Com apenas dez anos, Maria Valéria Rezende já tinha lido e relido todos os infantojuvenis das bibliotecas de Santos (SP), onde nasceu. Por essa razão, pediu mais e mais livros aos pais.
Na esperança de que a filha os deixasse em paz, eles resolveram presenteá-la com clássicos de “gente grande”: ”A Mão e a Luva" (1874), “Helena” (1876) e “Iaiá Garcia” (1878), três romances de Machado de Assis.
"Imaginavam que eu demoraria a lê-los, mas eu os devorei e, na semana seguinte, pedi mais", recorda essa paulista de 83 anos. "Quem sabe também tenham esse efeito para os jovens de hoje?"
Por onde os jovens de hoje, como diz a autora de “Quarenta Dias” e “Outros Cantos”, devem começar a ler a obra do "Bruxo do Cosme Velho"? Pelos contos, sugere Hélio de Seixas Guimarães, doutor em teoria e história literária pela Unicamp.
E recomenda três títulos: “A Cartomante” (1884), “Caso da Vara” (1891) e “Pai Contra Mãe” (1906). “Não só por serem mais curtos, mas pelo efeito poderoso que podem produzir sobre o leitor”, afirma o organizador da coleção ”Todos os Livros de Machado de Assis". "Nos fazem questionar o que faríamos se estivéssemos no lugar das personagens".
Obra que não envelhece
Organizadora do box “Escritor por Escritor: Machado de Assis Segundo Seus Pares”, Ieda Lebensztayn concorda que os contos do autor são “uma ótima porta de entrada para os jovens” e recomenda a leitura de mais três: ”Teoria do Medalhão” (1881), “A Igreja do Diabo” (1883) e “Missa do Galo” (1894).
No livro “Missa do Galo: Variações sobre o Mesmo Tema" (1977), o conto foi recriado por autores como Autran Dourado, Lygia Fagundes Telles e Nélida Piñon. "Nós envelhecemos”, afirma a doutora em literatura brasileira pela USP, "a obra de Machado de Assis, jamais!”
Primeiro, os contos; depois, os romances. É a sugestão de Cláudio Soares, autor da biografia “Machado – O Filho do Inverno”. Segundo o roteiro traçado pelo jornalista, os jovens podem começar por “A Missa do Galo” (1894), avançar para “Dom Casmurro” (1899) e chegar a “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (1881).
“Enquanto ‘Dom Casmurro’ transformou a ambiguidade de Capitu em um enigma, a ironia de Brás Cubas se converteu em instrumento de dissecação da alma”, analisa. Entre os romances, Guimarães destaca ”Memórias Póstumas e Lebensztayn", "Quincas Borba” (1891).
A booktoker (influenciadora digital especializada em literatura) americana Courtney Novak percorreu o caminho inverso do roteiro de Soares. Começou a ler a obra de Machado por “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, que classificou como "melhor livro do mundo” em um vídeo nas redes sociais, e emendou a leitura de Dom Casmurro.
"É o melhor livro do mundo? Claro que não! Tal livro não existe. Mas, em termos de audácia e originalidade, nada o superou. O que Machado fez é incrivelmente moderno. A voz do narrador é íntima e devastadora ao mesmo tempo. Então, sim. Defendo essa ideia com unhas e dentes”, diz.
Quem traduziu o “The Posthumous Memoirs of Brás Cubas” lido por Novak foi Flora Thomson-DeVeaux. "Foi o primeiro romance machadiano que li, e é o meu xodó", brinca a tradutora. Na hora de indicar livros do autor, faz duas recomendações, admite, um tanto óbvias: ‘Memórias Póstumas,’ que considera "sensacional”, e ‘Dom Casmurro’, que classifica como "obra-prima”.
"Minha maior recomendação seria que os jovens não encarassem ele como muito sério, que tentassem perceber a leveza terrível dele – terrível porque, na hora em que a gente relaxa, ele enfia a navalha”.
Machado de Assis não escreveu apenas contos ou romances. Publicou ainda teatro, poesia e crítica. Só de crônicas, estima-se, foram mais de 600!
"São textos mais adequados ao fôlego de leitura dos jovens, acostumados à fragmentação das redes", explica Ana Chiara, doutora em letras pela PUC-Rio e organizadora de Machado para Jovens Leitores.
Entre os romances, “Dom Casmurro” pode atrair pelo enredo de amor juvenil. "A única dúvida é se a ironia machadiana poderá ser entendida neste mundo literal ou se precisará de um 'kkk' ou de um 'hahaha' aposto ao texto", especula.
Matéria na íntegra: https://www.band.com.br/educacao/noticias/por-onde-comecar-a-ler-machado-de-assis-segundo-especialistas-202604011319
06/04/2026