Início > Artigos > O cálido sol dos anônimos

O cálido sol dos anônimos

Recentemente, participei da Festa Literária de Santa Maria Madalena, na Região Serrana fluminense, em plena Mata Atlântica. Tem passarinho de todo tipo, galo cantando ao longe na madrugada, céu estrelado. Festa para ninguém botar defeito, que se realiza pela oitava vez e envolve toda a cidade, de pouco mais de dez mil habitantes.

De início, homenageavam autores já falecidos, como Clarice Lispector. Depois, passaram aos que ainda estamos por aqui, e nos últimos três anos honraram com seu carinho Ferreira Gullar, Antônio Torres e a mim. Meses antes, começam a ler nossos livros. Não só em todas as escolas, envolvendo crianças e adolescentes, mas em clubes de livros e rodas de leitura, com adultos discutindo nossas obras.

Por isso, ao entrar na cidade, todo mundo me conhecia — de leituras e fotos. Eu andava pelas ruas, e moradores vinham me abraçar vestidos como meus personagens. Outros se levantavam das mesinhas diante dos bares e vinham comentar sobre o protagonista ou a situação de um romance. Cardápios de restaurantes davam nomes de meus livros aos pratos — por exemplo, “Aos quatro ventos” virou petisco com pastéis de quatro queijos diversos.

Lojas ornamentaram fachadas com temas alusivos a minhas histórias. Na praça principal, cada escola montou uma tenda apresentando trabalhos que as crianças tinham feito sobre minha obra. E tinha barraca de livraria, de artesanato, de gastronomia local. Pousadas cheias. Uma grande movimentação turística, que incorporava shows e concertos, com o luxo de apresentação da Banda Euterpe, que existe há 120 anos.

Tudo feito em mutirão pelo conjunto da população. Com algum apoio do comércio e da prefeitura, sim, mas sem padrinho político nem dependência de leis de patrocínio cultural nem queixas agressivas pela falta de recursos.

Às vezes, nos grandes centros, a gente perde a noção de quanto o Brasil profundo é capaz de fazer, a nos dar alento e vigor. Santa Maria Madalena e sua Flim comprovam isso, mas não estão sozinhas. Em matéria de festas literárias, desde que a Flip em Paraty virou modelo para dezenas de outras pelo Brasil adentro, elas se sucedem.

Não apenas em polos turísticos a revitalizar seus atrativos, como sucedeu em Olinda, Araxá, Poços de Caldas, Cachoeira, São João del Rey e tantos outros lugares. Mas também pela apropriação de uma boa ideia a serviço de comunidades até então carentes de uma atividade agregadora desse tipo — como quando surgiram a Flupp e a Flup Pensa, nas UPPs e periferia do Rio, a partir do empenho de entusiastas como Julio Ludemir e Ecio Salles, em iniciativas já consolidadas, revelando autores de outras vivências, que enriquecem a todos nós. Por vezes, contam com o apoio de meios acadêmicos mais antenados — como a Universidade das Quebradas e do Grande Rio no caso da Flupp.

Ou de Passo Fundo, nas memoráveis Jornadas que reuniam cinco mil pessoas sob uma lona de circo para discutir leitura. Ou de Maringá, onde o efeito dos bons professores transparece nas perguntas da plateia. Ou do Cole, congresso de leitura que reúne anualmente em Campinas alguns milhares de interessados no assunto.

O pessoal do livro é assim mesmo. Gosta de conversar sobre o que lê e lhe desperta entusiasmo. Faz questão de compartilhar com os outros a alegria da leitura. Mas reclama que há três anos o governo não lança edital para atualizar bibliotecas escolares com literatura (e como se levam dois anos para preparar e distribuir as encomendas, serão ao menos cinco anos deixando as crianças sem livros novos).

Os encontros se multiplicam. Em Araxá, em Santarém. Sempre na certeza de que bons livros e bons leitores podem ajudar a sair deste pântano medíocre em que caímos. Mesmo que os patrocínios oficiais não se mantenham da mesma forma.

Às vezes, é uma professora aposentada que desenvolve um projeto pessoal (como a Cris, em Petrópolis), professores inventivos ligados a uma ONG (o caso de Arari, Pindaré Mirim, Vitória do Mearim, Santa Rita, Itapecuru, no Maranhão) ou um livreiro que vira animador cultural — como vi em Ponta Grossa ou em Tangará da Serra, Sinop, Sorriso, Lucas do Rio Verde, em Mato Grosso. Admiro há anos escolas particulares de excepcional qualidade, que não deixam a peteca cair — como a Projeto (Porto Alegre), a Balão Vermelho (Juiz de Fora), a Miraflores (Niterói).

Já vi escolas públicas se mobilizarem de forma admirável, como a de Guaratiba a congregar pais e vizinhos, a de Itapoã cobrando pedágio dos motoristas para organizar uma feira de livros e levar autores.

Tudo isso dá alento. Sobretudo na escuridão destes dias de indignação cívica, vergonha do balcão de barganhas políticas, descrença em decisões judiciais incoerentes. Em meio à névoa do desânimo, esses anônimos não nos deixam perder a fé no Brasil. São maiores que políticos desonestos e insensatos, sempre a disputar holofotes, mentir sem escrúpulos e encobrir crimes mútuos.

O Globo, 28/10/2017