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A história em três caracteres

 

Amanhã é o dia 8/1. Todos os leitores sabem o que significa. Em três caracteres, voltam as cenas do 8 de janeiro de 2023, quando os bolsonaristas invadiram as sedes dos Três Poderes em Brasília e botaram literalmente para quebrar. Era a "festa da Selma", um código para a baderna que, supunha-se, faria as Forças Armadas intervirem para eternizar Bolsonaro no poder. É uma data que entrou para a nossa história, mas por pouco com outro sentido. Se Lula, recém-empossado, tivesse transferido aos militares o controle da capital, o 8/1 teria se convertido num novo 1º de abril —o de 1964, data que se arrastou por 21 anos.

Equivale nos EUA ao 1/6, o 6 de janeiro de 2022, quando os zumbis de Donald Trump tomaram o Capitólio para tentar melar a eleição que ele perdera. Lá também a imprensa usa os três caracteres para se referir ao assunto. Na verdade, foram os jornais americanos que consagraram o uso das datas numéricas, que permitem ganhar espaço nos títulos e manchetes e preenchê-lo com mais informação. No rádio, na televisão e na vida real, não se fala 8/1, claro, mas 8 de janeiro mesmo. A simples data já diz tudo.

Cada país tem datas que concentram uma saga. Para os franceses, é o 14 de julho, a Queda da Bastilha, em 1789. Para os portugueses, o 25 de abril, a Revolução dos Cravos, em 1974. Para os americanos, era principalmente o 4 de julho, sua Independência, em 1776. Mas agora, além do 6 de janeiro, eles têm também o 9/11, o 11 de Setembro, do ataque às torres gêmeas de Nova York, em 2001.

Para o Brasil, o 7 de Setembro sempre foi o sagrado Dia da Independência. Mas, de há alguns anos, ganhou um significado extra: o de alerta. O de 2021 foi o primeiro ensaio de golpe por Bolsonaro; o de 2022, o do Bicentenário, foi estuprado por ele e reduzido a um comício eleitoral.

A partir de agora, o 8/1 terá de ser o Dia da Democracia. A história exige.

Folha de São Paulo, 07/01/2024