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Horas de reconciliação

Se você não aguenta mais ouvir falar de corrupção, se não suporta essa tentativa de acabarem com a Lava-Jato, se a lista de Janot, recheada de governadores, senadores e ex-presidentes, o deixou deprimido, se está, enfim, desiludido com o país, faça como eu, vá ver “Cartola — o mundo é um moinho”. Aliás, como eu e os paulistas, que aplaudiram o musical durante dois meses. São quase duas horas de reconciliação com um país que produziu tantos vilões, mas em compensação foi capaz de criar gênios como esse da música popular, talvez o maior sambista da História, digno de um Prêmio Nobel.

O espetáculo adotou como opção dramatúrgica o ensaio numa quadra de escola de samba para o desfile de carnaval cujo enredo é a vida e obra do Mestre Cartola. Enquanto se fica conhecendo ou relembrando os principais episódios da trajetória do autor, alternam-se os clássicos que formam uma antologia de obras-primas: “O mundo é um moinho”, “As rosas não falam”, “Acontece”, “O sol nascerá”, “Alvorada”, “Quem me vê sorrindo”, entre outras. Uma das surpresas é a excelência do elenco. São 18 artistas que cantam e dançam como se fossem nascidos e criados na Mangueira, mas são todos de São Paulo, que Vinicius de Moraes dizia ser o “túmulo do samba”. Destaques para Flávio Bauraqui, que mimetiza Cartola, imitando perfeitamente sua voz e a maneira de falar e de cantar. E para Virgínia Rosa, a Dona Zica.

O cancioneiro de Cartola é uma espécie de autobiografia sentimental de suas esperanças, queixas e confissões amorosas. Trata-se de uma lírica altamente sofisticada de quem tinha apenas o curso primário e, no entanto, era um genial poeta. Há na peça emoção e também diversão com as idiossincrasias do autor: a teimosia, a vaidade, o orgulho, a consciência de seu valor, a resistência em vender suas primeiras músicas, a incompreensão do pai em relação ao valor do filho, a relação com a querida escola, que nem sempre fez justiça ao maior compositor de sua história, os árduos tempos. E, enfim, o primeiro disco aos 65 anos. O musical ajuda a desfazer estereótipos, como o de que o samba é exclusividade de um ou outro lugar. Não é bem assim. Cartola não nasceu no morro, e sim no histórico Catete, onde morou e morreu um presidente da República, e foi criado em Laranjeiras, o nobre bairro de dois palácios, o da sede do governo e o da residência oficial do governador. E, mais importante, é o território do Fluminense, o clube cujo verde Cartola, apaixonado torcedor, se inspirou para a bandeira da escola que ajudou a fundar. Há muito mais que não cabe neste espaço. Resumindo, deixamos o teatro com a sensação de que, além da Lava-Jato, temos uma operação lava-alma.

O Globo, 18/03/2017