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Discurso de recepção

Discurso de recepção por Arnaldo Niskier

“Amá-la – foi a resposta e também
acredito que ela entendeu isso. Formamos,
ela e eu, uma dupla dinâmica contra as
ciladas que se armam. E também contra
aqueles que não aceitam os que se amam.”

À Mila – Carlos Heitor Cony

Diante da belíssima paisagem da Lagoa Rodrigo de Freitas, visivelmente emocionado, Carlos Heitor Cony mostrava com orgulho o seu chaveiro abençoado: “É de Nossa Senhora de Fátima. Tem me dado muita sorte.”

A revelação provocou um espanto. Na verdade, logo seguido de outro. O acadêmico recém-eleito apontou para uma estante iluminada, à sua frente, e confessou: “Ali estão dois símbolos que me fazem um grande bem: o missal romano e a menorá judaica.”

Sr. Carlos Heitor Cony,

Tendes com a religião alguns paradoxos aparentemente inexplicáveis. Nascestes católico, talvez cristão-novo, com um sobrenome que pode muito bem ser a corruptela ibérica de Cohen, tradicional família hebraica. Proclamai vos agnóstico, depois de frequentar o famoso Seminário São José, no Rio, citado por Machado de Assis no clássico D. Casmurro. Isso explica muita coisa, sobretudo o que considerais a frase mais inspirada da missa: a que se refere aos mistérios da fé. Lestes no Seminário muitos livros, principalmente os clássicos, em edições antigas e já desgastadas pelas mãos do tempo.

Ainda ouço vossa reiterada afirmação de que o Eterno não existe, mas confessais uma grande afeição pelos santos. Podeis ser enquadrado na frase que se tornou clássica: “Sois agnóstico, graças a Deus.”

Cony, jovem, amou o Todo-Poderoso com muita intensidade, para depois afirmar: “Gastei de forma perdulária minha cota de Deus. A conta foi cancelada.”

A equivocada crença é de que ficastes sem Deus e sem eternidade.

Uma doença, felizmente superada, provocou o justificado protesto: “Considero muito arbítrio, por parte do Criador, isto de excluir alguns do corpo de eleitos.”

Daí a revolta, acompanhada de uma prudente resignação, o que não impediu o vosso apego a certas criaturas de Deus que mereceram o nome de santos ou mesmo Nossa Senhora, cuja data hoje se celebra. São vossas palavras, numa luxuosa edição da Bíblia:

          A figura de Nossa Senhora, mãe de Jesus, me deixa cada dia mais comovido. Pensar naquela humilde mocinha de Israel, totalmente indefesa e humanamente desvalida, que, de repente, recebe uma mensagem espiritual e se descobre prenhe de Deus. É tão extraordinariamente belo que a imaginação humana jamais seria capaz de conceber uma invenção destas. E São José, o modesto carpinteiro, que certamente se apaixonou por aquela menina de 15/16 anos e quis fazer dela a sua mulher... De um dia para outro, se vê envolvido numa história absolutamente fantástica, na maior aventura da humanidade, e se submete com a maior humildade do mundo. A personalidade dos santos é simplesmente fascinante.

Os quase dez anos de seminário, na adolescência, jamais se apagaram da memória do romancista, que recorda com emoção as antífonas à Virgem, suas ladainhas, as polifonias de Perosi, a Schola Cantorum e o cantochão da Semana Santa. Ao lado disso, registra-se a enorme influência do Evangelho de São João, que vos aproxima também dos Atos dos Apóstolos e do Eclesiastes, puncti luminosi da Bíblia.

Talvez provenha desses tempos inesquecíveis o possível e desejável reencontro com a fé: “Ensinar religião como matéria acadêmica é uma necessidade na formação do ser humano que ambiciona viver e conviver num plano moral.”

Pode ser um Cony de volta à adolescência, com os sonhos que agora retornam, felizmente ainda muito antes do seu crepúsculo.

