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ABL recebe o Colóquio franco-brasileiro “Os valores da celebridade"

A Academia Brasileira de Letras recebe, no dia 8 de abril, o Colóquio franco-brasileiro “Os valores da celebridade (1850-1920)”. Com o apoio da SERD-Société des études romantiques et dix-neuviémistes, o Colóquio faz parte de um acordo estabelecido entre o Programa de Pós-Graduação em Letras Neolatinas da UFRJ (PPGLEN) e a École doctorale 120 da Sorbonne Nouvelle, com a parceria do Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da UFRJ (PPGLEV). 

Além da ABL, o Colóquio será realizado no Museu Nacional de Belas Artes e na Escola de Música da UFRJ, entre 6 e 10 de abril. 

A proposta dos debates é analisar as figuras públicas num amplo sentido e as manifestações de transferências culturais como o são as turnês de atores e atrizes, de cantores e cantoras franceses no Brasil: que peças (e atos e cenas dessas peças), que óperas, que espetáculos são exportados e circulam de um país para o outro? Que cobertura midiática recebem as companhias e os atores que atravessam o Atlântico? Que reconhecimento obtêm dessa forma? Trata-se de um reconhecimento efêmero ou duradouro? Por que se pode ser mais famoso num país estrangeiro do que no próprio país, que tipo de sistema de valores é posto em prática? 

No dia 8, na ABL, o Acadêmico Godofredo de Oliveira Neto será mediador da mesa “ A Academia e suas celebridades”, com início previsto para as 11 horas, que contará com Leonardo Mendes, da UERJ, falando sobre Pardal Mallet; Lucia Granja, da Unicamp, com o tema “A celebridade de Machado de Assis diante da circulação transatlântica”; Paolo Tortonese, da Université Sorbonne Nouvelle, sobre Clovis Beviláquia e Luciana Persice Nogueira Pretti, da Uerj, que falará sobre “Anatole France no Brasil em torno de uma turné e ressonâncias de uma celebridade”.

Na primeira conferência do dia, às 9h30, os conferencistas serão Jean-Yves Mollier , da Université Paris Saclay/Versailles Saint-Quentin e Marisa Midori Deaecto, da USP. A Mediação será de Celina Maria Moreira de Mello da UFRJ. O terceiro painel do dia terá a mediação de Luciana Persice Nogueira Pretti, com o tema “Em torno das Academias”. Os debatedores serão Gilberto Araújo (em torno da Academia Brasileira de Letras), Elise cantiran, Zadig Gama e Stéphane Zékian.

Fechando o dia , Arno Wehling fala sobre o “Petit Trianon brasileiro e a diplomacia francesa do primeiro pós-guerra”, com a mediação de Antonio Carlos Secchin.

A economia da celebridade com seus vetores e canais serão aspectos deste colóquio. Não se trata de estudar a fábrica da celebridade, um tema já amplamente abordado, mas a forma como a celebridade carrega valores e os produz. Pode-se evocar uma bolsa de valores culturais nesse século que vê crescer a globalização.

O Colóquio vai propor analisar as figuras públicas num amplo sentido e as manifestações de transferências culturais como o são as turnês de atores e atrizes, de cantores e cantoras franceses no Brasil: que peças (e atos e cenas dessas peças), que óperas, que espetáculos são exportados e circulam de um país para o outro? Que cobertura midiática recebem as companhias e os atores que atravessam o Atlântico? Que reconhecimento obtêm dessa forma? Trata-se de um reconhecimento efêmero ou duradouro? Por que se pode ser mais famoso num país estrangeiro do que no próprio país, que tipo de sistema de valores é posto em prática? 

