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Artigos

  • Os estilhaços da realidade

    Estado de Minas, em 06/04/2018

    Na capa de Exílio, de Lucas Guimaraens, uma imagem negra se adensa, depois se esvazia, até se configurar em pigmentos estilhaçados. Que melhor representação para o exílio, senão o estilhaço? Pontos nômades, sem centro, submersos no "lago das incertezas", subtítulo deste que é o terceiro livro de poemas do autor. 

  • Cem anos em um dia

    O Globo, em 07/09/2016

    Passamos a evocar as décadas em que a Divina Cleo reinava com seu saber e carisma nos cursos de Letras da antiga Faculdade Nacional de Filosofia.

  • Um obstinado e discreto gênio da literatura

    O Globo (Rio de Janeiro), em 17/12/2005

    Costuma-se dizer que o desinteresse relativo à vida de Machado de Assis (1839-1908) é simetricamente proporcional ao interesse gerado por sua obra: enquanto a produção literária de Machado não cessa de ser mais e mais valorizada, sua biografia estamparia apenas o morno transcurso de um exemplar funcionário público, de um esposo fiel e devotado à dona Carolina, de um ser algo distante das questões políticas, e, juntando-se as duas pontas da existência, de alguém que, vencendo barreiras da origem étnica e de uma frágil constituição física, alçou-se ao posto de nosso escritor máximo, tornando-se também o primeiro presidente da Academia Brasileira de Letras.

  • Franklin Távora em biografia exemplar

    Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), em 23/11/2005

    Nascido na década de 40, cearense radicado em Pernambuco, onde cursou a faculdade de Direito. Integrante de agremiação literária, fixou residência no Rio de Janeiro. Ficcionista e dramaturgo de reconhecido mérito, empenhou-se também em divulgar novos autores, à frente de importante revista literária.

  • A ainda pouco lida poesia de Jorge de Lima

    Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), em 03/08/2005

    Quando duas pessoas falam do escritor Jorge de Lima, é certo que estejam se referindo à mesma pessoa, mas dificilmente estarão falando do mesmo poeta. Com efeito, o artista alagoano, cujo centenário de nascimento passou quase despercebido em 1995, representa, na literatura brasileira, a imagem do poeta em contínua mutação. Parnasiano medíocre e bem-comportado nos XIV alexandrinos (1914), regionalista na primeira onda do modernismo com Poemas (1927), Novos poemas (1929) e Poemas escolhidos (1932), místico-universal a partir de Tempo e eternidade (1935, co-autoria de Murilo Mendes), cosmogônico e barroco em Invenção de Orfeu (1952), Jorge de Lima - falecido em novembro de 1953 - sobreviveu a todas as transformações a que submeteu a própria obra e permanece hoje como um dos poucos poetas fundamentais da literatura brasileira do século 20.

  • Os prêmios e a valorização do escritor

    Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), em 16/03/2005

    Um dos mais ameaçadores adjetivos que, de vez em quando, rondam a vida de um escritor é ''simbólico'', sobretudo quando antecedido das palavras ''cachê'', ''pro-labore'' e similares. Para as intervenções de outros profissionais na esfera da arte, costuma-se estipular um pagamento, maior ou menor, sem que seja necessário recorrer ao anteparo do famigerado adjetivo. Porém, a ''remuneração'' do escritor que participa de um evento (em que ele mesmo, não raro, é a principal atração) às vezes reduz-se a uma cama de hotel, a um café da manhã, a uns trocados para o deslocamento - e estamos conversados. Mal lido e não pago, o autor brasileiro encontra poucos estímulos para a difusão e o conseqüente reconhecimento de sua obra, a partir da própria desconsideração e do viés amadorístico com que seu ofício é tratado.

  • A geografia poética de Cecília Meireles

    Jornal do Brasil (Rio de Janeiro), em 17/11/2004

    Há 40 anos morria Cecília Meireles. Num famoso verso definiu-se como ''pastora de nuvens'', temperamento propício ao fluido e ao etéreo, viajante perdida do porto de si própria. Daí, portanto, as sucessivas viagens que empreendeu - na tentativa de encontrar no outro, na aventura, a promessa de uma unidade impossível de localizar em si mesma. Dentre os tantos ''outros'' que acolheu em seus versos, destaca-se a cultura do Oriente (em particular, a indiana), que a fez criar um de seus mais belos - e menos conhecidos - livros: os Poemas escritos na Índia. Embora publicados apenas na década de 1960, trazem no subtítulo a menção ao ano de sua escrita: 1953. No ano passado, graças ao notável esforço e competência do ensaísta e tradutor Dilip Loundo, os poemas indianos de Cecília foram impressos em Nova Delhi, em antologia bilíngüe. Informou-me Loundo tratar-se da primeira coletânea de poeta brasileiro editada naquele país.

  • Escritores entre o Império e a República

    Jornal do Brasil (Rio de Janeiro - RJ), em 30/06/2004

    Há alguns meses, voltou às estantes das livrarias, por uma feliz iniciativa da editora Topbooks e da Academia Brasileira de Letras, um clássico da epistolografia brasileira. Referimo-nos à Correspondência de Machado de Assis e Joaquim Nabuco, que, apresentada e anotada por Graça Aranha, ultrapassa em muito o âmbito de conversa entre amigos e levanta questões importantes acerca do papel do intelectual e do escritor no período compreendido entre o final do Império e os primórdios da República Velha.

  • Dois autores em Azevedo

    A obra de Aluísio Azevedo ganha, finalmente, edição à altura de sua importância com a publicação, pela Nova Aguilar, da ficção completa do autor, em dois alentados volumes, contendo doze romances e um livro de contos, num total de 2488 páginas.

