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Discurso de recepção

Discurso de recepção por Celso Lafer

- I -

Inicio esta saudação ao acadêmico Fernando Henrique Cardoso sob o duplo signo de um mesmo sentimento: a amizade e a admiração. A amizade é uma grande experiência humana e, como aponta Aristóteles, nada é tão próprio aos amigos quanto a convivência na igualdade da estima recíproca. Por isso a amizade atualiza-se no contato e aumenta na continuidade do trato. Hannah Arendt, que atribuiu na sua vida a maior relevância à experiência da amizade observou que ela é “essencialmente dependente da duração” registrando que “uma amizade de duas semanas não existe”.

A importância da duração - e falo a partir de uma amizade de mais de quatro décadas com o acadêmico Fernando Henrique - provém do fato, para recorrer à lição dos clássicos, que é inerente à experiência da philia a constância do falar e do discutir os assuntos que os amigos têm em comum. Esses assuntos vão se tornando, no tempo, mais comuns a eles pelo diálogo.

Em A Soma e o Resto - um olhar sobre a vida aos 80 anos Fernando Henrique memorialista destaca o significado deste diálogo por meio do qual os amigos exercitam suas qualidades e, para evocar Cícero, corrigem-se mutuamente, na reciprocidade da afeição e dos bons ofícios. Registra que “não se pensa no isolamento, mas em uma teia de relações”. Refere-se, neste sentido, a um pequeno grupo de pessoas - a começar por Ruth Cardoso, sua colega de Faculdade e companheira de vida, e entre as quais generosamente me inclui - com os quais teve e tem um convívio de mais de 40 anos. Este grupo foi relevante para a sua vida intelectual e pública e com os seus membros manteve e mantém a constância de um diálogo plural movido pelos mesmos interesses e preocupações.

No mundo contemporâneo este diálogo corresponde ao que Aristóteles explicava ser uma das razões pelas quais os amigos se reúnem: estudar filosofia. Diz respeito à discussão sobre ideias e sobre a diversidade de situações políticas e sociais do país e do mundo. É encetado com um pequeno número de pessoas que compartilham valores e a orteguiana sensibilidade vital de pertencerem, grosso modo, a uma mesma geração político-intelectual, apesar de certa diferença de idades. Representam, como ele diz, um “grupo de apoio”, constitutivo de uma comunidade que, no pluralismo da interação de perspectivas e orientações, ajudaram-no a pensar e a agir.

Não pode haver amizade sem virtude que é o que concilia as amizades e as conserva como diz Cícero. É o que elucida Voltaire no seu Dicionário Filosófico: “os malvados têm somente cúmplices, os voluptuosos têm companheiros de orgia, quem procura interesses tem sócios, os políticos reúnem partidários, o baixo segmento social dos ociosos busca intrigantes, os príncipes procuram cortesãos; mas somente os homens virtuosos têm amigos”. Fernando Henrique tem amigos.

Entre as suas muitas virtudes que conservam as amizades - e que serão igualmente apreciadas no convívio acadêmico - aponto: a de não sentir rancor por ninguém; a de não ter inveja ou ressentimentos porque tem a segurança dos seus próprios méritos e por isso não é um espírito tortuoso; a de estar atento ao próximo como prática e não como abstração; a de ter humor, que é uma “concordia discors” que tempera e permite conter, na praxis, o enfático dos dogmatismos e também da luta política; o “dom de gentes” associado a uma exemplar e educadíssima civilidade no trato com as pessoas; o de uma identidade intelectual que, por temperamento e por um apurado sentido de realidade, sabe que esta é, ontologicamente, complexa. Por isso cabe sempre ouvir o que o outro tem a dizer.

É isso que, no plano das ideias, dele faz um intelectual aberto ao diálogo, capaz de discutir substantivamente com os amigos que efetivamente o apreciam como interlocutor. É isso que dele faz, no plano político, um ser de convicções democráticas, muito consciente de que o que dá vida à moldura institucional da democracia são as práticas e os modos de participação dos cidadãos nas decisões que os afetam. Estas práticas e modos - cito sua formulação - “São as formas pelas quais, para usar um conceito de Hirschmann, as vozes se organizam e se manifestam e criam a vida democrática”, como sublinhou no discurso com o qual recebeu, em 1997, o título de doutor honoris causa da Universidade de Bolonha. Neste mesmo discurso destaca que a aceitação da complexidade passa pela tolerância. Esta “se exprime na abertura permanente para ouvir os que discordam e sobretudo garantir o espaço de dissenso”.

