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Revista Brasileira nº.126 (2026. 184 pp.)

Essa publicação faz parte da coleção Revista Brasileira

Editorial
Rosiska Darcy de Oliveira

Ocupante da Cadeira 10 na Academia Brasileira de Letras.

O mundo não para de nos surpreender e se desdobrar em cenários impensáveis. Agora se depara com uma figura que já não é piramidal, a famosa pirâmide etária, e toma a forma que mais parece a de um pião. A população mundial está envelhecendo, é o que diz a demografia. Má notícia? Depende para quem.

Há os que pensam o envelhecimento da população como um problema social, preocupados com razão com os impactos na previdência social e nos sistemas de saúde. Outros veem nisso uma oportunidade e se perguntam o que pode surgir da longevidade em larga escala como experiência humana até então desconhecida. Que mundo  será esse em que os idosos serão mais numerosos do que os jovens, terão uma presença ativa e significativa nas sociedades?

Os direitos, os desejos e as necessidades de pessoas que avançam na longevidade vão se impor como um desafio de invenção social, como mais um elemento de complexificação do mundo. Complexo é o tema do envelhecimento e suas fronteiras de vida e morte. “Não tenho medo da morte, mas sim medo de morrer”, diz o poeta e sábio Gilberto Gil. A aspiração à imortalidade está presente neste número da Revista Brasileira, na voz de Eduardo Giannetti. Margareth Dalcolmo pergunta: longevidade ativa ou busca de vida eterna?

E se essa geração, os idosos de hoje, que conheceu ao longo da vida tantas mudanças radicais, se preocupasse mais com a vida que nos é dado viver do que com a morte? O envelhecer abre um leque de perguntas, de pontos de vista que estão longe de esgotar uma questão que estará no centro da vida das sociedades ao longo deste século.

Complexo será um adjetivo recorrente em nossas páginas. complexo brasil, assim José Miguel Wisnik chamou a exposição em que a Fundação Calouste Gulbenkian de Lisboa passou em revista o Brasil e suas relações seculares com Portugal. O olhar multiartístico de Wisnik explica o título com letra minúscula: “Chamar a exposição de complexo brasil é dizer que ninguém tem a chave explicativa e que brasis são muitos e por isso mesmo não se usa a letra maiúscula do nome oficial do país. Mas é também assumir que existe um país, uma história comum, um desafio que continua aberto entre incertezas e perigos, belezas e horrores”. A Revista Brasileira propõe uma visita a essa grandiosa e polêmica exposição através da bela iconografia que nos foi cedida pela Fundação Calouste Gulbenkian e dos textos de alguns de seus curadores e visitantes entusiastas, como Joaquim Falcão.

Olhos voltados para Portugal, fomos buscar além-mar a colaboração de Guilherme d’Oliveira Martins, sócio correspondente da Academia Brasileira de Letras que
nos trouxe um tesouro: a literatura de Lídia Jorge, expoente da língua portuguesa.

Que prazer é encontrar grandes autores em tempos de inteligência artificial, que invade a criação e sugere ao ensaio de Ronaldo Lemos o título insólito e ameaçador
“O triste fim do autor humano?”. Milton Hatoum, autor que encarna a excelência na literatura brasileira, nos deixa mais tranquilos. Entre ele e a literatura dá-se uma espécie de comunhão indissolúvel. 

Quem se atreveria a discutir o Poder sem ter lido Shakespeare? José Roberto de Castro Neves responde. A ciência também surpreende. Quando um grande conhecedor dos mistérios do cérebro como Paulo Niemeyer revela os segredos do olfato, brota do cientista o delicioso escritor. 

Ainda no campo da grande criação literária, o Colóquio sobre Ortega y Gasset, A Desumanização da Arte, traz à atualidade os grandes temas do humanismo e da ensaística. O debate entre Machado de Assis e Nabuco sobre a natureza da Academia Brasileira de Letras vai buscar na história do pensamento os instrumentos para entender o presente. Aqui encontra-se em artigo de Arno Wehling, as palavras de José Veríssimo, nos idos de 1895, renomado editor da Revista Brasileira, e que
até hoje inspira nossa linha editorial:

“A Revista Brasileira não lhe pode ficar alheia e estranha [à reorganização da vida nacional]. As questões constitucionais, jurídicas, econômicas, políticas e sociais que nos ocupam e preocupam a todos, terão um lugar nas suas páginas, mas, profundamente liberal, aceita e admite todas as controvérsias que não se acham em completo antagonismo com a inspiração de sua direção. Em Política, Filosofia, em Arte, não pertence a nenhum sistema, a nenhuma escola. Pretende simplesmente ser uma tribuna onde todos que tenham alguma coisa que dizer, e saibam fazê-lo, possam livremente manifestar-se.”

De surpresas, perguntas e tentativas de resposta é feita a Revista Brasileira. complexa como o Brasil.

Ficha da Obra

Ano: 
2026
Páginas: 
184
Leia a obra completa: