fazem parte do Memorial, mas que sejam de relevância para as pesquisas sobre a escritora cearense”, informa. Segundo o bibliófilo, o site estará em pleno funcionamento ainda este ano. “Tenho certeza de que vamos receber muitas consultas, de estudantes, professores, historiadores e de pessoas comuns, curiosas em conhecer um pouco mais Rachel de Queiroz”.

FIQUE POR DENTRO

Escritora cearense foi a primeira a entrar na ABL

Rachel de Queiroz tinha forte ligação com Quixadá - onde o pai foi Juiz de Direito -, mas a escritora nasceu em Fortaleza, em 17 de novembro de 1910. Aos cinco anos, já se arriscava a ler algumas páginas de “Ubirajara”, de José de Alencar. Com sete anos de idade, foi para o Rio de Janeiro, fugindo da seca cearense. As lembranças da grande seca de 1915 seriam, mais tarde, aproveitadas no seu livro de estréia, “O Quinze” (1930), romance de cunho social, que explora com
profunda realidade o drama da seca.

Entre suas principais obras, estão “As Três Marias” (1939) e “Memorial de Maria Moura” (1992), que virou minissérie na TV Globo. A escritora foi a primeira mulher a entrar para Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira número cinco, para a qual foi eleita em quatro de agosto de 1977. Rachel de Queiroz morreu no Rio de Janeiro, em quatro de novembro de 2003. Mesmo morando no Rio, costumava passar as férias no Ceará.

Diário do Nordeste (CE) 14/02/2008

15/02/2008 - Atualizada em 14/02/2008