Em síntese, o que desejo ressaltar é a coerente convergência entre o amigo e o intelectual capaz de dialogar com seus próximos e os seus colegas e, agora, com os seus confrades no convívio acadêmico, e o homem público que, na sua trajetória, dedicou-se à afirmação da democracia em nosso país e que, como governante, gostaria de ser lembrado nos seguintes termos, como diz em A Soma e o Resto: “Não prendi ninguém, não fui violento, exerci o poder democraticamente, ajudei a criar as condições de um futuro melhor para o Brasil”.

Não preciso dizer mais para ressaltar que é um privilégio ser amigo do acadêmico Fernando Henrique. É, assim, sobre as origens da nossa amizade, ponto de partida da minha admiração pela sua pessoa e pela sua obra, que vou falar a seguir, lembrando a lição de Políbio: o começo é mais do que a metade e alcança o fim.

- II -

Conheci o acadêmico Fernando Henrique no começo dos anos de 1960, assistindo, como jovem observador, à entrevista que realizou com o nosso saudoso confrade José Mindlin. Esta entrevista, que o professor Fernando Henrique conduziu com o talento de quem sabe ouvir e perguntar, fazia parte da pesquisa, embasadora do seu livro publicado em 1964, Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico, que foi a sua tese de livre-docência de Sociologia, apresentada e defendida em novembro de 1963 na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Li o livro quando da sua publicação, não só na perspectiva dos debates daquele momento sobre o papel da burguesia nacional no desenvolvimento econômico do país. Li-o também a partir da sensibilidade própria de quem provinha de um meio empresarial e que, além disso, conviveu no âmbito familiar com a forte presença de Horacio Lafer, que foi uma liderança empresarial de bem sucedida atuação política nacional e, à maneira de Roberto Simonsen, que integrou essa Casa, um intelectual orgânico dos méritos do processo de industrialização brasileira, como caminho de mudança do país.

O livro mostra como a burguesia industrial foi elaborando “mais do que uma política, uma estratégia, para responder aos desafios que o desenvolvimento e a formação da sociedade de massa colocam”. Elucida, sem minimizar, “a importância da redefinição das práticas e das mentalidades dos empreendedores para garantir o prosseguimento do progresso econômico”, mas aponta que o êxito empresarial dava-se no contexto de uma “situação” que transcendia o nível da empresa. Esta “situação” tinha como elementos a forma como se exteriorizava na época a expansão do sistema capitalista e passava por uma variável acomodação com a dominação política de grupos tradicionais. Explicou, assim, as limitações que, na época do atribulado governo Goulart, circundavam, no plano geral, o exercício de um papel político hegemônico da burguesia industrial brasileira.

Impressionou-me este livro - que foi o ponto de partida do subsequente e de ampla repercussão Dependência e Desenvolvimento na América Latina, escrito em parceria com Enzo Faletto no período em que, no exílio, morou no Chile e trabalhou no CEPAL. Revela o que veio a ser a marca da sua abordagem dos grandes temas da agenda, que é a de esclarecer, com apurado senso de realidade, a especificidade própria das interações entre as “determinações que são gerais e as situações particulares em que elas se inserem” e de que modo essas articulações criam trajetórias e diferenciados processos de modernização.

Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico assinala uma inflexão importante no percurso intelectual do acadêmico Fernando Henrique. Contrasta com a sua tese de doutoramento, publicada em 1962, Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional: o negro e a sociedade de escravidão no Rio Grande do Sul, que é uma contribuição significativa para o entendimento da formação do Brasil. Com efeito, Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico dá início à sua preocupação e interesse em pesquisar e escrever sobre o presente, isto é, o que está acontecendo na perspectiva do futuro, o que veio a ser o tema recorrente da sua trajetória e da sua capacidade de reinventar-se. Como apontou Francisco Weffort em 1992, no discurso com o qual o saudou quando recebeu o título de professor emérito da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, ele tornou-se o grande intelectual e o instigante teórico das relações in fieri, dos processos in the making, atento, no plano da prática, a delle cose a fare.

