Quando leu Grande Sertão: Veredas pela primeira vez, Paulo Salles tinha 17 anos. Hoje tem 70 — exatamente a mesma idade que o romance de João Guimarães Rosa completa em 2026, ano em que a Cia. das Letras, detentora dos direitos da obra, celebra a efeméride com edição comemorativa, audiobook, biografia inédita de Guimarães Rosa, podcast e uma série de eventos com palestras, leituras e debates.
É uma coincidência que o engenheiro aposentado prefere não desperdiçar. Mais de meio século de leituras do livro desembocou num projeto de vida, “Anatomia do Grande Sertão”, obra inédita em que ele mapeia com coordenadas geográficas precisas mais de três quartos dos 437 topônimos presentes no romance — lugares reais escondidos sob nomes que pareciam pura invenção.
Para o livro ganhar vida da forma que o autor deseja, com fotos e mapas, sua edição está sendo financiada por uma vaquinha online — www.catarse.me/anatomiadograndesertao.
O trabalho de Salles já ultrapassou as fronteiras do Brasil. A tradutora australiana Alison Entrekin, que passou dez anos vertendo o romance para o inglês com o título “Vastlands: The Crossing” — ou Terras Vastas: A Travessia —, recorreu ao manuscrito para resolver centenas de dúvidas sobre nomes de lugares, se eram fictícios ou reais, se designavam rios, vilas ou serras.
Nesta conversa, Salles conta como as viagens ao sertão de Minas, Goiás e Bahia foram compondo o atlas geográfico do Grande Sertão que nenhuma editora bancou do jeito que ele queria. E explica o que, afinal, o sertão significa para quem o percorreu de GPS na mão, no encalço do jagunço Riobaldo.
De onde surgiu o interesse, o desejo de ir atrás dos topônimos de “Grande Sertão: Veredas”? Por que o senhor começou esse projeto? Comecei minha primeira leitura de Grande Sertão: Veredas há muito tempo. Eu tinha 17 anos, hoje estou com 70. São mais de meio século de leituras do livro. Já na primeira leitura, embora eu ainda não tivesse maturidade para abarcar todas as questões existenciais presentes na obra, o livro já me tomou completamente. Uma outra razão pela qual o livro tem muito a ver comigo é que sou mineiro de Uberlândia, e parte da região em que se passa o romance me é muito familiar. Meu pai era veterinário do Ministério da Agricultura, ele prestava assistência técnica em fazendas na região do Triângulo Mineiro, Alto Paranaíba e sul de Goiás, uma região bastante extensa. Isso nos anos 1960. Ele me levava nessas viagens, a mim e ao meu irmão mais novo. Nos anos 60, aquilo era realmente um sertão. Toda a pujança da agricultura que existe hoje nessa região — as lavouras, o agronegócio — não existia. As terras eram consideradas pouco produtivas, com criações de gado muito extensivas e pastagem natural. Era uma outra realidade. Era um sertão como o descrito pelo Guimarães Rosa. E isso ficou no meu imaginário.
Qual é o tamanho aproximado do Grande Sertão? A área é imensa. Uma estimativa aproximada aponta que o sertão retratado no romance tem cerca de 500 mil quilômetros quadrados, uma área maior do que a França. Pega principalmente o norte de Minas Gerais, parte de Goiás e o sudoeste baiano.
O senhor tem ideia de quantas viagens fez para a região ao longo dos anos? A quantidade exata eu não sei, porque viajei por aquela região durante muitos anos. Há muito tempo moro em São Paulo, vim para trabalhar e acabei ficando. Mas depois que me aposentei, há uns três anos, comecei as viagens específicas para pesquisa dos locais de “Grande Sertão: Veredas”. Essas viagens específicas foram sete, cada uma com cerca de 12 dias. Eu segui um roteiro lógico, comecei pelo extremo oeste de Goiás e fui caminhando para leste, até chegar ao Vale do Jequitinhonha, que são os extremos que abarcam todo o sertão.
Como o senhor planejava essas viagens? Primeiro, levantei todos os lugares mencionados em Grande Sertão que eram possíveis de localizar, usando mapas antigos e muito detalhados. Vali-me bastante dos mapas de navegação aéreas as Cartas Aeronáuticas de Pilotagem, as CAP. Antigamente, grande parte da aviação era visual, então esses mapas precisavam ser muito detalhados. Hoje é tudo por GPS e esses mapas não existem mais, mas eu os adquiri. Eram vendidos numa livraria no aeroporto de Congonhas. Como eu viajava muito a trabalho — sou engenheiro — frequentei muito aquele aeroporto e fui comprando os mapas por região, o mapa de Três Marias, de Pirapora, de Buritis, e assim por diante. Fui compondo toda a região. Esses mapas foram editados nas décadas de 1980 e 1990. Para períodos anteriores, precisei recorrer a mapas ainda mais antigos, porque os lugares mudam — cidades mudam de nome, vilas surgem e desaparecem. Fui ao Arquivo Público Mineiro, em Belo Horizonte, que tem acervo digitalizado, e comprei mapas em alta resolução. A Biblioteca Nacional também tem muitos, já digitalizados. Antes da internet, acumulei bastante material físico. Ao todo, tenho quase 200 mapas, em forma impressa ou digital.
