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Graças a elas

Ainda nas celebrações do Dia Internacional da Mulher, neste primeiro artigo que publico após 8 de março, não quero deixar passar a data em branco. Faço aqui alguns registros e homenagens. Mesmo se algumas são destaques apenas de minha vida pessoal, têm valor simbólico, e sua ação afetou muita gente.

Para começar, dou graças a umas tantas mestras e artistas que contribuíram para minha formação estética. Antes de mais nada, algumas professoras de língua e literatura no ensino médio, com quem adquiri segurança para escrever — Laís Miriam Pereira Lira, Aparecida Libânio, Anéris Bastos, Margarida Ferreira. E na faculdade, a centenária Cleonice Berardinelli, hoje minha confrade na Academia Brasileira de Letras, mestra em abrir caminhos para leituras fecundas de Pessoa e Pessanha, Eça e Camões. Em seguida, na busca de veredas nas artes visuais, no Atelier Livre do Museu de Arte Moderna, foi importante em minha adolescência o reforço advindo do contato com a sensibilidade cromática da pintora Teresa Nicolau. E jamais poderei agradecer suficientemente os desafios propostos pelo rigor da reflexão instigante da gravadora Fayga Ostrower. Nunca fui capaz de me expressar musicalmente, mas tiro o chapéu e reverencio a musicista e educadora Cecília Conde, por tudo o que me deu e ensinou na vida com sua sabedoria e sensibilidade — impossível mensurar quanto lhe devo ou continuo a admirá-la. E há poucos dias tive a alegria de ver neste jornal uma foto recente de minha queridíssima quase nonagenária Angel Vianna, bailarina e coreógrafa, a receber aplausos em cena. Muito merecidos sempre. Nos bastidores de minha vida, o que aprendi com ela é marca duradoura.

Meu carinho a todas e minha gratidão por esta linha de transmissão de ensinamentos, entre livros e telas, melodias e ritmos, dança e palavras. E magistrais modelos de vida.

Por outro lado, registro com grande admiração essas moças aguerridas que renovam o movimento feminista pelo mundo afora, por meio do #Metoo e iniciativas similares, com coragem de denunciar o que sempre se calou. Fizeram cada uma de nós entender que não estamos mais sozinhas, encurraladas e mudas diante da força de prepotentes que se achavam no direito de assediar, exigir favores e abusar, certos da impunidade.

O alcance do que estamos conseguindo pode ser medido por um fato significativo. Há poucos dias a mídia anunciou a queda de um império. O estúdio do outrora todo-poderoso produtor americano Harvey Weinstein entrou com um pedido de falência. Tinham se passado menos de quatro meses desde que, em outubro, se publicaram as primeiras denúncias contra ele, numa sequência em que mais de 70 mulheres o acusaram de má conduta sexual. Na bola de neve que se seguiu, sua situação ficou insustentável. Pelo mundo afora, a sociedade se dá conta de que está acabando uma era. Nunca mais esse tipo de prática terá a garantia de ser encoberto por um manto de silêncio acuado e atemorizado. Não é pouca coisa.

Faço outro registro, na dor solidária. Nos últimos dias de fevereiro, o grupo extremista islâmico Boko Haram invadiu mais uma escola na Nigéria e realizou um sequestro maciço de 110 meninas adolescentes, levadas sob ameaça de armas, para serem “noivas” dos milicianos. Como fizera em 2014, com outras 276. As autoridades, amedrontadas, demoraram dias para admitir o que havia ocorrido. O resto é silêncio.

Mas há um contrapeso: a advogada Amal Clooney (ela mesma, mulher do célebre George) e a ex-escrava iraquiana do Estado Islâmico Nadia Murad, agora refugiada na Alemanha, estão lutando para levar jihadistas a julgamento internacional em Haia por crimes desse tipo. Que se levantem por todo o mundo as vozes da condenação, com o mesmo vigor com que há décadas se lutou contra o apartheid na África do Sul até derrotá-lo.

Saúdo ainda o heroísmo das professoras Heley de Abreu Batista, Jessica Morgana e da auxiliar Geni Oliveira. Deram a própria vida para impedir que mais crianças morressem no incêndio criminoso de uma creche em Janaúba, Minas Gerais. Que sejam reverenciadas.

E salve a jovem Nadia Ayad, recém-formada em Engenharia pelo IME do Rio, que criou um sistema de dessalinização e filtragem de água usando o grafeno, que irá possibilitar o acesso à água potável a milhões de pessoas, no enfrentamento de um dos maiores problemas do planeta a baixo custo energético.

Que se exalte ainda a cientista Joana d’Arc Felix de Souza, filha de uma doméstica e de um curtidor. Estudando em escola do Sesi, passou na Unicamp, onde foi bolsista e fez doutorado. É PhD em Química por Harvard. Ganhadora de 56 prêmios, preferiu voltar ao Brasil e ser professora na Escola Técnica de Franca (SP). Inovadora e inventora, já desenvolveu 15 patentes com seus alunos.

A todas elas, artistas, professoras, cientistas, e tantas mais, o Brasil agradece.

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A autora está em viagem no exterior e este artigo foi escrito antes da execução de Marielle Franco. Diante do fato, cessa tudo que não seja um veemente protesto contra essa barbárie.

O Globo, 17/03/2018