Para o exercício desta que veio a ser a sua vocação, o acadêmico Fernando Henrique contou com uma apurada formação de sociólogo, que depois se desdobrou coerentemente no campo afim da Ciência Política. A USP, e em particular a sua Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras deram-lhe como base inicial o sólido pluralismo das suas leituras de formação - de Durkheim, de Max Weber, de Marx, de funcionalistas como Talcott Parsons e Merton, de Mannheim e Simmel, de Dilthey e Descartes - absorvidos pela diversidade do magistério e dos interesses intelectuais e de pesquisa dos seus grandes professores, a começar por Florestan Fernandes, temperado pelo modo de ser, de lecionar e de pensar de Antonio Candido e de Roger Bastide e também, numa outra chave, do nosso saudoso confrade Fernando de Azevedo.  A Faculdade de Filosofia deu-lhe também o treinamento de sociólogo pesquisador que exige a capacidade de ouvir o Outro e de tentar entendê-lo, que foi, como ele disse inúmeras vezes, o ponto e partida do seu aprendizado, favorecido pelo convívio com André Franco Montoro e Ulysses Guimarães, das artes da política. É por isso que se pode dizer que o acadêmico Fernando Henrique é, como intelectual e homem público - que nele são as duas faces de uma mesma moeda - o mais evidente e destacado quadro que a USP produziu e que soube levar adiante de maneira singular o lema da nossa Universidade - Scientia Vinces.

Como disse, o livro Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico impressionou-me, em primeiro lugar porque me permitia entender melhor e sem viseiras as realidades do nosso país. Foi por essa razão que, quando retornei a São Paulo depois da primeira fase dos meus estudos de pós-graduação em Ciência Política em Cornell aproximei-me do acadêmico Fernando Henrique, logo depois do seu retorno do exílio. Passei a frequentar a sua casa no Morumbi e a participar das conversas sobre temas de pesquisa, e muito me vali do seu conselho no processo de elaboração da minha tese de doutoramento sobre o Programa de Metas do Governo JK. Ajudei nos preparativos e assisti ao seu bem sucedido e brilhante concurso, em 1968, à cátedra de Ciência Política na USP.

Fui vê-lo imediatamente após a lamentável aposentadoria compulsória do seu cargo de professor da USP. Este foi o meio pelo qual o arbítrio do regime autoritário, recrudescido pelo AI-5, pretendia abafar a sua voz e a irradiação da sua inteligência crítica, bem como extinguir na Universidade um projeto de renovação dos estudos de Política. O que me impressionou vivamente, na ocasião, foi a sua pronta decisão de olhar para frente e começar, no calor da hora, a pensar o que fazer para enfrentar uma situação-limite e criar condições para continuar no Brasil, pesquisando e refletindo. Dessa decisão e de sua liderança surgiu o CEBRAP, ao qual me associei desde o primeiro momento. Foi nesta circunstância que me dei conta de sua coragem política, que Montesquieu define como o sentimento das próprias forças. Foi este sentimento que traduziu, na prática e naquela conjuntura difícil, a vocação do estudioso de lidar com os processos in the making atento a delle cose a fare.

A coragem como firmeza de espírito é uma virtude geral que sustenta as demais virtudes. Possui, no entanto, uma especificidade própria na arena política. Neste sentido, Hannah Arendt explica que na esfera privada o ser humano se ocupa basicamente de si e dos próximos. Já na esfera política a coragem como virtude requer, sobretudo em condições adversas, um desprendimento para enfrentar os perigos e suportar os trabalhos a serviço da causa pública. É por isso que Bobbio entende que a coragem é uma “virtude forte” necessária para a vida política, em contraste analítico com outras virtudes, como a moderação e a sobriedade, que são próprias do homem privado. É o que o acadêmico Fernando Henrique destaca em Cartas a um jovem político.

