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Memória e responsabilidade

Trago dos anos de exílio uma lembrança que me aperta o coração. Saía do trabalho e, numa esquina movimentada, vi pessoas reunidas em torno a uma senhora de costas para mim a pedir uma informação, sem falar a língua local. De repente, ela se virou e nos abraçamos comovidas: era uma ex-professora minha, queridíssima. Estava de turista na cidade. Nenhuma das duas sabia que a outra andava por ali.

Fazia anos que não nos víamos. Fomos almoçar, felizes com o encontro inesperado. Começamos a trocar notícias sobre ex-alunos dela. Entre mortos, presos, desaparecidos, banidos, torturados, passamos em revista sucessivas séries escolares. De início, com eventual nó na garganta. Depois, ela não se conteve: chorava a ponto de chamar a atenção das mesas vizinhas. Aos poucos, confidenciou, citando dois colegas.

— É difícil dormir, tenho pesadelos com vocês. E não só eu. Pelo menos Fulano e Sicrano também passam por isso, já conversamos. A gente sabe que tem culpa. Jogamos gasolina, acendemos o fósforo, botamos fogo. Vocês confiaram e foram em frente. Nós ficamos, incentivando de longe. Os alunos é que pagaram. Eu nunca vou me perdoar. Não foi pra isso que resolvi ser educadora. Mas foi o que nós fizemos. Essa certeza está me matando.

Morreu pouco depois.

Lembrei-me dela há pouco, ao ler uma declaração do historiador e ex-guerrilheiro Daniel Aarão Reis, a propósito da opinião de um professor da USP defendendo que as pessoas “se preparem para exercer seu mais profundo direito, o da resistência armada contra a tirania”. Cito Daniel, em memória de nossos mestres comuns: “Nos anos 1960, vi muitos professores e artistas concitando o povo à luta armada, mas quando a cobra fumou não foi possível ver nenhum deles de armas na mão.”

Para manter a memória e avivar responsabilidades, ofereço outras frases recentes, que vale a pena guardar: “No tocante a vazamentos, a lei 12850 disciplina que deve haver sigilo sobre delações em curso, sobre a prova colhida no âmbito das delações, até o momento em que Poder Judiciário levante o sigilo, e é com esse acatamento ao que dispõe a lei que tratarei dessas questões aqui na PGR.” (Raquel Dodge)

“Que o legado do professor Cancellier seja o de ter exposto ao país a perversidade de um sistema de Justiça criminal sedento de luz e fama, especializado em antecipar penas e martirizar inocentes, sob o falso pretexto de garantir a eficiência de suas investigações.” (Do procurador-geral de Santa Catarina sobre o suicídio do reitor)

“O sociopata é um psicopata que opera no atacado. Não tem barreiras morais que se interponham a seus propósitos criminosos. Não há remorso, não há reconhecimento de erro, não há humildade. Ao contrário, há megalomania: a convicção de superioridade, de estar acima do bem e do mal. (...) Fazer-se de vítima? Ele será a maior vítima do mundo. Mentir descaradamente? Ele fará a mentira soar como a maior das verdades. Ignorar o que disse ontem e dizer o justo oposto? Foi você que ouviu mal, ele sempre pensou assim. Compromisso com a verdade, com a dignidade, com a honestidade? Zero.” (Francisco Daudt, psicanalista)

“O que aconteceu no Brasil de uma forma geral foi uma certa naturalização das coisas erradas, e as pessoas deixaram de ter consciência crítica a respeito delas, e passou a ser um modo natural de se fazer negócios e de se fazer política. (...) Três anos de Lava-Jato em curso e, infelizmente, as práticas continuavam rigorosamente as mesmas de quando tudo começou. Estamos passando por tudo isso sem nenhum proveito, sem mudança do patamar ético da política no Brasil.” (ministro Luís Roberto Barroso)

“A cultura do descumprimento de decisão judicial é conducente ao caos político e institucional e à destruição da ideia do estado de direito.” (ministro Luiz Fux)

“Nada importava, nem mesmo o erro de eleger e reeleger um mau governo, que redobrou as apostas erradas, destruindo, uma a uma, cada conquista social e cada um dos avanços econômicos tão custosamente alcançados. (...) Até quando vamos fingir acreditar na autoproclamação do “homem mais honesto do país” enquanto os presentes, os sítios, os apartamentos e até o prédio do Instituto (!!) são atribuídos a dona Marisa? Afinal, somos um partido político sob a liderança de uma pessoa de carne e osso ou somos uma seita guiada por uma pretensa divindade?” (Antonio Palocci)

“O drama do PT, partido que se chamou dos trabalhadores mas só teve êxito ao expandir sua interpelação, foi ter se deixado contaminar por práticas delituosas e, mais importante ainda, ter levado o país a uma crise econômica que impossibilitava a própria sustentação da política social e não ter tido força, ou vontade, para redistribuir riqueza por meio de mudanças estruturais.” (José Murilo de Carvalho, historiador)

A cada um de nós, o exercício de compor essas opiniões em um quadro único. Ou esquecer, se preferir e conseguir.

O Globo, 14/10/2017