Nada em Cony é definitivo, a não ser a paixão de 24 anos por sua mulher Beatriz Lajta, que merece desde logo a nossa mais carinhosa homenagem, além dos filhos Regina, Verônica e André, tratados com insuperável desvelo.

Não era vosso desejo candidatar-vos à ABL, resististes bravamente a muitas insinuações. Agora, aqui estais, risonho e feliz. Conquistamos para o nosso convívio de sempre o escritor que Nelson Werneck Sodré chamava de “cronista admirável”. Encarnais, de forma extraordinária – como foi o caso de Émile Zola, lembrado por Victor Hugo –, “um momento da consciência humana”. Nossa luta, agora, será pela vossa conversão. A eternidade já está garantida.

A GLÓRIA ACADÊMICA

Nesta Casa de tantos e tão qualificados romancistas, com que alegria registramos a vossa chegada. Aos 74 anos de idade, alcançais com todos os méritos a glória acadêmica.

Escritor e jornalista, substituís na Cadeira 3 outro grande escritor e jornalista, cujo nome será permanente em nossa memória: Herberto Sales, o grande autor de Cascalho e outros romances para sempre inseridos na bibliografia brasileira.

Chamado por Aurélio Buarque de Holanda de “mestre da prosa”, Herberto foi um homem de muitas afeições e de saudades sem conta. Suas memórias também eram muito apreciadas. De cada uma delas, saía-se gostando mais ainda do autor, para quem “a Literatura é feita de letras e de espinhos”.

Na Academia Brasileira de Letras, hoje com 103 anos de vida, ocorre como que um revezamento. Não se trata propriamente de substituição, mas de continuidade, sobretudo quando são dois profissionais do mesmo ofício. Herberto baiano e Cony carioca, ambos ourives da palavra escrita, irmãos na estima e no estilo que consagrou duas carreiras de sucesso.

Sr. Carlos Heitor Cony,

É antigo o nosso empenho para contar com a vossa presença entre nós. Ganhastes por duas vezes seguidas o Prêmio Manuel Antônio de Almeida, com o romance A Verdade de Cada Dia, em 1957, e em 1958 com Tijolo de Segurança. O tricampeonato veio com o Prêmio Machado de Assis, numa eleição histórica, em 1996, pelo conjunto da obra. Na ocasião, nesta mesma tribuna, tive a intuição de anunciar o nosso secreto desejo de eleger-vos. O destino, sempre caprichoso, deu-nos agora essa alegria.

Atuante desde 1957, quando publicastes O Ventre, considerado por Aníbal Machado “um livro impressionante”, sois autor de 33 livros de gêneros variados, oscilando de romances a oportunos ensaios bibliográficos, como os que deram nova vida aos ex-presidentes Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek, além do genial Charles Chaplin.

Marcastes a corajosa posição de crítico do regime autoritário, com as crônicas publicadas no bravo e saudoso jornal Correio da Manhã, em que trabalhastes como redator, cronista, editorialista e editor. Lá vivestes os momentos gloriosos de O Ato e o Fato, hoje um repositório da História do Brasil. E também da defesa inabalável dos direitos humanos, de que sois, na imprensa, um autêntico paladino, desde o início, em 1952, no Jornal do Brasil. Vosso estilo consagrou-se na crônica diária do Jornal Folha de S. Paulo, do qual sois membro do Conselho Editorial, e também na Rede Globo de Televisão, onde praticais inspirado jornalismo eletrônico, depois de uma bela passagem pela teledramaturgia da Rede Manchete de Televisão, no período de 1985 a 1990.