A coragem não é um saber transmissível. É um ato de decisão pessoal. O acadêmico Fernando Henrique a manifestou quando liderou a criação do CEBRAP. Antecipou, assim, o desdobramento, no tempo, do sentimento de suas próprias forças que veio a caracterizar a sua trajetória política na oposição ao regime autoritário e subsequentemente no ofício de governar.

A partir deste momento, o da criação do CEBRAP, tive a felicidade de, lastreado na amizade, associar o meu percurso à sua trajetória e ir ampliando, no convívio, os meus horizontes, tanto como estudioso quanto como cidadão preocupado com a afirmação democrática do espaço público. Neste contexto permito-me dar um depoimento explicativo da minha admiração: Nunca saí, no correr de mais de 40 anos, de uma conversa com o acadêmico Fernando Henrique, fossem as mais espontâneas e livres, fossem as mais estruturadas, incluindo a dos despachos como Embaixador e Ministro da sua esclarecida gestão presidencial, sem entender melhor conceitos, ideias, pessoas e situações; sem perceber com maior clareza “o conjunto das coisas e não apenas esta ou aquela parte”; sem me dar conta da especificidade das circunstâncias.

Isto não se deve apenas à sua condição de grande intelectual, de scholar de alto nível que pensou e pesquisou a realidade brasileira, estudou e conhece os problemas mundiais e valeu-se de suas múltiplas experiências e da constância das suas leituras para continuamente adensar a sua reflexão. Com efeito, este abrangente repertório do seu “quadro mental”, conjuga-se com a rapidez e a agilidade de inteligência, que os gregos qualificam de anquínoia e completa-se com o discernimento de um bom juízo.

O bom juízo requer não apenas um olhar para as regularidades sistemáticas dos processos que o conhecimento enseja, mas pressupõe, como aponta Hobbes, a capacidade de observar as peculiaridades das diferenças e das dissimilitudes. É o que permite tratar e avaliar “as determinações que são gerais e as situações particulares em que elas se inserem”, para recorrer às suas palavras no Empresário Industrial e Desenvolvimento Econômico: O juízo é uma exigência epistemológica, pois como ele formulou em O Presidente segundo o Sociólogo: “A dinâmica da história não se dá pela imposição dos universais sobre os locais, nem com a explosão dos universais que se contrapõem aos locais. Existem formas de interação”.

Estas formas expressam o que Hannah Arendt, lastreada em Kant, aponta como sendo o mérito do juízo reflexivo que opera na situação na qual só o particular está dado, cabendo ao juízo efetuar a mediação entre o particular e os universais fugidios para assegurar o sentido de direção. É a qualidade do juízo reflexivo que caracteriza o percurso do acadêmico Fernando Henrique, seja no campo acadêmico, como estudioso e grande teórico dos processos in the making, seja, unindo teoria e prática na condução da política externa brasileira e na sua condição de ator protagônico da nossa vida política.

O juízo político não é apenas lógico, por isso não basta Descartes. Não se circunscreve ao pensar e ao querer, ao descrever, ao calcular ou ao inferir. Requer, como diz em Cartas a um Jovem Político, evocando Isaiah Berlin, a capacidade de, no trato com a realidade, ajuizar e escolher o caminho que é, inclusive, o que permite lidar com o inesperado. Este, em política, é a situação normal, não a exceção, como observa mais adiante neste livro na condição de quem a viveu e pensou de “dentro” e não de “fora”.

Nosso sábio Machado de Assis aponta, em Esaú e Jacó, que o imprevisto é “uma espécie de Deus avulso” que “pode ter voto decisivo na assembleia dos acontecimentos”. O imprevisto corresponde ao que Maquiavel chamou de fortuna que, como “caso, tempo e sorte/Tem do confuso mundo o regimento” nas palavras de Camões. Para que a fortuna possa ter impacto efetivo “na assembleia dos acontecimentos” é preciso ter virtú, o conjunto de qualidades necessário a um homem de Estado. O acadêmico Fernando Henrique, por conta da sua virtú, soube descortinar as oportunidades que a fortuna dos imprevistos abriram para a sua trajetória. É esta consciência que explica o título The Accidental President of Brazil, a sua bela e esclarecedora narrativa autobiográfica, que é também reveladora do significado que as discussões em sua casa, bem como a experiência da herança familiar, tiveram para moldar não apenas a sua sensibilidade e o conhecimento vivo da história, mas também a percepção da abrangente diversidade do nosso país.