É possível, assim, privilegiar estudos de caso (seguindo um ator, uma atriz, um grupo, etc.) a fim de ilustrar a transferência tangível de um modelo. Pode-se também examinar o sucesso de um espetáculo, ou de um tipo de espetáculo, ou mesmo a permanência de uma peça no repertório das companhias. É possível também considerar a língua em que uma peça é representada, suas traduções e, consequentemente, seu público-alvo. Em que fase da carreira os encenadores e intérpretes se deslocam para o Brasil? Pode-se ainda analisar os efeitos dessa circulação na produção brasileira, por exemplo, no desenvolvimento do teatro e das artes cênicas em geral nas grandes cidades do país, ou na composição dos repertórios das companhias locais. A esse respeito, seriam bem-vindos estudos pormenorizados que permitissem conhecer a vida de uma companhia, as escolhas do seu diretor e seu repertório. Por outro lado, a transferência também funcionaria no sentido inverso, e que espetáculos, atores/atrizes, cantores/cantoras são depois exportados? No que diz respeito à literatura, como se dão a circulação e a recepção de obras francesas no Brasil, em francês ou em português? Elas fazem parte de coleções importantes, visando à consagração ou ao sucesso de vendas? E como ocorrem a circulação e a recepção de obras brasileiras na França?

No plano institucional, a criação, no Brasil, da Academia Imperial de Belas Artes, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) e, depois, da Academia Brasileira de Letras (ABL), também permite pôr à prova os valores da celebridade, sobretudo em relação às noções de glória e de imortalidade, supostamente conferidas pelas instituições. Se, na França do século XIX, essas instituições já são antigas e, no final do século, envelhecidas, no Brasil, a “missão artística francesa” (1816), que levou à criação da Academia Imperial de Belas Artes (1826), e a Academia Brasileira de Letras, fundada em 1897 nos moldes da Academia Francesa, revelam uma nova necessidade cultural. Esses casos evidentes de transferências culturais refletem também o desejo de reconhecimento simbólico por parte dos artistas e escritores nacionais. Mas será que as academias brasileiras acolheram artistas reconhecidos e famosos no seu tempo? Que redes (revistas, círculos, salões) davam acesso a elas? Machado de Assis, de origem modesta e autodidata, jornalista e um dos mais célebres escritores de seu tempo, cofundador e primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras, constitui uma figura muito importante em todos esses aspectos.

Um acontecimento capital, o Caso Dreyfus, com repercussão mundial, renovou a axiologia da celebridade e introduziu outro regime de valor no próprio seio do sistema midiático global, que este colóquio pretende explorar numa perspectiva franco-brasileira. O Caso reintroduz, efetivamente, o grande homem e a figura-modelo do homem ilustre que o homem célebre tinha, de certa forma, substituído. Esse momento excepcional na história da celebridade, que viu Zola e outros dreyfusistas reviverem a antiga tradição da vida do homem ilustre, baseada no modelo de Plutarco, teve ecos importantes no Brasil, passíveis de serem estudados. Foi também um acontecimento midiático em que o escritor, que havia compreendido o valor da celebridade, o utilizou na sua luta pela justiça, recorrendo aos próprios instrumentos de midiatização – a primeira página de um jornal.  Vários eixos podem ser explorados com mais profundidade, com foco nos diferentes valores da celebridade no contexto das transferências culturais entre a França e o Brasil. Alguns exemplos, a título indicativo:  

• As carreiras de atores, atrizes, trupes, orquestras, circos etc.;

• As turnês de compositores, escritores, intelectuais, músicos etc;

• A circulação de modelos estéticos da França para o Brasil e do Brasil para a França (na literatura, nas artes, na música etc.);

• Repercussão de eventos franceses e europeus (por exemplo, o caso Dreyfus no Brasil; a morte de homens e mulheres ilustres);

• A difusão de livros, traduções e o campo editorial;

• O emprego de formas midiáticas (a coluna social, o fait divers, a reportagem de capa, etc.);

• Todas as formas de adaptação e transposição;

• As Instituições (a criação da Academia Brasileira de Letras, da Academia Imperial de Belas Artes, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro etc.);

• O uso de modelos arquitetônicos; 

• A mídia e os valores da celebridade;

• O reconhecimento institucional e o reconhecimento do público;

• Os valores financeiros da arte e da literatura.  

06/04/2026