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A honra e o crime

Somos um povo honrado, governado por ladrões". A frase não é minha, é de Carlos Lacerda, na campanha que terminou com o suicídio de Getulio Vargas. De minha parte, não considero o povo brasileiro tão honrado assim. É um povo bom, capaz de fazer algumas maravilhas, inclusive nas duas pontas da moral política.

O exemplo mais evidente é a representação política que elege parlamentares de todos os níveis (senadores, deputados e vereadores), que se notabilizam pelas propinas, que incluem desde o dinheiro até a dança dos cargos públicos.

Até certo ponto, as exceções são poucas e nem sempre reconhecidas pelo voto popular. Pode-se dizer que outros países apresentam o mesmo perfil político. Quanto aos ladrões que nos governam, há exceções, mas poucas. Um dos mistérios que nunca decifrei foram os momentos de progresso que tivemos. Progresso que nem sempre foi isento de maracutaias, que não foram punidas pela opinião do povo, que insiste em votar em políticos notórios pela insensibilidade com os problemas nacionais e que eventualmente terminam nas grades da polícia.

A Operação Lava Jato procura, com muita dificuldade, punir os casos mais berrantes da improbidade pública. Os equívocos são muitos e até mesmo ridículos. Houve num país sul-americano a descoberta de que a primeira-dama tinha sapatos demais. Também a mulher de um ex-presidente comprava um milhão de roupas. Atualmente temos o caso de Sérgio Cabral Filho, que colecionava joias.

A frase de Lacerda, em 1954, continua valendo, mas é discutível a honradez do povo, que pratica a violência em vários níveis, até mesmo no futebol. O pior não é isso: a incapacidade de escolher representantes, insistindo em mandar para o Legislativo alguns políticos escandalosamente corruptos. 

Folha de São Paulo (RJ), 10/09/2017