- III -

Um tema recorrente da vida acadêmica é o dos critérios que devem presidir a composição dos quadros da instituição. Na fase inicial da consolidação da Academia esta matéria foi muito discutida na correspondência entre Machado de Assis e Joaquim Nabuco. Em mais de uma ocasião Joaquim Nabuco, levando em conta o modelo da Francesa, que inspirou a concepção da nossa, argumentou que a Academia deveria caracterizar-se por “uma esfera mais lata do que a literatura exclusivamente literária” e abrir-se igualmente para aquilo que qualificou como “as superioridades do país”.

O acadêmico Fernando Henrique, quando mais jovem, ensaiou alguns passos no mundo da criação poética, publicando na Revista dos Novíssimos, mas cedo convenceu-se que esta não era a sua vocação. É interessante, no entanto, registrar que a sua decisão de ingressar na Faculdade de Filosofia e estudar Ciências Sociais resultou de conversas iniciais em Lindóia com o professor Fidelino de Figueiredo, o grande mestre da Literatura Portuguesa e o querido professor e inspirador da carreira da nossa acadêmica Cleonice Berardinelli. Pode-se, assim, dizer que foram as Letras que o levaram para a Sociologia. Isto, naturalmente, não fez de sua candidatura e eleição para a nossa Casa uma escolha por méritos de criador literário, ainda que se possa argumentar, evocando Isaiah Berlin, que existe uma aproximação entre o olhar do estadista que integra na sua ação o vasto amálgama da textura de vida e o dom do artista e do criador literário. O certo, no entanto, é que Fernando Henrique como acadêmico enquadra-se nos critérios propostos por Nabuco e, neste âmbito, entre os pensadores do Brasil, a começar pelo próprio Nabuco, presença originária na sua reflexão, “desde as premissas até a conclusão da tese, que se transformou no livro Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional”, para recorrer às suas próprias palavras. “Joaquim Nabuco, democrata” é o título da notável conferência por ele pronunciada nesta Casa em março de 2010, que representou também uma das etapas da sua aproximação à Academia, fruto da iniciativa do nosso confrade Marcos V. Villaça, subsequentemente um dos paladinos da sua eleição. Esta conferência integra o seu mais recente livro Pensadores que inventaram o Brasil.

Este livro é muito revelador da importância que tem no “quadro mental” do acadêmico Fernando Henrique Cardoso o estudo e a reflexão sobre os grandes autores que se preocuparam em analisar a “formação do Brasil”. Entre eles, além de Joaquim Nabuco, Euclides da Cunha, Celso Furtado e Raymundo Faoro, que honraram a nossa Casa como eminentes acadêmicos, Paulo Prado, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Antonio Candido e Florestan Fernandes.

No posfácio a este livro, nosso confrade José Murilo de Carvalho destaca a abertura e a agilidade da leitura do acadêmico Fernando Henrique - o que qualifiquei como sua anquínoia - não apenas em relação aos autores a que está vinculado por laços intelectuais e afetivos, como Florestan Fernandes, Antonio Candido, Sergio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., ou por afinidades de ideias, como Joaquim Nabuco, mas também quando os autores analisados não se enquadram nestas características, apontando neste sentido o alcance de sua análise da obra de Gilberto Freyre e de Raymundo Faoro. Realça nosso confrade José Murilo, ele mesmo um pensador do Brasil, que o que caracteriza a abordagem do acadêmico Fernando Henrique é a preocupação de buscar conteúdo e de apontar como os autores analisados avançam no conhecimento do nosso país e de sua inserção no mundo.

É esta postura, como esclarece no grande ensaio sobre Nabuco reiterando observações em A Arte da Política, que o leva a apreciar, na busca de conteúdo que permite o avanço do conhecimento, tanto o 18 de Brumário de Marx quanto as Lembranças de 1848 de Tocqueville, ainda que não acompanhe a visão liberal conservadora do grande pensador francês. Em síntese, o mais recente livro do acadêmico Fernando Henrique explicita no campo da história do pensamento a sua característica de intelectual aberto ao diálogo, ciente da complexidade ontológica da realidade e capaz, por isso mesmo, de ouvir o que o Outro tem a dizer, - o que, como apontei, converge, no plano político, com as suas convicções democráticas.

