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Palmas para a boa notícia

São tão raras as boas notícias hoje que vale a pena comemorar os quatro anos de uma vitoriosa experiência pedagógica, cujo conceito inovador consiste em adotar “a educação com e através de uma causa”, de preferência associando o aprendizado formal ao exercício da cidadania.

A teoria foi posta em prática pela educadora Silvana Gontijo no Planetapontocom e na Nave, escola profissionalizante e centro de disseminação para a rede pública de seus métodos experimentais. Já preocupada com a questão hídrica em 2014 e aproveitando os 450 anos da cidade, ela engajou seus alunos num projeto de transformação social que está salvando “o rio do Rio”, o Carioca.

Motivados e orientados pelos professores, eles foram à luta, pesquisando e aprendendo que aquele depósito flutuante de lixo e esgoto in natura fora durante séculos a principal fonte de água potável da população, tendo ainda, segundo os tupinambás, a propriedade de embelezar as mulheres que nele se banhavam e de tornar mais viris os homens que a bebiam. Entre as muitas histórias que recolheram, está a da grande estiagem de 1860, que gerou uma crise de abastecimento capaz de justificar o replantio da maior floresta urbana do mundo, a Floresta da Tijuca.

“Foi então que nós, adultos, resolvemos entrar em cena”, conta Silvana. Moradores das comunidades do Cosme Velho foram mobilizados, os professores das escolas públicas da região foram estimulados a trabalhar o tema nas salas de aula, e um grupo de pesquisadores e educadores promoveu num fim de semana atividades culturais e educativas no Largo do Boticário, cobrando providências das autoridades. De lá, eles seguiram até o Aterro do Flamengo, onde o Carioca deságua poluído.

Segundo ela, as conquistas foram muitas. “Conseguimos a canalização de esgotos da parte visível do rio, fizemos três mutirões de limpeza dos resíduos sólidos, empreendemos inúmeras ações de educação ambiental e o tombamento do Carioca como patrimônio histórico e cultural. Agora, estamos entrando em alguns editais para viabilizar iniciativas voltadas para replantio, educação ambiental, saneamento e projetos urbanísticos”.

Mas, para Silvana, a maior conquista foi a das crianças e jovens, que, rompendo o “rigor das disciplinas em caixinhas separadas” e por meio de metodologias interdisciplinares, aprenderam Geografia, História, Ciências da Natureza, Química, Biologia, enquanto descobriam que também podem mudar o mundo defendendo suas causas.

Moral da história. A educação quando tem uma causa é mais motivadora, fazendo do dever um prazer.

O Globo, 14/04/2018