Tivemos o privilégio de conviver, por mais de 30 anos, na revista Manchete. Foi lá, na bonita sede do Russell, que conversamos muitas vezes sobre as dificuldades da vida, nossos sonhos e devaneios, e lá pude perceber de forma nítida o vosso amor preferencial pelas figuras literárias dos escritores cariocas Machado de Assis, Manuel Antônio de Almeida, Marques Rebelo e Lima Barreto, romancistas que valorizaram o Rio em suas obras. Deste último, recordo o verso oportuno:

Estamos em maio, o mês das flores, o mês do sagrado
pela poesia. Não é sem emoção que o vejo entrar. Há
em minha alma um renovamento; as emoções desabrocham de novo e,
de novo, me chegam revoadas de sonhos.

Pode existir algo de mais significativo, na crônica do grande autor de O Triste Fim de Policarpo Quaresma, marcando inclusive o mês de maio, como premonição desta posse?

Tendes uma vasta coleção de sucessos. No momento da saudação, é importante que o orador exerça o direito de proclamar o seu juízo de valor, selecionando os principais e vitoriosos títulos: Antes, o Verão; Balé Branco; Pessach: a Travessia e Pilatos.

O ATO E O FATO

Raro é o escritor brasileiro com tantas premiações. O Quase Memória, recebido com aplausos gerais, foi escrito em seis meses, num estilo que oscila entre o lírico e o picaresco. Está na 17.ª edição, vendeu mais de 120 mil livros e foi traduzido para o francês por Henri Rillard. Editado em Paris pela exigente Gallimard, mereceu da Câmara Brasileira do Livro o Prêmio Jabuti de 1996 como “melhor livro de ficção do ano”; em 1997, O Piano e a Orquestra foi aquinhoado com o Prêmio Nacional Nestlé de Literatura, mesma láurea recebida mais tarde com A Casa do Poeta Trágico. E por último, em 1999, as homenagens ao Romance sem Palavras, que recebeu o Prêmio Jabuti. São sete grandes prêmios, na Literatura Brasileira.

Como cronista, publicastes: Da Arte de Falar Mal; Posto Seis e O Ato e o Fato. Podemos registrar ainda uma coletânea de crônicas com o título Os Anos mais Antigos do Passado e o livro de contos Babilônia! Babilônia!

De todas essas obras, algumas das quais vertidas para outros idiomas e inspiradoras de filmes de muito sucesso, surgiram comentários que podem ser lembrados como pontos altos, como fez o Acadêmico Gilberto Amado: “Carlos Heitor Cony representa um momento excepcional da nossa Literatura.”

Para o crítico Wilson Martins, o Quase Memória é uma obra-prima, enquanto o cronista Roberto Pompeu de Toledo afirmou que “Cony pega seu tipo inesquecível e o torna tipo inesquecível da Literatura Brasileira”.

Confessais sentir um calafrio, mais na alma do que na espinha, quando sois chamado de intelectual. Não tendes como escapar desse inverno existencial, que, de toda forma, vos salvou de ser maquinista da Central, como chegou a ser um dos primeiros desejos. Sois personagem dos próprios romances, passados na terra carioca, onde exerceis o duro ofício de viver, como aconteceu com Leonardo, do Memórias de um Sargento de Milícias; Brás Cubas em Memórias Póstumas e O Homem que Sabia Javanês, de Lima Barreto. Para Otto Maria Carpeaux, “Cony é o maior nome do neorrealismo brasileiro”.

Homem afeito às redações desde 1952, quando frequentastes, ao lado do pai mítico, o Jornal do Brasil, cedo aprendestes o valor da questão prioritária do convívio. A Academia não julga o valor da obra de ninguém, mas aprova aquele que, sendo um intelectual, é capaz de demonstrar a capacidade de convívio. Não foi de outra maneira que o nosso patrono, Machado de Assis, citou os primeiros tempos da ABL, em carta escrita a Joaquim Nabuco: “A nossa Academia Brasileira tem já o seu aposento, como deve saber. Não é separado, como quiséramos; faz parte de um grande edifício, dado a diversos institutos.”

A despeito do que parecia um convívio promíscuo, ainda assim deu os primeiros passos e depois deitou raízes para ser hoje a mais importante casa de cultura em nosso país. Está no imaginário popular com esse prestígio.

