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Tudo já ou nada nunca

O Eclesiastes ensina que para tudo há um tempo: o de nascer e o de morrer, o de chorar e o de rir, o de construir e o de destruir...

Muito bonito e respeitável. Mas a situação brasileira atesta que tempos distintos podem coincidir e se atropelar. O tempo de plantar e o de colher podem ser simultâneos. A hora de arrancar ervas daninhas pode acompanhar a de semear novas mudas. Estamos num momento desses.

Por mais aflitivo que pareça quando somos instados a vivenciar uma realidade complexa, não podemos esquecer que o tempo jurídico difere do tempo político. Sabemos que os rituais do primeiro se arrastam e exigem variadas etapas, os do segundo precisam ter agilidade e eficácia para impedir a paralisia do país. Também os tempos da política e da economia são distintos — como o PSDB tem mostrado, em sua percepção de que deve desembarcar de um governo que nem se consegue mais adjetivar e, paralelamente, em seu entendimento de que a necessidade de adiantar ao máximo as reformas é uma premência da nação, que há décadas posterga as modificações estruturais indispensáveis a seu futuro. A gama de adiamento de urgências vai do custo Brasil onde nos atolamos desde quando a memória alcança, até a reforma da Previdência, que sempre derrapa em algum obstáculo novo, capota e perde o rumo. Adia-se o essencial, num misto de defesa de interesses individuais com teimosia cega, ignorância convencida de estar certa e a mais absoluta falta de fraternidade.

Ah, porque aí entra outro tempo, com outra urgência, a lembrar prioridades prementes sempre negadas, em imbatível mecanismo de procrastinação, a privar a população do básico a que tem direito para uma qualidade de vida digna. Quem tem fome tem pressa, ensinou Herbert José de Souza, o Betinho. Quem vive na sujeira ou sem teto, também — e não dá mais para ficar adiando saneamento e habitação popular. Igualmente tem urgência quem não tem segurança pública e não pode andar tranquilo na cidade onde vive. E quem não tem hospital nem posto de saúde. Ou escola pública boa, capaz de criar igualdade de oportunidades para todos. 

Educação, saneamento, segurança, previdência. Tudo custa dinheiro. Recursos para isso exigem que se pare de deixar as reformas estruturais para depois. Em algum ponto há que interromper esse eterno processo de procrastinar as medidas indispensáveis para garantir o crescimento econômico e a diminuição das desigualdades. É claro que temos de começar a resolver as crises que se somam agora, sem data para acabar, a partir da constatação dos níveis de corrupção e da intensidade com que nos mentiram e nos enganaram. Mas enquanto fazemos isso, não podemos sufocar a consciência de que é inadiável consagrar tempo e dedicação para consertar as estruturas que paralisam este país tão rico e o impedem de crescer e ser igualitário. Não dá para aceitar que esses mecanismos continuem prejudicando jovens e crianças, corroendo a velhice de quem trabalhou a vida toda, condenando ao desemprego milhões de brasileiros, em números assustadores e crescentes.

Até quando vamos continuar caindo em conversas ocas e nos deixando enganar por belas palavras e promessas mentirosas? Até quando vamos recusar a busca de consensos e insistir em confrontos que não deixam avançar? Por mais que seja lindo lembrar que o voto popular é a fonte legítima da representação democrática, fechar-se a qualquer alternativa que não seja a de eleições diretas para já, tendo que antes mudar a Constituição em um rito demorado (a ser seguido por longo processo eleitoral e logo iniciar mais outro), acaba sendo apenas um modo de adiar a saída, prolongar a crise com uma meia-sola, nos engambelar. Mais que isso, é uma forma eficiente para que interesses escusos possam impedir o que quiserem — seja a Lava-Jato ou a prisão de alguém que querem manter fora do alcance da lei, ou as reformas que poderiam cortar privilégios aos quais se acostumaram. A sociedade perde tempo, para que espertalhões ganhem tempo. Insistir no “tudo já” pode significar “nada nunca”. A quem interessa?

Escrevo antes da decisão sobre a chapa Dilma-Temer no TSE. No ar, a pergunta : será que vão dar atestado de que “todas as doações foram feitas na forma legal e aprovadas pela Justiça Eleitoral”? Abuso de poder econômico passa a ter prazo de validade e reserva de mercado para fatos velhos? Será que fora do “tudo já” da cassação (e por que só agora?) existe apenas o “nada nunca” da impunidade? Qual o efeito desse salvo-conduto em nosso futuro?

Temos de dar um basta a tanta enganação e mentira. Sepultar o tal “personal enganator” de estimação, que cada um escolhe como quer neste tempo de partidos e de nação partida, mas que sempre serve para congelar tudo nesta sociedade Tabajara — como classificou Fernando Gabeira há poucos dias.

É preferível trazer à roda o poeta pessoal de cada um. O meu é Carlos Drummond de Andrade: “Chega um tempo em que a vida é uma ordem. A vida apenas, sem mistificação.”

O Globo, 10/06/2017