- IV -

Foi na linha dos critérios de Nabuco que a Academia veio a ter três presidentes do Brasil entre os seus membros: Getúlio Vargas, eleito no exercício da Presidência, José Sarney, eleito antes de ser Presidente e agora Fernando Henrique, eleito depois de ter sido Presidente. Todos os três têm em comum a inequívoca avaliação da relevância da instituição para a vida brasileira.

Faço um parêntesis para observar que a Academia poderia ter tido mais um Presidente entre os seus quadros não fora a soturna sombra do regime autoritário que descarrilou, em 1975, a eleição do ex-Presidente Juscelino Kubitschek para nossa Casa.

O acadêmico que hoje se empossa expressou o seu alto apreço pela nossa instituição ao se comemorar o centenário da Academia. No discurso que pronunciou nesta Casa em 20 de julho de 1997 a convite da acadêmica Nélida Piñon que, na ocasião, dirigia com seu encanto pessoal e a criatividade do seu talento de escritora a Casa de Machado de Assis, o então Presidente Fernando Henrique destacou o significado da instituição para o país. Realçou o seu papel no alargamento da cultura e na preservação do idioma, elementos centrais da nacionalidade. Na sua reflexão sobre a língua, matriz fundamental como ele observou, de todas as instituições, e modelo mais acabado da dialética da mudança e da permanência, da universalidade e da particularidade sublinhou, na linha que destaquei da sua identidade política, como a prática da democracia está associada ao uso do idioma e como a nossa língua é o instrumento básico para que a cidadania se realize de forma plena. Concluiu o seu discurso na expectativa de que a Academia continuará como instituição, exercendo a sua influência sempre positiva na preservação e no fortalecimento da nossa cultura. Para este papel contribuirá como ocupante da cadeira 36.

Nosso confrade e decano José Sarney é um acadêmico que se tornou Presidente. Foi, com grandeza, um dos patronos da candidatura de Fernando Henrique, em conjunto com a acadêmica Nélida Piñon. Sucedeu, nesta Casa, a José Américo de Almeida, grande escritor e grande político - nas palavras do saudoso confrade Josué Montello no seu discurso de saudação ao acadêmico que então se empossava. Estava por isso mesmo José Sarney à vontade em pleitear a sucessão de José Américo na concomitância da sua vocação pelas Letras e pela Política, tendo apontado no seu discurso de posse que Política e Literatura “São dois rios, duas faces, dois mundos não antagônicos”. Eleito em 1980 tanto pelos seus dotes de escritor e de ativa participação na vida cultural do país quanto de homem público, preocupado e interessado como publicista nas ideias e nas instituições, chegou à Presidência, como a seu modo Fernando Henrique, pela fortuna; pela ação do Deus avulso do imprevisto de que falava Machado de Assis. Exerceu-a com virtú e o país deve ao seu talento político e ao corajoso sentimento de suas próprias forças o bom encaminhamento da transição do regime autoritário para a democracia.

Getúlio Vargas foi eleito em 1941 no exercício da Presidência do país. A ela chegou, ao seu modo, pela virtú de que se valeu para lidar com as oportunidades oferecidas pelo potencial de sua fortuna. Empossou-se em 1943 e no seu discurso afirmou: “A atividade intelectual é para mim uma imposição da vida política” e observou que não sendo “um escritor de ofício” habituou-se, desde moço, como leitor, ao convívio das obras de poetas e romancistas e reconheceu “a atração que sobre ele sempre exerceram os homens de pensamento”. A leitura do seu Diário, publicado em 1995 - com rigor acadêmico e zelo familiar por sua neta Celina Vargas do Amaral Peixoto - mostra que, na intimidade da sua narrativa sobre a vida no exercício do poder, no período que se estende de 1930 a 1943, ele estava inteiramente à vontade no mundo das palavras e ciente da sua potência.

