Para que ninguém esqueça o modo de fazer de uma das carreiras mais fascinantes, o cineasta Zelito Viana trouxe para o Festival É Tudo Verdade um documentário sobre Zuenir Ventura.
Nos 70 minutos em que “Mestre Zu” vai desenrolando a vida deste jornalista prestes a completar 95 anos, também assistimos aos bastidores da imprensa com todos os conflitos que antigamente balizavam a decisão de um editor, não antes de muita consulta para cima e para baixo na escala de uma redação.
O documentário nos mostra muitos desses momentos que atormentaram o editor diante da publicação de um grande furo, semelhantes à angústia de um atacante diante do gol.
Seria ético publicar as razões do suicídio de Pedro Nava (1903-1984) diante da chantagem e das fotos de um garoto de programa, se o próprio memorialista mineiro, querido no meio literário, deu a vida para escondê-las?
E a verdadeira causa da morte de Leon Hirszman (1937-1987), por Aids, numa época em que a doença era maldita, sabendo o impacto que a revelação teria na carreira do cineasta?
Seria justo publicar – e ver seu autor linchado pela sociedade – a carta enviada da Itália por outro cineasta, Glauber Rocha (1939-1981), na qual declarava o quarto presidente da ditadura militar brasileira, general de Exército Ernesto Geisel – junto com o ministro Golbery do Couto e Silva, seu cérebro ideológico – como um salvador da pátria?
E como encarar seus alunos novamente se o editor iria infringir, ele próprio, a máxima jornalística de jamais se misturar com a notícia trazendo para a sua casa em Ipanema o garoto Genésio, jurado de morte na Amazônia depois do assassinato do líder sindicalista, o seringueiro Chico Mendes (1944-1988)?
Dúvida, angústia, antecipação de culpa pelas possíveis consequências funestas a quem assinasse a matéria: qual seria a melhor maneira de cobrir, em plena ditadura, a bomba que estourou no colo de um sargento, destinada a incriminar grupos de esquerda por ordem de militares da linha dura do regime? Isso durante um espetáculo para 20 mil pessoas no Centro de Convenções do Riocentro (30/04/1981), recheado da nata da nossa MPB, que vinha sendo censurada sem dó nem piedade?
E quem hoje, em dias de internet, para não errar no números, teria o cuidado de medir com um rolo de barbante durante a madrugada o espaço em que se encontrava a multidão que recebia as bençãos do papa no Aterro para publicar o número exato de pessoas que cabiam por m2?
Sim, jovens jornalistas, pasmem. Naquela época, no século passado, esse cuidado existia! Os jornalistas pensavam antes de publicar, debatiam, tinham culpas, se arrependiam, consertavam o erro. As notícias eram checadas numa redação por duas ou três etapas. As matérias iam e vinham, algumas vezes canceladas, outras recuperadas, muitas vezes questionadas e checadas nos detalhes quando se tratava da imprensa séria.
Os jornalistas que erravam muitas vezes eram colocados na geladeira ou mudados de editoria para outra de menor importância. Os que acertavam eram promovidos. E não havia perdão para notícias falsas: demissão. Havia reuniões de pauta e os fatos repercutiam. Em papel.
Hoje essas regras são seguidas nos pouquíssimos jornais que sobrevivem fora da internet e nos raros que mantêm a credibilidade online. Mas é um luxo assistir a um documentário do tempo em que jornais existiam com alta tiragem no Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, a imprensa alternativa brilhando com mais de 150 publicações. Essas regras eram lei. Naquele tempo em que as palavras tinham um peso.
Zuenir Ventura é o jornalista que conta essa história, confirmada por muitos dos jovens que formou nas várias redações por onde passou, Tribuna da Imprensa, Jornal do Brasil, Revista Veja, Isto É, Visão.
Filho de um pintor de parede, antes de se formar em Filosofia, viajar com uma bolsa de estudos para Paris e se tornar mestre no jornalismo, Zuenir foi office boy de banco, faxineiro de bar, caixeiro de confeitaria, jogador de basquete.
Formou uma geração. Muitos dão seu depoimento no documentário, alguns emocionados, filmados pela câmera de Walter Carvalho. Gerson Camarotti, Nelson Motta, Ancelmo Góis, Miriam Leitão, Joaquim Ferreira dos Santos, Flavio Pinheiro. Os amigos que fez ao longo de sete décadas de profissão estão ali, Paulinho da Viola, Luís Fernando Verissimo e mesmo os que já morreram como Ziraldo e o psicanalista Helio Pellegrino, presos junto com Zuenir.
Os anos da ditadura marcaram uma geração e o país. Zelito Viana se esmera nas imagens de arquivo, caçando algumas históricas, como a volta dos exilados no começo dos anos 1980 e a primeira caravana de Lula rumo à cidade.
Zelito explica o risco de se fazer um documentário ao entrevistar dezenas de pessoas “sem saber o que vão dizer, se vai funcionar. E todo mundo só falava bem, o que criou outro perigo, o de um filme chapa branca”.
A codiretora Edna Savaget, jornalista, filha de outra jornalista, Edna Savaget, ressalta a importância do Jornalismo na História do Brasil, capaz de eleger ou derrubar um presidente.
“Mestre Zu” é o 11º longa de Zelito Viana, que tem oito curtas e inúmeros trabalhos para televisão. Foi produzido na Mapa Filmes, que criou junto com Vera de Paula, sua mulher e sócia, ali onde também nasceram 14 filmes de vários diretores, como Cacá Diegues, José Fonseca e Costa, Walter Lima Jr. Dois dos grandes filmes brasileiros saíram da Mapa: “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, e “Cabra Marcado Para Morrer”, de Eduardo Coutinho. Um de seus longas, “O Doce Esporte do Sexo” em 1971, teve seu irmão Chico Anysio como protagonista. Noutro, “Villa Lobos – Uma Vida de Paixão”, dirigiu seu filho Marcos Palmeira.
Zuenir assistiu duas vezes ao filme e chorou. Foi exibido em São Paulo e na estreia carioca no Festival É Tudo Verdade e lotou três salas. “Este filme”, Zelito explica, “nasceu do perigo de ser jornalista. E é preciso que as novas gerações conheçam”.
Matéria na íntegra: https://www.observatoriodaimprensa.com.br/documentario/o-jornalismo-de-zuenir-ventura-no-festival-e-tudo-verdade/
05/05/2026