HOMENAGEM AO PAI

O romance Quase Memória, que aborda o fascinante universo jornalístico, em estilo meio reportagem, meio crônica e meio ficção, é homenagem à figura paterna. Com ele, viveu momentos de intensa cumplicidade:

          Meu pai sempre procurou as coisas e o excesso das coisas. Depois que eu saí do Seminário, esta cumplicidade cresceu mais ainda. Tentei colocar a figura do pai em seu devido lugar.

Quem convive com Cony sabe o quanto ele admirava o pai e as originais histórias de jornalista e boêmio. Sempre nos deliciamos com as evocações sobre o velho Ernesto Cony Filho, a principal das quais referia-se à sua técnica imbatível de construir balões. O retrato dessa realidade, no romance carioca, é um dos pontos mais expressivos da Literatura Brasileira, com algumas lembranças que recordam o Isaías Caminha, de Lima Barreto. Vejamos a inspirada recordação de Cony:

          Da boca e do rombo que ele abrira na lateral saíam rolos de fumaça, já esbranquiçada, revelando que o monstro entrava em coma. E ele caminhava sobre a sua conquista, em largas passadas, pisando aqui e ali, onde ainda havia vestígio de ar. Tombando, exausto como um touro ensanguentado na arena, o balão se rendeu, vencido, cadáver, animal fatigado que escolhe o lugar onde nasceu para morrer.

Quanta beleza na síntese que recorda a saga dos balões do Rio de Janeiro, hoje quase proibidos: “As gigantescas lanternas coloridas escreviam, nos céus da cidade, uma história de luz e liberdade.”

Se os balões fossem entregues somente a mãos profissionais, como as do pai do Cony, certamente as tragédias seriam evitadas. Eles tomariam sempre o caminho do mar, afundando junto com os sonhos antes iluminados.

Em todos os romances, em que transparecem inspirados momentos de realismo mágico, há um forte teor autobiográfico. No Pilatos, alcançastes um momento de ruptura, vivido numa época plenamente feliz. Daí a explicação dos 23 anos de posterior solidão literária: “Eu não tinha mais nada a fazer.”

Sobreveio, então, a dor do envelhecimento e da doença da cadela Mila. Ela passou a dormir de dia, para ficar a vosso lado à noite. A ternura desse enlace expandiu-se até os limites do que pode alcançar o sentimento.

São recordações da era do jornalismo romântico, “quando não havia copidesque, computador ou mesmo carteira assinada”. Jornalismo e arte misturavam- se numa só conspiração.

Como se pode perceber, nesse trecho do premiado romance, em que o pai, professor improvisado, buscou recuperar o tempo perdido na escola não frequentada:

          Na véspera da lição, ele deixou escrita no quadro-negro uma mensagem para mim: “Amanhã, às cinco e meia, impreterivelmente, partiremos de casa para os altos do Sumaré, a fim de assistir ao nascer do sol e com ele aprender a orientação sobre o planeta Terra. Traje: esporte. Atenção: acordar meia hora antes da saída, fazer a higiene, tomar café e apresentar-se à sala na hora aprazada. PS: Haverá merenda para o aluno.”

O rigor misturado à preocupação com a necessária aquisição de conhecimentos. Cony costumava dar vexame nos números, mas alegrava o pai nas redações.

Glutão, não poderia perder um passeio ao alto do Sumaré, “a subida na fresca da manhã abrindo o apetite, a beleza do espetáculo, ver o sol nascer em cima da baía, levantando-se das águas, encharcado de mundo, era demais”.

Com nove para dez anos, longe de ser um retardatário na vida, era do pai que vinham as melhores e mais completas lições.