Assis Chateaubriand ao traçar-lhe o perfil no discurso em que o sucedeu nesta Casa, apontou como “eram medidos, claros, harmoniosos os seus dons de expressão”; e que se via, desde logo, quando redigia, “que era uma índole de cultura”, que “tinha uma prosa castigada”, que “corrigia o que ditava ou redigia mais de uma vez” e que na sua linguagem “era preciso, elegante e sobretudo bem proporcionado”. Apontava ao mesmo tempo o contraste entre o caudilho de revoluções e o “metal de uma linha de compostura” dos seus manifestos. Não é por acaso que, em entrada do seu Diário, Getúlio, relatando o encontro com Roosevelt, além de descrever a “simpatia irradiante” do Presidente norte-americano, frisou sua característica de “orador claro, simples e cheio de imaginação, mas despido de hipérboles criollas”.

Sette Câmara, que trabalhou na década de 1950, no segundo governo de Getúlio Vargas no Gabinete Civil confirma no seu livro-depoimento Agosto1954 estas características do escrever do Presidente, que pautava seus discursos “com impecável clareza e lucidez, num admirável estilo seco e direto”, que corrigia e modificava as minutas que lhe eram apresentadas, e que buscava ser exato e preciso, pois não gostava de prolixidades.

No seu Diário Getúlio confessa “gosto mais de ser interpretado do que de me explicar”, tendo também dito a Chateaubriand: “Prefiro não dizer o que penso. Gosto que me interpretem”. Pois bem, à tarefa de interpretá-lo dedicou-se Assis Chateaubriand no seu admirável discurso de posse nesta Casa em agosto de 1955, que tem entre os seus muitos méritos o de desvendar o significado do hiato entre a clareza do estilo e o enigma da personalidade e de uma ação que era o real contraditório que encarnava.

Como apontou Assis Chateaubriand, o enigma provém do fato, de que a “peculiaridade de Vargas” era a de que “não havia um só Vargas. Há variados, específicos e numerosos Vargas e cada qual com a sua psicologia, a sua característica, a sua fala e as suas idiossincrasias”. Por isso “gostava de se exprimir e de se interessar através dos outros. Adorava o seu próprio silêncio que era suntuoso como um fundo de água de coral marinho”. Era, ao mesmo tempo, dinâmico e estático, “um infernizado da ação, mas tudo isso debaixo do lençol submarino”.

A clareza do seu estilo era a superfície do lençol de água que contrastava com o submarino do seu ser, nas palavras de Chateaubriand de “sacerdote e feiticeiro” das artes da política que conviveu com toda a Arca de Noé. Esta foi a maneira pela qual cultivou o mistério e a distância com a qual exerceu o seu poder na vida brasileira, com “elegante volubilidade”. Esta estava em sintonia com sua reflexão sobre Darwin em seu Diário de que “vencer é adaptar-se...” que quer dizer “tomar a coloração do ambiente para melhor lutar”.

Chateaubriand concluiu o seu discurso observando que Getúlio foi “o espongiário magnífico deste oceano humano que é o Brasil” e “com força elementar de vida” tornou-se uma “deslumbrante aquarela do Brasil” que puxou o Brasil ao invés de ser por ele arrastado. Deste modo mudou o nosso país e moldou a sua modernidade histórica, dele fazendo, com seus méritos e desvãos, um válido representante das superioridades da nação.

Cada um de nós tem a estratégia da sua personalidade, pois como esclarece o pe. Antonio Vieira no Sermão da Sexagésima, “O pregador há de pregar o seu e não o alheio” e, explicando porque Davi não aceitou as armas que Saul lhe ofereceu para combater o gigante, afirma: “Com as armas alheias ninguém pode vencer, ainda que seja Davi. As armas de Saul só servem a Saul e as de Davi a Davi”. Foi por isso que o acadêmico Fernando Henrique, fiel a si mesmo, pelejou na vida política com as suas armas - as de professor e intelectual - e não com as de Getúlio e, por isso, em contraste com este, optou por explicar e não pelo desejo de, cultivando o seu mistério, ser interpretado.

O bem explicar exige o dom da palavra e a capacidade de comunicar-se com facilidade, conhecidos e comprovados atributos do acadêmico Fernando Henrique. Atributos indispensáveis para quem, como ele, buscou convencer para reformar e não custa, neste contexto, lembrar com Machado de Assis, que “O verbo é a origem de todas as reformas”.

