Portuguese English French German Italian Russian Spanish
Início > Artigos > A única certeza

A única certeza

 

A pergunta que mais tenho ouvido é: “E agora, o que vai acontecer?” Costumo responder assim: “Se souber, me fala, porque também não sei”. E nem sei se alguém sabe. O ponto de interrogação é o mais usado ultimamente nos textos políticos, a começar pela questão básica: Temer fica ou cai? Embora ele tenha dito e repetido que não renunciará, a afirmação não é garantia de permanência, já que ficar ou não ficar não depende apenas de sua vontade, contra a qual, aliás, há mais de uma dezena de pedidos de impeachment, inclusive da OAB, aprovado pelos votos de 25 conselheiros federais e com apenas um contrário.

Lydia Medeiros revelou ontem em sua coluna que o próprio presidente teria concordado com a ideia de renúncia, desde que houvesse a garantia de que ele não iria para a prisão. Os articuladores da solução para a crise — Sarney, FHC, Romero Jucá e Renan — estariam discutindo então “opções como indulto ou pedido de asilo”. Mas como nada é fácil nesse momento, Temer fora, de um jeito ou de outro, quais seriam os candidatos a ocupar o seu cargo? Quem e o quê viria depois?. “O primeiro obstáculo”, diz a colunista, “é a escolha de um nome de consenso” numa eleição indireta. 

Nos últimos dias surgiram vários “candidatos” à possível sucessão — Gilmar Mendes, Nelson Jobim, Cármen Lúcia, Tasso Jeireissati — mas algum deles alcançaria o consenso? Cada um esbarra em restrições ou resistência. Meu Ibope particular, por exemplo, feito de amigos, parentes, conhecidos, vizinhos aponta uma preferência, que é também a minha: Cármen Lúcia, ou Cármen lúcida. O problema é saber se ela quer e se tecnicamente pode. Parece que nos dois casos a resposta é não. Além de não ser filiada a partido, dificilmente trocaria a magistratura, que tanto ama, por um mandato fugaz na Presidência da República, onde só esbarraria no caminho com pepinos e abacaxis. 

A poeta Liane dos Santos, leitora do físico alemão e Prêmio Nobel Werner Heisenberg, descobridor do princípio da incerteza, que ele prova matematicamente, cita a teoria do mestre, que pode ser resumida livremente assim: “Só existe uma certeza, a da incerteza”. Se a tese precisasse ser confirmada, o Brasil de agora seria um bom laboratório.

P.S. Uma última questão: como o Ministério Público explica a complacência que permitiu a Joesley Batista sair com mais dinheiro do que entrou no processo de delação, receber mais de prêmio do que vai pagar de multa? Em compensação, o mercado foi à forra: as ações da JBS despencaram na Bolsa desde as denúncias de seu principal executivo.

O Globo, 24/05/2017