Publicado em 1946, Sagarana é uma obra-prima da literatura brasileira, escrita por João Guimarães Rosa, com nove contos que retratam a vida no sertão brasileiro, explorando temas como a cultura regional, a violência, a religiosidade e as tradições do povo.
A história do livro será contada no próximo dia 12 às 16h, no ciclo "Meio século de Literatura Brasileira", pelo jornalista Leonencio Nossa, autor da maior biografia de Guimarães Rosa já escrita.
A palestra terá coordenação da Acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira. A entrada é gratuita e as inscrições podem ser feitas pelo link: https://www.even3.com.br/sagarana-729546/
Com uma linguagem poética e repleta de regionalismos, João Guimarães Rosa conta, em carta escrita ao amigo João Condé, que o livro foi escrito na cama, a lápis, em caderno de 100 folhas, em sete meses, “sete meses de deslumbramento, de exaltação”.
Na biografia de Guimarães Rosa, Leonencio Nossa também relata a história de Sagarana: “A princípio, fazia uma ponta bem fina no lápis, pegava um caderno de 100 folhas e ia para cama escrever. Àquela altura, porém, eu tinha que escolher o terreno onde localizar as minhas histórias. Podia ser Barbacena, Belo Horizonte, o Rio, a China, o arquipélago de Neo-Baratória, o espaço astral ou, mesmo, o pedaço de Minas Gerais que era mais meu. E foi o que eu preferi. Porque eu tinha muitas saudades de lá”.
Leonencio explica que, a princípio, Guimarães Rosa trabalhou 12 contos para o livro e o inscreveu com o nome de “Contos” no prêmio Humberto de Campos, àquela altura o mais importante prêmio literário do país. O segundo lugar, e o pior, com o voto contrário de Graciliano Ramos, deixou Guimarães Rosa completamente amuado. Anos mais tarde, editou o livro, retirou três dos 12 contos, e deu o nome de Sagarana.
Leonencio Nossa lançou no início do mês a mais completa biografia de Guimarães Rosa, resultado de pesquisas ao longo de uma década. As quase 800 páginas vêm com dezenas de fotos e acompanham o percurso humano e intelectual do autor de Grande sertão: Veredas. Amparado por documentos raros e depoimentos reveladores, Nossa traz informações inéditas e aspectos do autor que, em suas palavras, ‘viveu várias vidas numa só’.
Da infância no interior de Minas Gerais à morte no Rio de Janeiro – dois dias após tomar posse na Academia Brasileira de Letras –, a biografia mostra a carreira de Rosa como médico no interior e diplomata em tempos de guerra.
Foram cerca de 60 anos em que o biografado participou de momentos históricos, como a Revolução de 1932 e a Alemanha nazista, o início da Guerra Fria, e viveu sob a ditadura militar. Ao mesmo tempo, desenvolvia uma obra inovadora como poucas na literatura brasileira. Poliglota apaixonado pelas palavras e pela experimentação linguística, Rosa construiu sua obra entre boiadas sertanejas, bombardeios em Hamburgo e cabarés da Paris do pós-guerra. Sua atuação como diplomata na Alemanha nazista foi monitorada pela polícia secreta. A ajuda aos judeus, encabeçada por sua mulher Aracy de Carvalho e por ele amparada em termos institucionais no consulado brasileiro de Hamburgo, quando facilitou trâmites burocráticos, representou riscos que comprometeriam sua carreira diplomática.
Sobre Leonencio Nossa
Leonencio Nossa é jornalista, biógrafo, escritor e historiador. A sua obra é constituída por biografias, reportagens históricas, estudos políticos, artigos de opinião e relatos de viagens. Doutor em Bens Culturais e mestre em História e Política pelo CPDOC, da Fundação Getúlio Vargas.
É autor dos livros Homens invisíveis; e O rio, uma viagem pela alma do Amazonas, publicados pela Editora Record; O Major Curió e as guerrilhas no Araguaia, Companhia das Letras; Roberto Marinho, o poder está no ar, e Roberto Marinho, a Globo na ditadura, Nova Fronteira; e As guerras da independência do Brasil, Topbooks.
Em seus livros e reportagens, descreve conflitos históricos especialmente na Amazônia, retratando questões políticas, indígenas e ambientais. Também se destaca por perfis de figuras emblemáticas da vida brasileira, como Roberto Marinho, criador da TV Globo. Venceu duas vezes o Prêmio Esso e cinco vezes o Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos. Por suas reportagens especiais de direitos humanos e política, foi reconhecido, em 2023 e 2024, como o jornalista mais premiado da história da imprensa de Brasília e do Centro-Oeste e um dos mais destacados do Brasil, pelo site Jornalistas & Companhia.
Publicou pelos jornais O Estado de S. Paulo e Folha de S.Paulo estudos sobre assassinatos políticos no país desde a Lei da Anistia. O trabalho investigativo foi pioneiro no levantamento de crimes de poder, conquistando a última edição realizada do Prêmio Esso de Jornalismo e o Vladimir Herzog.
Tem trabalhos reconhecidos nas Conferências Latino-Americanas de Jornalismo Investigativo, do Instituto Prensa y Sociedad e da Transparência Internacional, em Buenos Aires (2010), Guaiaquil (2011), Cidade do México (2014), Cidade do Panamá (2016), Canelones (2021) e Rio de Janeiro (2022).
Formações
Fez graduação em Comunicação Social - Jornalismo pela Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e mestrado em História, Política e doutorado em Bens culturais pela Fundação Getulio Vargas (FGV/CPDOC).
04/05/2026