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Educação linguística às avessas

 

Não sei se o prezado leitor acompanhou recente noticiário televisivo pelo qual se anunciava que autoridades de ensino de determinada região dos Estados Unidos, tendo chegado à conclusão de que a deficiência escolar patente nos alunos negros se devia à sua insuficiência de conhecimento do inglês standard - tanto na gramática quanto no léxico -, resolveram ensinar e admitir nas escolas a modalidade de inglês que acredito seja o que lá se conhece, entre especialistas, por black english vernacular. Digo acredito, porque essas notícias culturais passam diante do telespectador como gato por brasas; dá-se preferência a assuntos gerais da política, dos esportes e da vida em sociedade, principalmente fofocas e escândalos do grand monde. Mas o noticiário registrou também o repúdio das pessoas entrevistadas sobre o que pensavam da medida; e a reação maior, com muita justiça, partiu dos pretos, alegando que eram pessoas normais, que queriam aprender o inglês padrão e que tinham os dotes intelectuais e culturais para consegui-lo, do que, aliás, dão prova vários segmentos da sociedade norte-americana, em todos os ramos das artes, das ciências e dos esportes.


 Está claro que compreendemos todos o alcance da intenção da medida, à primeira vista extremamente correta. Mas a verdade é que, longe de ser uma medida democrática por intentar evitar os prejuízos da deficiência escolar, nivelando por baixo e permitindo que os alunos nessas circunstâncias desfavoráveis não deixem de concluir seus estudos e, diploma na mão, possam ingressar no mercado de trabalho, está causando mais mal do que bem. Pura ilusão e medida altamente antidemocrática! Facilitando o caminho e retirando da estrada os naturais obstáculos que a maioria dos alunos, pretos e brancos, enfrenta na lide dos bancos escolares, cria uma tênue expectativa de poder competir na luta por um posto no mercado da vida. Luta quase sempre inglória, porque o cabedal de preparo com que o aluno saiu da escola não lhe é suficiente e eficaz para corresponder às exigências que a competição exige dele. E é nesse momento que o aluno se conscientiza de que a escola lhe deu muito pouco, porque muito pouco lhe exigiu a ele aluno, e ele a ela escola.


A ponta do iceberg da crise fica sempre à vista na deficiência da língua materna; mas a verdade é que, atrás do idioma, aparece a deficiência em quase todos os horizontes do currículo escolar.


As razões desse triste quadro são muitas e complexas; porém para ela concorreu muito a inexistência, por muito tempo, do que hoje se costuma chamar ''vontade política'' da educação, permitindo o esvaziamento dos quadros de magistério com a ausência de jovens inteligentes e preparados, capazes de garantir o antigo grau de excelência da escola secundária. Há exceções sim, mas só vêm confirmar a regra. Sem os incentivos de uma carreira de magistério decente e compatível com a função e a importância do professor na sociedade, com os irrisórios salários que envergonham qualquer estatística, a educação entre nós perdeu, por enquanto, o trem da história. E não se pode tentar recuperar o imenso tempo perdido com somente medidas ou discutíveis (como a promoção automática, a recuperação em dois meses do que não se aprendeu durante o ano letivo, etc), ou de eficácia a meio caminho (como a farta distribuição de livros onde faltam bastantes professores, preparados e estimulados ao bom combate).


Se se quer melhorar a cultura do país não se há de pensar como político, mas como estadista, sem esperar que a medida surta efeito em próxima eleição; porque educação é dessas coisas que uma geração planta hoje para só os netos colherem os frutos sazonados. E não é trabalho só dos governos nem só da escola; é trabalho em que se deve empenhar toda a sociedade, com todas as suas agências de cultura, se não quiser ser engolida ela própria pela barbárie.


Em matéria de língua portuguesa, não se recomenda ainda o black portuguese vernacular, mas algo muito parecido pela ineficácia cultural: a língua viva do povo. Além da ineficácia cultural, ela não precisa ser ensinada: o aluno já é falante competente nela. O que a escola tem por missão é, não desprezando esse patrimônio lingüístico importante para o trato diário da convivência entre os iguais, acrescentar-lhe o patrimônio da língua de cultura, o veículo exclusivo de intercâmbio em situações especiais de expressão do discurso literário, científico, artístico, religioso, comercial, administrativo, burocrático, isto é, nas situações em que a pessoa ultrapassa os limites dos iguais para atingir os limites do mundo. Educar é justamente guiar para fora dos angustos limites da pessoa humana.


Os antigos tinham desta língua de cultura - que não é toda a realidade de uma língua - perfeita noção e de onde ela poderia ser aprendida. O nosso primeiro gramático, Fernão de Oliveira, já em 1536, dizia: ''e para ser entendida (a língua) há de ser a mais acostumada antre os milhores dela; e os milhores da língua são os que mais leram e viram e viveram continoando mais entre primores, sisudos e assentados e não amigos de muita mudança'' (cap.38).


Hoje o que se pratica? Sob a alegação, correta em tese, mas falsa quando mal entendida, de que ''o professor deve chegar ao aluno'', fala-se exclusivamente e se permite escrever também exclusivamente na língua espontânea do povo. Ensina-se esta modalidade popular, que o aluno já sabe, e se deixa de ensinar aquilo de que ele vai amanhã precisar. Com a idéia de chegar até o aluno, essa prática pedagógica não estimula que o aluno percorra o caminho inverso: chegar ao professor, e não só o professor a ele.


Alega-se que tal procedimento normativo cerceia a ''liberdade'' do aluno, impondo-se-lhe ''a língua da classe dominante''. Esta alegação, ideológica e não idiomática, desconhece ou, o que é pior porque consciente, finge desconhecer que não se trata nem de imposição, nem de classe dominante. É uma contingência da própria historicidade do homem, da sua convivência com os outros, e o modelo a seguir, não é a língua da Corte - como dizia Fernão de Oliveira no seu tempo - mas a língua dos que falam melhor.


 


Jornal do Brasil (Rio de Janeiro) 16/02/2005

Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), 16/02/2005