À MILA

Do amigo, há tantos segredos que só uma posse seria pouca para as inevitáveis revelações. Cony singular, uma grande e personalíssima figura humana. Capaz de tudo pelos amigos, devotou-se de corpo e alma a Mila, doce e leal companhia por mais de 13 anos de “chamego e encanto”. Quando a cadelinha setter se foi, escrevestes uma das nossas mais pungentes páginas literárias, revelando intimidades jamais confessadas:

          Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.

Passeando na Lagoa Rodrigo de Freitas, Cony considerava-a uma lady, uma rainha de Sabá, numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários. Para concluir:

          Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.

Publicada a crônica, foram centenas as manifestações de solidariedade. Nesse momento de pura melancolia, é oportuno relembrar um trecho de Antes, o Verão:

          Eu restei só. Só, como sempre procurei estar esses últimos dias. Breve virá o jantar e depois iremos cada qual para seu lado. Não sei o sonho que visitará seus olhos. Eu velarei. Gastarei esta última noite horrivelmente lúcido, esbarrando em meus próprios escombros, flagelado pelos meus próprios fantasmas. Se eu gritar mais forte – não há o que temer: é que os fantasmas ou os escombros feriram mais fundo, e irreparavelmente.

Com mais graça e sentimento do que o escritor italiano Umberto Eco.

São compreensíveis as saudades de Austregésilo de Athayde, que se ofereceu espontaneamente para depor a vosso favor, nos idos nebulosos de 1964, e Otto Lara Resende, a quem substituístes na crônica diária da Folha de S. Paulo. Dois seres humanos excepcionais, que fazem muita falta à Academia.

Com ódio à violência, mas preocupado, como Graham Greene, com as tormentas da fé, assim vos definistes:

          Sou um homem desarmado, não tenho guarda-costas, nem medo. Tenho, isso sim, uma obra literária que, bem ou mal, já me dá uma razoável sobrevivência. Esse o meu patrimônio, essa a minha arma.

A que agora agregamos a honrosa condição de imortal, recebido com toda pompa e circunstância, para saborear conosco o humor machadiano, de que sois igualmente paladino, como causeur de primeira ordem.

Torcedor do Fluminense, razoável pianista, um bom pintor influenciado pelo amigo Manabu Mabe, apaixonado pelos clássicos norte-americanos George Gershwin, Cole Porter, Irving Berlin e Jerome Kern, deixastes espaço para amar compositores brasileiros como Noel Rosa, Lamartine Babo e Ary Barroso. Sem esquecer a paixão solitária pela ópera ou o gosto bissexto pela fotografia.

Visitastes, a serviço ou por puro prazer, muitas capitais deste mundo que amamos com restrições. Mas nada que se compare à paradisíaca cidade de Positano, na costa amalfitana, com os seus rochedos impressionantes, impregnados de história. Foi vosso o conselho, jamais esquecido, para que lá fôssemos, eu e Ruth, a hospedar-nos no Hotel San Pietro, ao lado da cinematográfica residência de Zefirelli. Que saudades de Mr. Cinque e de suas riquíssimas histórias, com gosto de Itália, de que sois parte ponderável.

De Havana, trouxestes o hábito de fumar os legítimos cubanos, com a esclarecedora revelação: “Um charuto ajuda a refletir e a curtir os bons momentos da vida.”

O clima é fundamental, como sabemos, nesses pontos luminosos que podem mover a nossa vida. Entre uma baforada e outra do partagás, sois capaz de vos comover com a melodia insuperável do órgão que marca o laudamus te, veneramus te, adoramus te.

Com o sentimento de nostalgia das coisas inacabadas, em O Piano e a Orquestra, no ano de 1996, abordastes o “quase Brasil” contemporâneo, em que cenas como a que descreveis constituem realidade do cotidiano do interior, com o clarão do estilo inconfundível:

          Trazia o chapéu de imensas abas, abas negras que davam a seu rosto uma palidez sobrenatural. Os olhos eram ferozes, enormes, coruscantes, viam além e mais. A bengala, reforçada com o facão mais poderoso de O Talho da Serra, estava colada a seu corpo, escondida pela imensa capa. Da sua figura até então conhecida e desdenhada pelos rodeienses, só tinha mesmo os pés descalços.