O ato de explicar e o empenho em ser compreendido são inerentes à condição de professor e foi este modo de ser que o acadêmico Fernando Henrique transpôs para o espaço público, na oposição ao regime militar, no Parlamento, como Ministro das Relações Exteriores e como Ministro da Fazenda e no exercício da Presidência. Foi por meio da aposta política no explicar que enfrentou, no seu percurso, o desafio representado pela dialética da complementaridade entre teoria e prática, pensamento e ação, razão, vontade e emoção que constituem as polaridades configuradoras das relações entre os intelectuais e o poder.

Foi explicando que cresceu no âmbito político dos quadros de oposição, chegou ao Senado, liderou como Ministro da Fazenda o Plano Real e enfrentou o monstro da inflação, elegeu-se duas vezes pela maioria de um grande eleitorado, no primeiro turno, Presidente da República, e governou. Governou juntando talentos e equipes - como sabe fazer um grande professor-pesquisador - e fundamentando pela explicação as razões de sua ação e do seu sentido de direção - como está documentado nos 16 volumes que reúnem as suas palavras de Presidente. Foi explicando que, na sua pós-presidência, reposicionou democraticamente a sua presença na agenda do debate nacional e internacional na condição de jovem elder statesman em grande forma e na plenitude das suas qualidades de grande intelectual e grande homem público. A sua palavra retém prioridade e é dotada de autoridade - menos que um comando, mas mais do que um conselho, na definição do grande romanista Mommsen.

A sua autoridade tem como lastro o legado do seu percurso e o modo como, democraticamente, dosando harmonização com inovação e transformação nos oito anos da sua presidência impactou a dinâmica da sociedade brasileira. Com efeito, guiado pelo seu sentido de direção, preocupado com a igualdade não dissociada da liberdade, e impelido pelo amor ao Brasil, construiu um novo patamar de possibilidades para o nosso país e a nossa sociedade.

Atendeu plenamente ao que Nabuco em Balmaceda formulou como critério para avaliação de um governante. Cito: “O valor dos chefes de Estado sul-americanos tem que ser julgado pelo resultado da sua administração... Para julgá-los é preciso comparar o estado em que receberam o país e o estado em que o deixaram, o inventário nacional quando entram e quando saem”. Em todas as esferas da vida nacional - da estabilidade da moeda com o Plano Real e da racionalização administrativa com a legislação da responsabilidade fiscal; da valorização dos diretos humanos e da democracia e do destaque à agenda ambiental, do novo alcance das redes de proteção social às políticas afirmativas da inclusão - os saldos altamente positivos do inventário da sua gestão representaram ganhos duradouros no processo contemporâneo da adensada construção do Brasil.

A palavra autoridade provém do latim, do verbo augere, aumentar, acrescentar. Ao lastro das suas realizações e do seu percurso, o acadêmico Fernando Henrique vem acrescentando na sua pós-presidência a inconfundível marca da inovadora qualidade de suas análises e reflexões, interessado, como sempre, com o presente na perspectiva do futuro. Daí a influência, revestida de autoridade, da sua palavra, a de quem é capaz de olhar o distante e observar o perto, nas palavras de Goethe, apto por isso mesmo a orientar-se na História e exercer, no espaço público, para falar com Albert O. Hirschmann, a sua íntegra “paixão pelo possível”.

É hora de encerrar esta saudação, redigida, como disse, sob o signo da amizade e da admiração, mas empenhada na verdade, a primeira, porém dificultosa qualidade da História como advertia o pe. Antonio Vieira. Está, no entanto, em sintonia com a observação neste contexto do “Imperador da língua portuguesa”: "Todas as penas nasceram em carne e sangue, e todas na tinta de escrever misturaram as cores do seu afeto”.

Seja bem-vindo a esta Casa querido amigo acadêmico Fernando Henrique, nesta solenidade de sua posse, no acolhimento do alto apreço dos seus confrades que tão expressivamente o elegeram, e com a numerosa presença de tantos amigos e admiradores e o afeto dos seus próximos - seus filhos Paulo Henrique, Luciana e Bia, seus netos e de Patricia.

11 de setembro de 2013