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Fim de caso

Agradeço a gentileza de ter devolvido os poemas que mandei para você mostrar a seu amigo. Tenho certeza de que nem ele nem você leram qualquer poema que lhe emprestei para tentar convencer da necessidade do Orlando continuar os poemas dele que você me deu.

Cheguei a aconselhar a publicação dos versos dele, arranjando uma editora profissional, neste particular eu poderia ajudá-lo. Gostei da maioria deles, embora alguns me pareçam medíocres, mas capazes de ser melhorados.

Na ocasião, comentei que os versos não pareciam escritos por ele, mas por alguém que gosta muito de você. Não se tratava de uma simples cantada que seria completamente desnecessária por ser redundante.

Aliás, depois de elogiar o sentimento de sua produção poética, percebi que parecia com declarações de amor de um marido para sua amante, muito, muito, muito apaixonado por uma mulher casada que correspondia com amor igual ou talvez maior.

Não compreendo os motivos que te fizeram mostrá-los para mim, pensei inicialmente que gostaria da opinião de um macaco velho habituado a ler originais de escritores que desejam fazer carreira literária. Gostei de vários versos, gostaria de tê-los escrito.

Fiquei decepcionado quando notei que os versos não eram de seu marido, mas de um amante, também casado, que lamenta o fato de serem casados –situação muito comum em todos os tempos, razão pela qual não são merecedores de qualquer restrição e sim de respeito (neste particular eu seria um bom exemplo). Como naquele samba de Zé Keti, "se acaso o meu bloco encontrar o seu, não tem problema, ninguém morreu".

Como na passagem de Proust ("Em Busca do Tempo Perdido"), não precisamos comentar qualquer coisa. Como disse o Zé Keti, "não tem problema, ninguém morreu".

Folha de São Paulo (RJ), 23/07/2017