Vosso texto – como gosta de afirmar o jornalista Jânio de Freitas – restitui o sabor da leitura, com uma personalíssima artesania, em que demonstrastes a capacidade de dar transcendência às coisas mais triviais.

Grande contador de histórias, com aquele jeito carioca de ser, gostaríeis de não levar a sério o século em que vivemos. Por isso, já providenciamos para que, como imortal, continueis a viver também no próximo.

UM HOMEM DESARMADO

Fostes vítima do regime militar de 1964, com o sofrimento de prisões absurdas, pois nunca fostes esquerdista.

Homem corajoso, como demonstrastes em várias ocasiões, sempre tivestes ojeriza ao arbítrio. Não sofreis de radicalismo ideológico, embora nas seis prisões com que fostes galardoado a companhia fosse de primeira: entre outros, Ênio Silveira, Flávio Rangel, Glauber Rocha, Antonio Callado e Joel Silveira, este felizmente ainda vivo e atuante. Entendemos vosso desabafo, proclamando que “a cadeia é o lugar natural de quem protesta publicamente contra as iniquidades do Governo”.

Se a Literatura pode ser concebida como a arte de escrever, sois um completo e consagrado literato, vocacionado para o martírio ideológico (quando a esquerda vos condenava) ou político, em virtude da reação ao regime autoritário. Felizmente, são fases superadas, mas que deixaram marcas profundas no cidadão que é considerado um dos maiores intelectuais brasileiros da atualidade.

Tendes permanente inspiração na Crônica e mais ainda na Literatura, com imenso sucesso de público e de crítica, como se costuma dizer. Daí a repercussão da carta que enviastes ao confrade Ariano Suassuna, reclamando que mais de um terço da humanidade vive na miséria absoluta. A solução é de vossa lavra: “Bastariam 10% da renda líquida dos países desenvolvidos para diminuir ou mesmo acabar com essa chaga social.”

Acrescento a minha preocupação: se até 2010 o mundo contará com mais 1 bilhão de habitantes, como assegurar alimentação para todos?

Se não é factível a proposta do novo acadêmico, que pelo menos ela se fixe como sugestão de quem não se conforma com o quadro de atraso que infelicita boa parte das nações, sobretudo as que se encontram no Terceiro Mundo.

Sois dono de uma sólida cultura, amealhada nos bons tempos do Seminário; tivestes frequente presença na programação oficial do Teatro Municipal, quando colaborastes com as “demências admiráveis” de Adolpho Bloch. Agora, na era do computador, sem pressa e sem pausa, como recomendava Goethe, teceis as últimas tramas do próximo romance: Messa pro Papa Marcello.

O que há de notável na obra é que o personagem João Falcão largou a batina aos 18 anos, proclamando que “Deus acabou”; aos 48 anos de idade, repensa a fé – e não se atreve a dizer o mesmo. Admite a concepção judaico-cristã ocidental, colocando o Divino numa esfera superior, com a visão voltada para a expressão Cor unum et anima una, ou seja, um só coração e uma só alma, nesta sociedade de tantos e tão escandalosos desequilíbrios.

Não será o reencontro de Carlos Heitor Cony com a fé antes questionada? Convém lembrar que o pai desejava que ele fosse padre. Mas admitiu: “Filho, se você não quiser ser padre, que ao menos seja um homem de bem.”

Esse extraordinário homem de bem, carioca da gema, anarquista inofensivo, romancista inspirado, com gosto pela solidão, mas admirável no convívio, que hoje, de braços abertos, recebemos com muita alegria – e para sempre – na Casa de Machado de Assis.

Sede bem-vindo, Acadêmico Carlos Heitor Cony.

 

31 de maio de 2000