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O bardo e nossa realidade

O economista Gustavo Franco, figura de relevo na execução do Plano Real, ex-presidente do Banco Central, é, e não apenas nas horas vagas, um Shakespeariano reconhecido por seus trabalhos que ligam o bardo de Avon à economia, e gosta de fazer paralelos das situações que retrata com os tempos atuais, e dos seus personagens com os nossos da política.  

 Escreveu diversos textos nessa linha, e, engajado no projeto do partido Novo, liderado pelo também economista João Amoedo, Franco fez, na recente campanha presidencial, palestras para os novos candidatos do partido intuindo conexões entre a política brasileira e seus protagonistas e situações e personagens encontradas nas peças de Shakespeare.  

 Quase sempre irônico, pela certeza de que a “progênie da humanidade”, como Samuel Johnson se referiu aos 987 personagens que habitam as 38 peças do cânone, está presente nelas, “nenhum tipo humano relevante, ou sentimento, ausente desta extraordinária população”. Muito menos de nossa historia política, sobretudo a recente, marcada tanto pela tragédia quanto pela comédia.  

 Para Gustavo Franco, a obra de Shakespeare, chamando de “o bardo de Avon”, repleta de intrigas, maquinações e também virtudes dos homens públicos, nos dá a sensação de que os enredos políticos do nosso noticiário não passam de variações empobrecidas sobre um vernáculo catalogado há cerca de 400 anos”. 

 Preocupado com “associações que possam levar intelectos perversos a enxergar calúnia ou injúria”, Franco adverte em um de seus textos que “o derramamento de sangue tem natureza apenas metafórica, e os assassinatos e outros crimes de personagens de ficção não devem ser tomados como homicídios literais, mas apenas simbólicos, exageros próprios do instinto, ou do subconsciente”. 

 Compara Fernando Henrique Cardoso a Hamlet, cuja “dúvida insolúvel” (ser ou não ser, eis a questão) considera “uma bela alegoria para os que precisam decidir”, imersos em hesitações caracteristicamente humanas, ou tucanas, ou petistas, diante das escolhas difíceis que se nos oferecem”.

  O senador José Serra, “um homem reconhecido pela sua ambição e pelos atropelamentos”, é comparado ao rei Ricardo III, lembrando que muitos acreditam que Shakespeare não faz justiça ao verdadeiro monarca. “Se ficássemos apenas com as olheiras e a calva, mantendo a vontade férrea, o intelecto penetrante, o olhar sereno e (nem sempre) condescendente, e também a extraordinária ambição que chamou a atenção de Tancredo Neves em 1989, teríamos José Serra como o Duque de Gloster (Gloucester), futuro Ricardo III”. 

 Gustavo Franco relembra a primeira aparição na terceira parte de Henrique VI (que, à distância, lembra a ele José Sarney ou Itamar Franco, homens em torno dos quais todos queriam governar), “ainda jovem e imaturo, quem sabe presidente da UNE, ou já deputado constituinte”. Presença já marcante, ele pergunta: “Mas como hei de chegar até a coroa?/ Há muitas vidas entre o alvo e eu”. 

 Gloster era o sétimo na linha de sucessão, e Serra passou a carreira lutando pela primazia de disputar o trono, o que conseguiu por duas vezes. O hoje deputado Aécio Neves, sem dúvida é do ramo ratifica Franco, “ não se discute sua nobre linhagem, mas não está pronto como Ricardo III”, analisa. Para Gustavo Franco, Aécio se parece com o Príncipe Hal, herdeiro indiscutível, destinado a se tornar o heróico Henrique V, vencer os franceses em Agincourt. 

 Aqui, um parênteses. Gustavo Franco não esconde sua admiração por João Amoedo, o criador do Partido Novo, que disputou a eleição presidencial em 2018, teve uma votação surpreendente e conseguiu fazer com que seu partido atingisse a cláusula de desempenho que permite que funcione plenamente no Congresso. Dá-lhe um tom heróico, comparando-o a Henrique V ao fazer a conclamação a seus seguidores na batalha de Agincourt. 

 Voltando a Aécio, ou Príncipe Hal, Gustavo Franco lembra que, aborrecido com a demora, com os imperativos do tempo, e com a obrigação de atingir uma maioridade ainda distante”, Hal, à espera de um destino glorioso, descreve Franco, passa seu tempo em farras intermináveis, pois é jovem, simpático e bem sucedido com o sexo oposto. (Amanhã, Lula, Bolsonaro, e outros menos votados)

O Globo, 06/04/2019