  • A escritora acolhedora

    Painel de quase meio século da produção cultural maranhense, em seus diferentes matizes, Sal e Sol, desde logo, se inscreve como obra de referência para a compreensão de um rico universo de valores que viceja para além do pólo formado pelas metrópoles hegemônicas do país.

  • Tarefas do presidente

    Hércules desincumbiu-se de 12 tarefas. Na presidência da ABL, Marcos Vilaça cumpriu, possivelmente, mais de 1200... Com o precioso auxílio dos outros membros da Diretoria, e o apoio dos demais acadêmicos, Vilaça foi o ,maestro que soube reger com perfeição tanto a música de câmara das sessões internas da Casa, às quintas, quanto os acordes sinfônicos e ininterruptos de eventos que atraíram milhares de pessoas à Academia, através de simpósios, seminários, ciclos de palestras, concertos, exposições, noites de autógrafos, saraus e montagens teatrais.

  • João Cabral e a arte da dedicatória

    Mais do que simples protocolos de cordialidade, as dedicatórias de livros podem revelar relações de poder ou ainda desferir dardos acolchoados sob a aparente maciez de um "abraço amigo". Cumpre, desde logo, distinguir as dedicatórias tipográficas — que, de algum modo, intentam tornar pública uma relação particular, eternizando-a na página impressa — das dedicatórias manuscritas, direcionadas, a princípio, ao âmbito privado, mas que muitas vezes o extrapolam, exibidas em bibliotecas públicas ou nas prateleiras dos sebos. João Cabral de Melo Neto era considerado parcimonioso (para dizer pouco) em suas manifestações sobre a literatura brasileira. Ao contrário dos entusiásticos elogios a autores de língua inglesa e espanhola, o que se constata é o caráter minguado da parte que nos cabe nesse latifúndio das letras preferenciais do afeto cabralino.

  • Chaplin e outros ensaios

    Quando se deseja uma leitura agradável, é sempre bom acompanhar o que escreve o ensaísta Carlos Heitor Cony, uma espécie de mago das letras, pois faz sucesso nos mais diversificados gêneros.  Para os apressados, bastaria acompanhar as suas crônicas na Folha de São Paulo, onde há muitos anos tem uma posição cativa.  Crítico irreverente, por vezes usa de um lirismo muito próprio, ao descrever por  exemplo  as belezas da  Lagoa Rodrigo de Freitas, bairro onde tem residência fixa.  Em segundo lugar, a Itália e seus mistérios, como as deliciosas histórias de Positano, cidade de que é frequentador assíduo.                                 Pois Cony não liga muito para a idade e continua a brindar o seu público com livros de primeiríssima qualidade.  É o que acaba de acontecer com o seu “Chaplin e outros ensaios”, da editora Topbooks.  Fez um traçado mais que perfeito do genial cineasta, desvendando intenções que passariam despercebidas aos menos atentos.  Com uma notável acuidade interpretativa, como assinala o acadêmico Antonio Carlos Secchin, Cony não se acanha de ficar à contracorrente do pensamento majoritário, ou seja, é um declarado cultor da independência.  Como Carlitos, entende que a estrada humana comporta muito pó, e quase nenhuma esperança.                                Em mais de 150 páginas do livro, mostra que Carlitos é a nossa luta.  Descobre, no exame  acurado da sua biografia, que Chaplin era meio-judeu, pois sua mãe Hannah provinha da coletividade israelita da Irlanda.  Aqui se estabelece uma discordância, pois filho de mãe judia é judeu ( e não meio).  Carlitos não é  comunista, mas um ser humano dotado de uma feroz individualidade.  Ao fazer “O grande ditador”, deixou clara a sua repulsa ao crescimento do nazismo.  Lutou com as armas de que dispunha.  Na hora da adversidade, sentiu-se judeu.                                 Para Carlitos, a recompensa se traduz sempre no pão e no amor.  Depois de brilhar em quase uma centena de filmes mudos, Chaplin saiu-se com esse pensamento: “O cinema é uma arte pictórica.  O som aniquila a grande beleza do silêncio.”  Era uma forte justificativa, mas que não perdurou.  Ele chegou a sonorizar alguns filmes, como “Tempos modernos” e “Luzes da cidade”, dois dos seus mais emocionantes clássicos, sempre deixando o vagabundo a um passo do ridículo e do sublime (como a sua paixão pela vendedora de flores que era cega).  Fez da mímica uma arte incomparável.                                  No citado livro de Cony, há outros ensaios também destacados.  Abordou o romance carioca, para se referir a Machado de Assis, Manuel Antonio de Almeida e Lima Barreto, nos quais se exprime a essência dos nascidos no Rio.  É claro que o maior destaque é para Machado, com o seu estilo em que não aparecem paisagens, cores, árvores ou mesmo o sol.  Ele compôs o mosaico do seu tempo, valorizando aspectos da psicologia dos seus personagens.  E assim se tornou também genial.                                   Pedindo “luz, mais luz”, Cony citou Goethe, como poderia ter falado no matemático escandinavo Abel, que morreu aos 26 anos de idade com o mesmo desejo.  Focalizou Guimarães Rosa (com o amor impossível por Diadorim), Teilhard de  Chardin, Victor Hugo, Mark Twain, Suetônio, Gorki... para  terminar em Nero, que morreu aos 31 anos de idade, depois de ser imperador de Roma por 14 anos.  A razão dessas escolhas é um segredo  muito bem guardado por Carlos Heitor Cony.