O senhor mencionou mapas digitalizados. As novas tecnologias o ajudaram em sua pesquisa, não? Sim, bastante. Depois de localizar os lugares em papel, eu os buscava no Google Earth para obter coordenadas exatas — latitude e longitude. Marcava o local, verificava se havia alguma estrada próxima e traçava o roteiro de como chegar. Um primo meu que é geógrafo me ensinou a extrair o arquivo do Google Earth e transferi-lo para um aparelho de GPS profissional, que funciona via satélite — fundamental, porque lá não tem sinal de celular. Mesmo com o GPS, havia percalços. Às vezes eu chegava e encontrava uma porteira com cadeado, ou uma passagem sem ponte que só era viável na época da seca. Mas com esse planejamento, consegui visitar e localizar mais de três quartos dos topônimos listados no romance.
O livro menciona quantos topônimos? Se contarmos todas as ocorrências ao longo do romance, são quase 1.200 menções, mas muitos se repetem. Desses 437 distintos, alguns são claramente ficcionais e outros eu não encontrei — talvez sejam muito particulares, ou o nome já mudou e não há mais memória local. Mas a maioria eu encontrei e visitei, seguindo principalmente o percurso por onde Riobaldo passou.
Nesse seu levantamento, o senhor tem uma estimativa de quanto o Riobaldo andou no romance? Eu calculo uns 15 mil quilômetros. No meu livro eu mostro essa trajetória. Não é uma trajetória linear — ele vai e volta, e há períodos em que ficam perdidos nos gerais, sem saber ao certo onde estavam. Mas fazendo uma estimativa, é mais ou menos o que eu mesmo andei nas minhas viagens de pesquisa, o que eu registrei no odômetro do carro. A trajetória do Riobaldo deve ter durado de uns 8 ou 10 anos — isso não fica claro no livro, que tem muito pouca referência temporal.
O senhor está fazendo uma vaquinha virtual para levantar fundos para publicar o livro. Nenhuma editora se interessou mesmo com a efeméride dos 70 anos de publicação do romance? Algumas editoras se interessaram, mas o problema é que eu fiz uma pesquisa de 40 anos — e isso não é exagero. Comecei no início dos anos 80, de forma não sistemática, parando e retomando conforme o trabalho permitia. Quando me aposentei, sentei-me para escrever. Não tinha ideia, antes disso, de fazer um livro. Quando mostrei esse projeto a editoras menores, vi que elas não tinham recursos para fazer o livro da maneira que eu queria. E se entregasse a uma editora, perderia o controle sobre como queria fazê-lo. O livro tem muitas fotos que tirei nas viagens, mapas e texto — é um projeto de vida, e eu queria fazer com boa qualidade. Então resolvi bancar eu mesmo. Contratei uma profissional para a preparação do texto, depois uma pessoa para o projeto gráfico. Tudo pago do meu bolso. A impressão, no entanto, ficou com um valor muito alto para eu arcar sozinho, então resolvi fazer um crowdfunding
E como é o livro que o senhor deseja? O livro tem três partes. A primeira é um texto em que explico a pesquisa e como cheguei às conclusões. A segunda são mapas em que traço a trajetória do Riobaldo ao longo do romance — oito mapas com a cronologia dos fatos narrados, não da narrativa, mas dos acontecimentos. Começa quando ele nasce nos Alegres, sai com a mãe, vai morar na beira do Rio São Francisco. A mãe morre, ele vai morar com o padrinho — que na verdade era o pai — na fazenda São Gregório. O padrinho o manda para o Curralinho para estudar. E assim por diante, mapa a mapa, até o fim. A terceira parte é um glossário de todos os 437 topônimos em ordem alfabética — de Abaeté a Zagaia. Para cada entrada, indico o tipo de objeto geográfico, as páginas em que é mencionado na edição que pesquisei, uma frase do livro em que aparece, o mapa em que o localizei e a coordenada geográfica.
O senhor que conhece tão bem os caminhos do Riobaldo, qual é sua interpretação do sertão? É difícil responder em poucas palavras, mas para mim o sertão é a parte da natureza humana que desconhecemos. Pode ser partes boas e ruins. É o desconhecido, a sombra, a perplexidade. É essa parte de cada um que tateamos ao longo da vida, tentando encontrar os caminhos que nos levem à felicidade. Como o Riobaldo, ele teve uma vida atribulada, mas encontrou, no final, o que se poderia chamar de boa vida. Para mim, o sertão é esse desconhecido interior de cada um, e o caminhar por ele é o percurso para se chegar à boa vida.
Matéria na íntegra: https://veja.abril.com.br/cultura/geografia-do-grande-sertao-e-revelada-apos-40-anos-de-pesquisa-de-engenheiro/
09/04/2026